O Keith Richards das artes plásticas está de volta. Comparado por seus médicos com o guitarrista da banda Rolling Stones, que desfruta de 77 anos bem vividos apesar do passado de excesso de drogas, o mineiro Fernando Lucchesi abre nova exposição após sete anos recluso numa casa na zona rural de Nova Lima.

Em cartaz na Errol Flynn até 18 de setembro, “Flores para Guignard” homenageia um dos maiores pintores do país, Alberto da Veiga Guignard. Também é reflexo de um período difícil na vida de Lucchesi, que, depois de enfrentar um câncer na próstata, conviveu com um grande bloqueio criativo.

Não é a primeira vez que Guignard serve de estímulo a Lucchesi, que começou sua atividade ainda criança, atendendo aos pedidos do avô para “copiar” as pinturas do mestre radicado em Ouro Preto. Como seu inspirador, também fez da cidade histórica sua “musa” por vários anos, apaixonando-se pelas mesmas paisagens.

De fala pausada e exibindo bom humor, mesmo ao lembrar de momentos difíceis de sua trajetória de 66 anos, Lucchesi conversou com a reportagem sobre a nova exposição, as mudanças no cenário das artes plásticas nas últimas décadas e o lado Keith Richards, aplicado, segundo ele, em prol de seu trabalho.

Por que você resolveu homenagear Guignard nesta exposição?

Foi uma coisa bem espontânea. Estava numa fase difícil da minha vida, após ter descoberto um câncer na próstata. Estava muito deprimido, o que levou a uma “travada” em tudo. Sempre acompanhei Guignard desde criança e, então, resolvi pegar meus livros e fazer uma pesquisa. E me lancei nesse desafio, retomando os trabalhos com o auxílio do Guignard.

Um ponto em comum entre você e Guignard é o fato de que escolheram Ouro Preto como local para morar e se inspirar, não é verdade?

Na primeira vez que fiquei em Ouro Preto, morei por 14 anos. Depois construí essa casa em que estou atualmente, em Nova Lima. Como eu me senti muito aprisionado, por ser um local isolado, aluguei uma casa lá por longo período. No ano retrasado, eu tentei voltar, mas só fiquei sete meses. A cidade, que sempre me inspirou muito, se transformou demais, com muito trânsito e barulho. Fiquei decepcionado e vim embora. Prometi que nunca mais voltaria.

Você comprou essa casa em Nova Lima em busca de tranquilidade para poder pintar?

Eu moro na zona rural, numa rua sem saída. Não tem nada nela. Não passa boi nem boiada risos. É um cenário que me inspira muito, já que eu moro de frente para a Serra da Piedade. Eu vejo uma paisagem imensa. São montanhas que não acabam mais.

Diferentemente de Guignard, você é autodidata. Como nasceu o interesse pela pintura?

Quando eu saí do Exército, o meu irmão me deu um curso de desenho técnico de presente. Na verdade, eu sempre desenhei. Desenhava o que saía da minha cabeça. Depois trabalhei quatro anos como desenhista técnico e não aguentei a barra. Aí um amigo meu me disse que, no Palácio das Artes, estavam precisando de um funcionário na Grande Galeria, para montar e desmontar exposição. Foi quando tomei um rumo na minha vida. Lá no Palácio eu conheci todos os artistas. Diretor da Grande Galeria, o Márcio Sampaio foi o primeiro a me dar uma direção. O Palácio era abandonado naquela época. Havia uma copa, onde se servia os coquetéis durante as exposições, que não era usada fora esses eventos. Então eu a transformei em meu ateliê. Quando acontecia um coquetel, eu rapidamente desmontava o ateliê risos. Foi ali que eu deslanchei. Chegou uma hora que resolvi sair de lá para ser artista.

Como foi essa mudança?

Passei muito aperto. A minha primeira mulher foi quem me deu muita força para começar. Ela quem mantinha a casa, pois tinha um bom emprego na faculdade. Na verdade, eu não tinha muito gasto. Era só material de pintura e desenho. Aliado a isso, tomava conta da casa. Arrumava, fazia comida, lavava roupa... só não gostava de passar risos.

Nunca passou na sua cabeça fazer escola de belas artes na época?

