Ninguém mais contava com a astúcia de Chaves quando ele saiu do barriu e ajeitou o suspensório para abater no Ibope dois noticiários matutinos da Globo: o SPTV 1ª Edição, por 7,3 a 7,2, e o Jornal Hoje, por 9 a 8,5. Isso já era 2011, quando o criador do fenômeno mexicano, Roberto Bolaños, contabilizava 82 anos, seis filhos, doze netos e o amor de sua dona Florinda. Um gigante para crianças de 30 países que já havia passado 43 anos em frente a alguma câmera de TV e escrito roteiros em 63 mil folhas, o equivalente a 2,4 milhões de linhas e 168 milhões de letras. As contas são reais e foram feitas por quem mais teve paciência com Bolaños, a atriz Florinda Meza, dona Florinda, o amor de sua vida.

Quando Bolaños falou comigo, há 10 anos, em uma entrevista para o Jornal da Tarde, ele lançava um livro chamado '..Y También Poemas', uma compilação de versos que escrevia havia 25 anos. Seu sonho também era contar a própria história em uma autobiografia delicada. "Vou respeitar as pessoas. Não serei cínico", disse. A turma do Chaves não era mais a mesma havia anos, quando Bolaños descobriu que nem todos que o seguiam eram os bons.

Chiquinha, ou María Antonieta de Las Nieves, foi a mágoa que levou para o túmulo. A atriz registrou a personagem criada por ele sem avisá-lo e saiu pela imprensa justificando-se no melhor estilo novela mexicana. "Eu estava muito mal, minha netinha estava doente, perdi as economias de toda a minha vida na bolsa de valores. E, para completar, sou processada". Ao Jornal da Tarde, Bolaños não escondeu seus sentimentos: "Ela foi minha amiga por muitos anos e eu havia permitido que usasse a personagem Chiquinha em todo o mundo, o que deve ter rendido uma fortuna da qual jamais lhe pedi um centavo. Mas ela quis se apropriar de maneira ilícita dos direitos. O que mais me afetou foi a deslealdade, ela traiu minha confiança."

Os corredores da mexicana Televisa contavam que Kiko, o Carlos Villagrám, havia tido um caso com Florinda antes de ela se casar com Bolaños. Invenção ou não, o fato é que os dois atores passaram 20 anos sem trocar palavras. A ferida nas três pontas do triângulo amoroso se manteria aberta até que a emissora promoveu um reencontro. Bolaños "Chaves" e Villagrán "Kiko" apertaram as mãos, se abraçaram, foram para suas casas e nunca mais se falaram.

Sobre sua volta à TV, aqui está o que Bolaños pensava em seus últimos anos de vida: "Minha imagem continua muito viva por causa das incansáveis repetições dos programas. Por isso, acho que este não é um momento para fazer televisão. Respeito meu público e não quero que ele se canse com tanto Chaves e Chapolin por toda a parte." Sua decisão era tão louvável quanto inútil. Assim que sua morte foi anunciada, no início da noite desta sexta-feira, 28, o SBT exibia mais um capítulo de Chaves.