Enquanto correm no Congresso as discussões sobre a reforma da Previdência e o aumento da idade mínima para a aposentadoria, idosos apostam no empreendedorismo como possibilidade para voltar ao mercado de trabalho. 

As duas últimas edições da Pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), realizada anualmente pelo Sebrae, mostram que as taxas de empreendedorismo na faixa dos 55 aos 64 anos está aumentando no Brasil, com crescimento de 8% entre 2016 e 2017. Em Belo Horizonte, o Instituto de Pesquisas e Projetos Empreendedores (IPPE) já formou 900 alunos com mais de 60 anos e se prepara para lançar 170 novos planos de negócio no próximo ano.

A capacitação é gratuita e acontece por meio da qualificação profissional, resgate de conhecimentos tradicionais, saber científico e acesso à tecnologia. A ideia é desenvolver ações práticas integradas a um planejamento estratégico para que os idosos possam ser requalificados e inseridos no mercado de trabalho atual. 

“Queremos mudar o paradigma de que o aposentado é apenas um encargo e transformá-lo em contribuinte efetivo para o equilíbrio socioeco-nômico do país”, afirma Heliane Gomes de Azevedo, idealizadora do IPPE, organização sem fins lucrativos que recebe apoio de instituições governamentais e de ONGs.

Segundo ela, há relatos de alunos que obtiveram ganhos de 30% após a capacitação. “Nosso projeto é pioneiro no mundo e recebemos contatos de vários países querendo saber mais e reproduzir o nosso trabalho lá fora”, conta. 

Uma das beneficiadas é Alicia Barrios Rodríguez, de 69 anos. Artista plástica, ela se dedicou a dar aulas no ensino fundamental durante boa parte da vida, mas decidiu buscar uma nova forma de ganhar dinheiro após a aposentadoria. 

“Uma amiga me indicou o curso e foi uma experiência fantástica, de excelente nível profissional”, afirma. Após a capacitação, Alicia abriu o próprio ateliê, no bairro Prado, onde dedica-se a pinturas a óleo, sobre tela ou madeira.  “Alugo um espaço dentro de uma empresa de contabilidade e os próprios funcionários já me encomendaram várias obras, incluindo um tríptico grande. Também pretendo ministrar workshops de pintura”, diz. 

Segundo Alicia, as últimas gerações foram educadas na crença de que depois de certa idade os seres humanos “não servem para nada”, não aprendem e não são produtivos. O que é um grande equívoco. “Temos que desaprender esses conceitos. O ser humano é uma criatura com potenciais extraordinários, sempre em constante evolução”, afirma. 

Quem também optou por fazer do hobby uma nova profissão foi o engenheiro aposentado Anunciato Calijorne, 61. Após trabalhar por três décadas na Fiat, ele abriu a sua própria fábrica de massas artesanais, com uma cozinha industrial montada nos fundos de casa. 
“Recebo cerca de 20 encomendas por semana, de empórios e pessoas físicas”, conta ele, que chega a faturar R$ 15 mil por mês com as receitas italianas. “Além de ser um complemento de renda, é uma forma de me manter ativo e fazer o que gosto. Vou continuar enquanto tiver forças”, diz. 

Já Odete Agostini, de 73 anos, optou por empreender em uma área que sequer existia na sua juventude. Ela se tornou digital influencer e, ao lado da amiga Beatriz Tanure, mantém o blog Maturidade Linda, com postagens sobre saúde, beleza e qualidade de vida na terceira idade. 
“Lançamos o blog há um mês e já temos boa audiência. A gente espera ter retorno financeiro em breve. Estou aberta até a trabalhos como modelo”, diz. 


Empresas precisam se adaptar e dar chances à terceira idade 

Se por um lado os idosos estão se mobilizando para reingressar no mercado de trabalho, também é preciso que haja uma adaptação por parte das empresas para lidar com o envelhecimento da população e absorver a mão de obra que está se formando. 

Para Márcio Salvato, coordenador do curso de Economia do Ibmec, essa necessidade já é real e deve se tornar ainda mais evidente nos próximos anos, já que os avanços da medicina promoverão um aumento crescente da expectativa de vida e ampliarão as chances de uma terceira idade saudável e ativa. 

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Alicia Rodríguez passou por capacitação para abrir ateliê de pintura, no Prado

“É certo que uma reforma da Previdência virá e, dado que a expectativa de vida está aumentando consideravelmente, é bem provável que a gente conviva com uma idade mínima maior para aposentadoria. Isso reflete no mercado de trabalho e é preciso que as empresas se organizem para absorver também essa geração, aproveitando bem a sua experiência”, afirma o economista. 

Segundo ele, o conhecimento cultural e a habilidade social acumulados com os anos podem ser alguns dos diferenciais dos profissionais com mais de 60 anos e devem ser explorados pelas empresas para expandir as possibilidades de produção.

“Esses profissionais conseguem ver soluções que a nova geração ainda não viu. Isso conta muito. Os idosos têm saberes específicos, possuem cultura acumulada e capacidade de lidar com as diferenças. Eles têm muito a ensinar ao mercado de trabalho, basta que as empresas saibam aproveitar o seu conhecimento e a sua experiência produtiva”, afirma Salvato. 

Longevidade

Última pesquisa divulgada pelo IBGE, em abril deste ano, mostrou que o Brasil ganhou 4,8 milhões de idosos desde 2012, superando a marca dos 30,2 milhões em 2017. Em Minas, o número de pessoas com idades entre 60 e 100 anos é de 290 mil atualmente. 

Segundo projeção, o Estado terá a maior população idosa do Brasil até 2060. A expectativa é a de que, dentro de quatro décadas, um em cada três mineiros tenha mais de 65 anos.