É praticamente uma cidade. Lá, estão favelas conhecidas da região Centro-Sul de Belo Horizonte, com população estimada de quase 30 mil pessoas. Na área, de nada menos do que 1,5 quilômetro de metros quadrados, foram erguidas as vilas Marçola, Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora da Conceição, Novo São Lucas, Nossa Senhora de Fátima e Santana do Cafezal. Dono de uma riqueza artística, o Aglomerado da Serra mostra a cara na quinta edição da Virada Cultural na metrópole, monopolizando a Praça da Estação na tarde deste domingo. 

Às 13h, cinco DJs e cinco MCs do Baile da Serra prometem botar o público para requebrar ao som do funk. O ritmo também estará na batalha de passinhos dos dançarinos do Centro Cultural Lá da Favelinha, grupo que permanecerá no palco junto aos baianos do Attooxxá. 

“E o encerramento ainda será de um colega aqui do lado, o Djonga”, enaltece Kdu dos Anjos, coordenador do Lá da Favelinha. “Vamos mostrar para a cidade que não estamos nesse lugar por bondade do poder público. Estamos porque merecemos”, acrescenta.

O artista está à frente do centro cultural desde 2015. No local são oferecidos estudos sobre a cultura Hip Hop, oficinas e atividades de formação para MCs e dança, além de aulas de inglês, teatro e moda.

Presidente da Associação Comunitária do Cafezal, que há 16 anos promove o Baile da Serra, Cristina Pereira, a “Kika”, destaca a riqueza cultural do aglomerado. “Tem desde grupos de capoeira a teatro só de mulheres negras”.

Ela celebra a atenção da prefeitura voltada para a comunidade nos últimos dois anos. Porém, Kika diz que há dificuldade para realizar os shows. “As exigências são as mesmas para os eventos no Centro, e fica muito caro fazer o baile”.

Mesmo assim, eventos na região são garantia de público, arrastando multidões - seja para o baile no aglomerado ou embaixo do viaduto Santa Tereza, como durante a comemoração dos 120 anos de BH, em 2017.

Também se destaca o Bloco Seu Vizinho, que reuniu 50 mil pessoas na Serra no último Carnaval. O público é considerado relevante para uma atração afastada do hipercentro.
 

Vamos mostrar para a cidade que não estamos nesse lugar por bondade do poder público. Estamos porque merecemos
Kdu dos Anjos - coordenador do Centro Cultural Lá da Favelinha


​Alicerce

A estrutura cultural no aglomerado tem uma referência: a Rádio Favela, que desde 1981 enfrentou a clandestinidade, repressão e apreensão de materiais, além de ser obrigada a mudar de local para fugir desses aparatos. A história da emissora inspirou o filme “Uma onda no ar”, de Helvécio Ratton.

Nesse mesmo ano, a Favela recebeu a concessão como rádio educativa. Hoje, a sintonia tem o nome de Autêntica 106,7 Favela FM. “A área cultural sempre foi muito rica e diversificada por aqui, mas não tinha visibilidade. Hoje, BH dá abertura, democratizando e descentralizando essa questão”, afirma Rogério Rêgo, diretor da rádio.

A importância da emissora é destacada pelos artistas da comunidade. “Esperava os programas de rap, para gravar nas fitas do meu pai, de igreja”, relembra o rapper Douglas Din, vencedor do duelo de MCs em 2012 e 2013.

“Desde a minha infância lembro dos bailes black, do samba. Só depois veio o funk”, conta o rapper, em uma memória compartilhada pela produtora cultural Kika. “Havia bailes realizados pelo Misael Avelino com uma Kombi no ponto final do ônibus, porque era até onde o 2151 chegava aqui no morro”.
 

A produtora Kika é presidente da associação que há 16 anos promove o Baile da Serra; ela diz que na comunidade existem desde grupos de capoeira a teatro formado só por mulheres negras


Empoderamento

Kdu dos Anjos comemora a formação, cada vez mais, de produtores entre os moradores. “É importante, pois garante nossa autonomia e o empoderamento das pessoas daqui”.

É esse o espírito que a Virada quer fomentar, diz Gabriela Santoro, presidente do Instituto Periférico. A organização é parceira da prefeitura na realização do evento de 2019. “Nossa visão é implementar o empreendedorismo social criativo a partir da gestão e promoção de eventos culturais, de ações de educação. É trabalhar com os empreendedores da periferia, que muitas vezes não têm a oportunidade de participar dos grandes eventos da cidade. Queremos trazer esse olhar de impacto social”.

E o empreendedorismo cultural do aglomerado não para. O próximo 7 de setembro já está reservado para a celebração do orgulho LGBT, com uma parada organizada pelas associações locais, adianta Kdu dos Anjos. “Nossos projetos são uma manifestação de cidadania e são nosso grito de independência, que espero que sirva de inspiração para as demais comunidades”.