Nunca. Eu só convivi com escola por duas vezes, como professor. A primeira foi no Festival de Inverno da UFMG, mas não deu certo. Eles pediram para eu me retirar. Não gostaram da minha didática. Em frente à cidade de Ouro Preto, havia uma favela muito interessante, em que construíam os barracos dentro das pedras. Eu levei os alunos para pesquisar aquilo. No terceiro, quarto dia, começaram a chegar os pais de alunos, questionando o que estávamos fazendo. A direção do festival me passou o cachê e me deu tchau. A outra vez foi na Escola Guignard. Eles me colocaram numa sala que continha pilhas de jornais. E começamos a destruí-los. O diretor da Guignard achou que não estávamos fazendo nada, só recortando papel. Foram as únicas experiências didáticas.

Você também pintava parede de casas, ajudando o seu pai nas obras. Como foi isso?

O meu pai era mestre de obras e me levava para os locais para eu pintar as paredes. Eu gostava. Foi um grande incentivo. Tinha também meu avô materno, que era um fazedor de tudo. Eu era um dos netos  prediletos dele. Desde cedo, deu-me material de pintura e me mostrou Guignard. A primeira vez que vi uma obra de  Guignard foi numa edição do “Suplemento Literário” que meu avô recebia. Ele começou a procurar obras dele e pedir para eu copiar. Desde cedo tive essa ajuda. Sem falar de alguns bons amigos no meio artístico. Os tempos eram outros e as amizades eram mais reais.

A mostra traz 41 quadros em pintura acrílica sobre tela, criados ao longo dos últimos seis anos, todos nunca vistos pelo público

Hoje não se vê mais essa relação entre os artistas?

Tinha uma turma muito grande. Hoje não tem mais. Ela se desfez no ar, inacreditavelmente. Cada um foi para seu canto, cada um com os seus problemas. Há um pouco de inveja, de ciúme. Eu as perdi há uns dez anos. Tenho alguns amigos, mas não existe mais aquela convivência. A mudança do homem foi muito brusca nos últimos anos. Quando coloquei o primeiro computador em casa e liguei a internet, logo vi que esse negócio não iria dar certo. É muita informação. Eu fui me isolando também.

Você acompanha os lançamentos de exposições?

Tem anos que eu não vou. Com a pandemia, eu usei uma boa desculpa para não sair de casa. Eu sou um cara muito doméstico. Essa questão do isolamento é uma ferramenta para mim. Não consigo trabalhar no meio de um tanto de gente. Por isso vieram as flores. Hoje já não aguento fazer tantas flores risos. Quando tento fazer algo diferente, eu volto lá de novo. Eu tenho quatro linhas de trabalho: primeiro, “Árvores da Vida”, depois “Africanas” e “Fachadas”, e agora as flores. Eu não aguento ver um espaço vazio que já vou pintando tudo risos.

Você tem contato ainda com o pessoal da exposição “Como Vai Você, Geração 80?”, movimento que reuniu jovens artistas no Rio de Janeiro?

Eu morei no Rio por causa da Geração, mas não fiquei circulando no meio artístico. Lá no Rio eu me perdi naquelas praias, naquela bagunça... Uma das coisas que me fez voltar foi perceber que eu estava perdendo o rumo. Mas foi uma exposição muito importante, com todo mundo cheio de esperança por estarmos chegando ao fim da ditadura. Hoje em dia não tem mais exposição assim, não se tem mais movimento da geração mais nova.

O câncer também contribui para o seu isolamento?

Eu descobri quando ainda estava no começo. Hoje estou saudável. Mas não sou mais a mesma pessoa. É uma transformação na sua cabeça. Tem a idade também, que nos amansa. Eu nunca imaginaria chegar nessa idade toda.

A vida profissional iniciou-se em 1977, quando ingressou no setor de artes plásticas do Palácio das Artes 

Por que?

Pelo o que já fiz. É um milagre estar aqui ainda. Meus médicos me chamam de Keith Richards. Experimentei de tudo. Eu usava drogas  para trabalhar. Não era para ficar na farra. A “viagem” era toda dentro de casa. Não recomendo para ninguém, mas ela abriu minha cabeça. Tive várias overdoses. Eu ficava sozinho com elas, passando muito mal. Tem anos que não uso essas coisas. Hoje as flores estão me salvando. Vamos ver o que acontece.

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