A implementação da Usiminas na região conhecida hoje como Vale do Aço, no Leste do Estado, foi um trabalho hercúleo para milhares de brasileiros no final da década de 1950 e início dos anos 1960. A tarefa exigiu um esforço diferenciado e dedicação também da vida privada de um grupo de 10 jovens engenheiros mineiros, com idade entre 25 e 32 anos. Eles permaneceram por um ano no Japão para aprender a tecnologia utilizada na siderurgia do país e ficaram conhecidos como “Os Sete Samurais” (mesmo tendo a formação de uma dezena).

Passadas quase seis décadas, só quatro estão vivos: João Geraldo Pessoa Evangelista, 84 anos, Antônio Pedrosa da Silva, 84, Valério da Silva Fusaro, 88, e José Barros Cota, 91. Eles são os últimos samurais.

O embarque foi no final de 1958, e o retorno um ano depois. No pacote da missão estava incluída a distância dos familiares, a comunicação apenas por cartas e um ano sem ouvir a voz ou ver os rostos deles (o serviço de telefonia ainda era precário naquele tempo), comida e cultura diferentes, compreensão da língua, além dos desafios dos procedimentos inerentes à siderurgia.

A saga

A epopeia começou com a viagem, antes mesmo de pisar em solo japonês. Há 60 anos, para chegar ao Japão eram necessárias pelo menos 48 horas de voo – hoje são 26 – , mas em função de conexões, o tempo de deslocamento podia chegar a três ou quatro dias. Todavia, eles precisaram de mais de uma semana. A aventura teve início a bordo de um quadrimotor da extinta companhia aérea Varig.

“A autonomia dos aviões naquela época era pequena. Fizemos uma escala em Manaus, depois na América Central, depois em Nova Iorque, onde ficamos por uns dois ou três dias. Depois em Los Angeles, onde também permanecemos uns dois ou três dias.

Em seguida, fomos para o Havaí, esperamos mais dois dias. Pegamos outro voo e paramos no meio do Pacífico, para finalmente chegar ao Japão”, relembra Pedrosa, que tinha 25 anos quando entrou no avião.

Ele explica que os dirigentes da Usiminas queriam que fosse também uma viagem de aprendizado e, por isso, eles deveriam conhecer as metrópoles internacionais. No final dos anos 1950, Nova Iorque já tinha quase 8 milhões de habitantes e Los Angeles, cerca de 2 milhões.

Ao desembarcar em Tóquio, na ilha de Honshu, a maior do arquipélago que compõe o Japão, eles tiveram alguns dias de descanso. Depois seguiram para a usina Yawata Iron and Steel, hoje pertencente ao grupo Nippon Steel & Sumitomo Metal, distante mil quilômetros à oeste da capital, já na ilha de Fukuoka. A instalação ficava na antiga cidade de Yahata-shi, incorporada ao município de Kitakyushu em 1963.

“O dia a dia era o seguinte: os japoneses prepararam muito bem para receber esses estagiários. Inicialmente foi feita uma recapitulação do que era uma siderurgia. Posteriormente, fizemos um estágio geral para conhecer mais detalhes. Numa terceira etapa, cada um foi direcionado para a área que deveria trabalhar aqui no Brasil”, explica Pedrosa, que teve como especialidade a laminação.
 

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Três engenheiros se casaram por procuração com as noivas que permaneceram no Brasil

Dos dez membros da missão, três viajaram noivos e conseguiram casar por procuração. Um deles foi Valério da Silva Fusaro, então com 29 anos. A noiva, Ines Maria Seno Fusaro, se tornou esposa em 20 de junho de 1959. Ela aqui no Brasil, em Ubá, na Zona da Mata mineira, e ele lá no Japão.

“Para dar as instruções do casamento a Ines, eu gravei uma fita e enviei por correio”, recorda. