Com os profissionais em home office, os gestores não têm mais como manter controle das horas trabalhadas. A pandemia levou a uma mudança de gestão, saindo de uma cultura de poder e controle para uma cultura de performance. “O empregador lhe pedirá, por exemplo, um relatório para quarta-feira da semana que vem. Você é quem tem que administrar o seu tempo, não importa se será de manhã, de tarde ou de noite. Este novo contexto torna a empresa mais competitiva e agregadora”, observa David Braga, CEO, board advisor e headhunter da Prime Talent, empresa de busca e seleção de executivos de média e alta gestão que atua em toda a América Latina, com escritórios em São Paulo e Belo Horizonte.
 
Em live promovida pelo Hoje em Dia, Braga respondeu a questões de nossos leitores sobre o momento de transição no mercado de trabalho provocado pela pandemia. A pergunta-chave é: preciso mudar ou posso continuar fazendo as mesmas coisas de antes? “O que houve foi uma ressignificação. E isso tem feito que, tantos as lideranças quanto os liderados, desenvolvam outras competências e habilidades. Já que a gente não pode procurar o colega do lado para sanar um problema, agora mais do que nunca teremos que nos comunicar melhor, porque as reuniões têm acontecido no home office por meio de plataformas digitais. O interessante é que nunca tivemos tão isolados e tão próximos ao mesmo tempo”, observa.
 
A pandemia acelerou a digitalização e também potencializou a necessidade de se reinventar e quebrar paradigmas. Como manter o foco e ser assertivo neste momento para realizar as melhores escolhas?
A pandemia do coronavírus veio para “disruptar”, para colocar a palavra disrupção realmente em prática no mercado, nas empresas e nos governos. Para se ganhar maior relevância no mercado de trabalho, que vem sofrendo muitas mudanças, a única certeza que nós temos é a mudança. A primeira coisa que o profissional tem que buscar é relevância. Como fazer isso? Primeiramente, cada um tem que buscar o autoconhecimento, que é a maneira de você saber suas competências e habilidades, no que você é bom e no que precisa melhorar neste mundo digital, está sendo tudo transformado diariamente. Este autoconhecimento pode ser conquistado por meio de terapia ou processo de coaching qualificado. Antes disso, já há algumas competências que lhe tornam um profissional cobiçado. Talento sempre existiu, com ou sem crise. Por mais tecnológica que seja uma organização, é por meio das pessoas que irá fazer suas entregas. Algumas competências, como ter atitude, ser propositivo, ter abertura mental para o novo, são importantes para despertar o desejo dos headhunters. Alguns paracasas têm que ser feitos, como buscar formações, idiomas e o entendimento das tão faladas tecnologias. São pequenas, mas importantes ações para que uma pessoa possa ter a empregabilidade.
 
“Não digo que todo mundo precise voltar (ao trabalho presencial), mas a empresa precisa ser inteligente para entender: quem deve voltar, quem não precisa e quem quer voltar e quem não quer”
 
Qual a importância do empreendedorismo? Mesmo sendo um trabalhador, é possível empreender dentro da organização?
O brasileiro tem o DNA do empreendedorismo, com as pessoas migrando da condição de trabalhador para empresário, abrindo o seu próprio negócio. E, nesta condição, você precisa que as competências e habilidades estejam ainda mais fortalecidas. E é o que muitas pessoas não realizam, pois acham que vão trabalhar menos e ganhar mais. Pelo contrário, você será igualmente exigido, fazendo tudo. Se você é o dono terá que cuidar do marketing, do financeiro, dos recursos humanos, do comercial, das entregas, da limpeza... Então, é um engano achar que, por empreender, não precisará destas competências. O mesmo vale dentro da empresa, você pode ter esse modelo mental de empreendedor. É o intraempreendedorismo. Ou seja, é você ter o senso de dono, olhar para um processo na organização, perceber um problema e tentar mudá-lo. A gente carrega uma ideia-tabu de que inovação é aplicar tecnologia. E não é. Inovação é melhorar aquele processo já existente, para você fazer mais rápido ou diminuir custo.
 
Quais são as competências racionais (hard skills) e emocionais (soft skills) mais desejadas pelos headhunters? Hoje tem sido comum as empresas contratarem pessoas em função destas habilidades.
Exatamente. Isso sempre aconteceu. Às vezes a pessoa é contratada pelo lado técnico e demitida pelo comportamental, que tem a ver com a não aderência à organização. É importante diferenciar hard skills e soft skills. O primeiro representa todas as graduações que você busca fazer, como uma certificação técnica ou a melhoria de um idioma. É tudo aquilo que traz a racionalidade e o pragmático. No caso das soft skills, elas são inatas, já nascem com a gente, como aquelas crianças super comunicativas. Todavia, é possível que você melhore suas competências e habilidades. O que nós, da Prime Talent, temos visto são diretores e presidentes serem trocados simplesmente por não terem bem equacionada a questão das soft skills, que estão relacionadas com a tomada de decisão e o controle emocional num momento de crise. É preciso engajar o público interno e ter ousadia e criatividade. Se você não tem soft skills bem desenvolvidas, há a possibilidade de buscar um processo de coaching e de mentoria. É o que fará você ser um profissional diferenciado e ter empregabilidade.
 
A pandemia, com o trabalho em home office, atrapalhou o desenvolvimento destas competências de alguma forma? Ou houve uma ressignificação?
Essa é a palavra perfeita: houve ressignificação. E isso tem feito com que, tanto as lideranças quanto os liderados, desenvolvam outras competências e habilidades. Já que a gente não pode procurar o colega do lado para sanar um problema, agora mais do que nunca teremos que nos comunicar melhor, porque as reuniões têm acontecido no home office por meio de plataformas digitais. O interessante é que nunca tivemos tão isolados e tão próximos ao mesmo tempo. As reuniões nas empresas têm ocorrido com uma frequência muito maior, às vezes diária, enquanto que presencialmente, no mundo antigo, vamos dizer assim, tinha que agendar e, muitas vezes, nem todos tinham disponibilidade para estarem juntos. A situação tem requerido outras formas de atuação destes profissionais, como a maneira de conduzir a reunião com o seu time. Este novo modelo traz novos conceitos. O home office traz novos modelos de atuação. Não se trata de um assunto novo. Mas devido ao nosso sistema trabalhista retrógrado, a pandemia teve que “forçar” para que isso acontecesse.
 
'Numa pandemia como esta, tivemos líderes que sequer ligaram para os funcionários. Como falar de empatia com o público interno se o líder não se aproxima dos profissionais?”
 
Este cenário irá continuar? Como fazer com que a produtividade não caia?
Eu brinco que as pessoas não estão ainda totalmente no home office, mas sim no “caos office”, porque há o cônjuge, o filho que está tendo aula, o cachorro, a mãe ou sogra que mora junto... O home office veio para ficar, mas o trabalho mais inteligente que as empresas vão adotar é o modelo híbrido, porque estar em home office distancia o profissional da cultura da empresa. E isso é sempre um perigo. Vamos lembrar que somos seres humanos e precisamos estar em conexão com outras pessoas. Ainda mais o brasileiro, que é caloroso. A grande angústia desta pandemia é porque estamos isolados na maior parte das vezes. Mas o uso da tecnologia veio realmente para ajudar neste momento. Não digo que todo mundo precise voltar (ao trabalho presencial), mas a empresa precisa ser inteligente para entender: quem pode voltar, quem não precisa voltar e quem quer voltar e quem não quer. Tem gente que se adaptou muito bem e outros que detestaram. A empresa entender o que os funcionários aspiram é muito importante.