A Nissan está com novo presidente. Airton Cousseau assumiu o comando das operações brasileiras da marca japonesa, no lugar de Marco Silva. O executivo, com mais de 30 anos de carreira no setor automotivo, já rodou o mundo e voltou ao Brasil para tocar a marca que hoje tem 3,4% de participação de mercado. E chega num cenário conflituoso para a indústria, devido a velhos entraves, como tributação, flutuação cambial, baixo índice de nacionalização e falta de componentes.

Para Cousseau, mais que ganhar volume no mercado interno, a indústria, e não apenas a Nissan, deveria focar na capacidade de exportação. No entanto, não somente de automóveis, mas também de autopeças. Para ele, a dependência do varejo doméstico e a incapacidade de disputar com outros mercados é o que torna o setor tão suscetível às oscilações da economia.

“Nós (Nissan) exportamos apenas um modelo e temos capacidade de exportar muito mais. Mas se pegarmos o nível de exportação de carros no Brasil, é ridículo. Somos o 30º, sei lá, a gente não existe. Daí trazer um carro caro de fabricar para vender apenas no mercado doméstico, se torna impraticável”, observa

E questionado sobre um modelo de entrada para aumentar o volume, o executivo não titubeia. “No Brasil, o carro de entrada não suporta flutuação de câmbio, pois torna a operação inviável. Para ser viável, seria necessário um nível de nacionalização maior do que temos atualmente”, explica.

Ou seja, modelos de baixo custo estão em processo irreversível de extinção. Questionamos se o mini SUV, Magnite, poderia ser uma opção para perfilar na prateleira de baixo e mais uma vez Cousseau indicou o único caminho para que o carrinho, ou outro, seja uma aposta acertada. 

“O Magnite é um produto desenvolvido para o mercado indiano e que demandaria um investimento muito alto para o mercado brasileiro. Mas precisamos pensar numa estratégia que visa a exportação. Com o dólar a R$ 5,60, a gente precisa aproveitar isso. Mas para isso, precisamos elevar o índice de nacionalização para patamares acima do que temos hoje”, afirma.

Elétricos

Outro cenário vislumbra do por Airton Cousseau é a eletrificação. Ele acredita que em breve ocorrerá um movimento inverso em que o carro a combustão será mais caro para fabricar do que o carro elétrico. O executivo acredita que o Brasil tem grande potencial com uso de modelos híbridos combinados motores a etanol.

“Acredito muito na eletrificação. As exigências de emissões estão cada vez mais rígidas, o que encarece o custo do carro a combustão, ao mesmo tempo o custo do elétrico vem caindo. A pouco tempo o kWh custava US$ 1.200, hoje é bem mais em conta”, observa.

Além disso, o executivo aponta que o carro elétrico deixou de ser algo pouco prático no uso cotidiano. “Precisamos desmistificar o uso do carro elétrico. Hoje é tão fácil recarregá-lo como se carregar um celular. Se você roda 50 quilômetros, basta chegar em casa e conectar na tomada, na rede elétrica comum”, compara.

No entanto, reconhece que para trajetos longos ainda há entraves que precisam ser sanados. “É preciso envolver as companhias elétricas, fabricantes de carregadores e os governos estaduais. Precisamos pensar na reutilização das baterias, que depois da vida útil pode ser aplicada em outras finalidades energéticas”, observa.

Por hora, o que há de concreto é que a Nissan pretende instalar um ponto de venda com a bandeira Leaf em Belo Horizonte. A capital mineira ainda não tem revenda do modelo elétrico da marca. A previsão é que a loja escolhida passe a oferecer o modelo no segundo semestre. Mas vai depender da negociação de um novo lote do modelo. 

“O Leaf vem da Inglaterra e a produção foi impactada pela crise dos semicondutores. A gente espera garantir pelo menos um lote de 500 unidades”, prevê.