Uma nova opção de parcelamento deve ser largamente oferecida pelas empresas de cartão de crédito a partir de abril.  O "crediário no cartão", um financiamento com juros que dependerão de cada banco, foi apresentado como um benefício para lojistas e, também, para o comprador, pela  Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), nesta quarta-feira (27). Entretanto, órgãos de proteção ao consumidor veem a medida como uma "armadilha" que incentiva o endividamento. 

Conforme a Abecs, o benefício para o consumidor estaria no fato de que, atualmente, a prática mais usada por grandes empresas é o parcelamento em dez vezes sem juros. Entretanto, os lojistas acabam embutindo o valor dos juros no preço final do produto e, com isso, quem compra à vista acaba sendo prejudicado. 

Para atrair os lojistas para a nova modalidade, o crediário promete o pagamento do valor integral das compras em até cinco dias para as empresas, diferentemente do parcelamento normal realizado hoje pelo cartão de crédito, quando o empresário só recebe o valor das parcelas a cada 30 dias. Por isso, os alvos iniciais das operadoras de cartão são justamente as lojas que atualmente não oferecem opções de parcelamento justamente por esse motivo. 

A Abecs informou que a grande maioria das operadoras de cartão deve aderir à modaliade a  partir do próximo mês. A quantia de parcelas e taxa de juros serão definidas pelos bancos de acordo com o perfil de risco e relacionamento com cada cliente, mas na máquina serão visíveis três opções de parcelamento e os custos envolvidos na operação.   

Padrão

Ainda conforme a associação, um grupo de estudo foi criado para montar uma padronização que será usada nas máquinas. O consumidor poderá ver uma simulação da transação na tela antes da compra ser confirmada. 

"Com a padronização, os diferentes terminais apresentam as mesmas etapas e mensagens sobre o processo de parcelamento, facilitando a utilização pelo consumidor e pelo lojista. Na simulação, o usuário visualiza as informações das opções de parcelamento oferecidas pelo emissor do seu cartão, como a quantidade e o valor das parcelas, a taxa de juros e o custo efetivo total (CET) do financiamento", completa o comunicado da Abecs. 

Procons criticam a medida

Para os órgãos de proteção ao consumido, a medida será benéfica para as instituições financeiras, não para os consumidores. Mônica Coelho, diretora do Procon de Belo Horizonte, vê a nova modalidade como mais uma forma de estimular o consumo de forma irresponsável. "Como sempre a gente prevê uma indução ao crédito, já que, como os lojistas vão receber de forma antecipada, certamente tentarão empurrar essa modalidade de parcelamento ao consumidor. E esse tipo de crédito é muito perigoso, pois, quanto mais prazo existe, maior é o valor a ser pago em juros", pontua. 

O coordenador do Procon da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), Marcelo Barbosa, também não vê a medida com bons olhos. "Como é uma coisa muito nova, não temos informações concretas. Mas, pelo que eu ouvi, a taxa de juros seria de cerca de 1% em até 36 vezes. Mas e se for 48 parcelas? É importante que o consumidor entenda que menos parcelas significam menos juros", lembra. 

Ele cita ainda a lei que permitiu que se cobre um preço diferente para vender no crédito e no débito. "Tem posto de combustível que faz essa diferenciação, mas tem outros que não aderiram. Você acha que o consumidor escolhe qual? Para o consumidor, sempre que for para pagar sem juros é melhor", conclui. 

Após o anúncio nesta terça, a Associação Brasileira de Procons (ProconsBrasil) enviou um ofício à Abecs com alguns questionamentos sobre a nova forma de parcelamento. A entidade indagou de que modo serão cobrados os juros do consumidor caso ele não consiga pagar as parcelas do cartão de crédito e, também, de que forma o risco de superendividamento é avaliado pelos cartões de crédito e como isso afeta os limites que serão oferecidos.

O texto enviado à Abecs manifesta ainda a preocupação dos Procons de todo o país com essa nova modalidade de crédito. "O direito à informação deverá prevalecer nestas contratações, sob pena de imputar ao consumidor um aumento na sua vulnerabilidade contábil, ou seja, sua incapacidade técnica de calcular a consequência financeira do que está contratando", conclui o ofício da ProconsBrasil. 

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