Um dos berços da mineração pós período colonial em Minas Gerais, Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte, vem passando por uma transformação no perfil econômico, diminuindo a dependência do setor. E uma das principais apostas do município é em operações tecnológicas, distribuídas por cinco zonas limpas de desenvolvimento, com destaque para o Distrito de Inovação e Negócios Digitais, no Vila da Serra, e o Distrito de Biotecnologia, no Alphaville.

A mudança já se reflete no mercado de trabalho privado na cidade. Segundo o instituto Data Viva, entre 2012 e 2017, os empregos na mineração caíram de 6,2 mil vagas (13,2% do total no município) para 1,9 mil (5,1%). Os postos nas empresas de tecnologia ainda oscilam – passaram de 380 (0,8% do total) para 471 (1,2%) no mesmo período, mas com pico de 696 postos (1,6%) em 2016.

O instituto ainda não tem dados de 2018, mas a prefeitura informou que 281 novas empresas do ramo foram abertas desde o ano passado. No mesmo período, 53 novas vagas foram abertas somente para criação e licenciamento de softwares customizáveis e não customizáveis, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

As estratégias de fomento ao setor de tecnologia despontaram justamente num cenário de redução geral de empregos na cidade, em decorrência do ocaso das jazidas minerais. Para a secretária municipal de Desenvolvimento Econômico, Clausy Gomes, a prefeitura vem agindo para alavancar as iniciativas ligadas à TI já instaladas no município, com objetivo de “reter e atrair novas empresas do mesmo segmento”.

“Toda cidade mineradora se preocupa com a diversificação da economia para não se tornar refém da mineração. Inclusive, a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (Cfem) tem o uso direcionado para esse fim, porque um dia os recursos minerais vão se exaurir”, explica Clausy.

Tribunal de Contas

Essa diversificação deveria ter começado na administração anterior. Em 30 de agosto de 2016, o Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG) publicou um relatório técnico que determinava à Prefeitura de Nova Lima apresentar, em 60 dias, um plano de ação para reduzir o impacto ambiental na cidade e diversificar a economia local.

O documento justificava a necessidade de um projeto pelo “esgotamento das reservas de minério”, pelas “oscilações de preço no mercado internacional” e pela ausência de planejamento para aplicação dos fundos da Cfem.

Mas a determinação do TCE só foi cumprida em 6 de junho de 2017, pelo atual prefeito, Vitor Penido de Barros (DEM). Naquele ano, foi registrada uma queda de 7,6% no total de postos de trabalho na cidade, com relação a 2016, passando de 41,7 mil, para 38,5 mil, sendo que só na mineração a redução foi de 62%, caindo de 5,2 mil para 1,9 mil empregados.

Incentivos

Para atrair empresários, em novembro de 2017 foi sancionada a Lei Municipal 2.615, pela qual negócios de desenvolvimento de softwares ou jogos eletrônicos pagam a alíquota mínima permitida para Imposto sobre Serviços (ISS), de 2%.

A medida foi decisiva para a startup ByDoor, que liga pessoas a condomínios e comunidades, instalar-se no Vila da Serra, em fevereiro de 2018. “A carga tributária pesa muito, e Nova Lima quer acolher empresas como a nossa”, afirma o fundador, Leonardo Mascarenhas. Desde a inauguração, a empresa emergente empregou dez pessoas.

Confiante no potencial da área, o hub BiotechTown foi inaugurado no entorno da Lagoa dos Ingleses em julho de 2018. O empreendimento se propõe a reunir startups de biotecnologia e ciências da vida, investidores e especialistas em um só ambiente.

Segundo o CEO da empresa, Pedro Vidigal, vários fatores o atraíram ao local. Os principais seriam os esforços da prefeitura em transformar a região em um centro de biotecnologia e o Projeto Csul, que pretende mudar o perfil de Nova Lima, de “cidade dormitório” para um lugar onde “é possível morar, viver e trabalhar”.

“Nós começamos basicamente com três pessoas e já somos 17, com o pessoal de apoio. A expectativa é ter 20 colaboradores até 2020”, conta o executivo.

Startups se unem e criam comitê para fortalecer região

Startups nova-limenses se organizam há cerca de seis meses para o lançamento do Comitê de Cidades Inteligentes do Vila da Serra, iniciativa que visa fortalecer o empreendedorismo na região e transformá-la em um pólo tecnológico reconhecido. A previsão é apresentar o projeto à sociedade em outubro, em um evento com essa temática. 

De acordo com o CEO da ByDoor e membro da junta, Leonardo Mascarenhas, um ofício foi encaminhado à subprefeitura do bairro no intuito de dar início à formalização da entidade. Hoje, aproximadamente dez empresários compõem o grupo, “com espaço para mais 200”. 

“Queremos a grife Vila Valley, como ocorre em outras regiões. O São Pedro Valley tem sido uma inspiração para nós”, relata Mascarenhas, referindo-se à congregação de startups reunidas no bairro São Pedro, na regional Centro-Sul de BH.