Demorou mais de um minuto para a multidão perceber que Nhá Chica já era beata e aplaudir a declaração do cardeal Angelo Amato que lhe dava esse título em nome do papa Francisco. Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, o cardeal leu um texto em latim, em seguida traduzido para o português, no qual informava que o pedido de beatificação, feito por d. Diamantino Prata de Carvalho, bispo de Campanha (MG), havia sido atendido.

"Viva a nova beata Nhá Chica!", gritou d. Diamantino ao microfone, neste sábado (4), em cidade de Baependi (MG). Foi então que o povo bateu palmas agitando bandeirinhas brancas com a imagem de Nhá Chica em fundo azul. Eram cerca de 40 mil pessoas, número previsto pelos organizadores da festa. A missa começou pontualmente às 15 horas, sob sol a pino, todo mundo suando muito e disputando as garrafas de água mineral distribuídas por voluntários.

Após a declaração de que Nhá Chica já era beata, a professora Ana Lúcia Meirelles Leite, acompanhada de sua neta Laura, de 9 anos, aproximou-se do altar e entregou ao cardeal Amato uma relíquia da santa, um pedaço de osso do antebraço que será levado para o Vaticano. Ana Lúcia é a beneficiária do milagre aprovado para a beatificação. Ela sofria de defeito congênito no coração e deveria ser operada após sofrer uma isquemia. Os médicos cancelaram a cirurgia, ao constatar que ela estava curada, alegadamente por intercessão de Nhá Chica.

Na homilia de 13 minutos que leu após a leitura do Evangelho, o cardeal Amato exaltou as virtudes de Nhá Chica sem se referir ao milagre. Lembrou a origem e a vida humilde de Francisca de Paula de Jesus, neta de escrava e filha de ex-escrava, que viveu em Baependi vida de monja sem ter entrado num mosteiro. "Nhá Chica rezava muito, era adoradora do Santíssimo Sacramento e tinha profunda devoção a Nossa Senhora", lembrou o cardeal, convidando os fiéis católicos a imitar o exemplo da nova beata.

Autoridades

O ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência da República, representou a presidente Dilma Rousseff. O governador de Minas, Antônio Anastasia, que também assistiu à cerimônia, disse ter a esperança de que Nhá Chica seja a primeira santa nascida no Brasil, pois até agora só existe um santo, Frei Galvão de Sant'Anna Galvão. É pouco provável que seja Nhá Chica, pois o processo de canonização da baiana Irmã Dulce, beatificada em 2011, está mais adiantado. "A festa não termina aqui, pois amanhã cedo vamos celebrar uma missa em ação de graças pela beatificação de Nhá Chica", anunciou d. Diamantino, depois de agradecer ao papa Francisco a proclamação da nova beata. O cardeal d. Damasceno também agradeceu.

Quando a missa acabou, às 17h30, formou-se uma fila no altar, diante de um banner com a imagem de Nhá Chica de pessoas que queriam beijar sua relíquia. Um coral formado por componentes de Baependi, Caxambu, São Lourenço e Cruzília, que acompanhou a celebração, continuou cantando enquanto o povo se retirava.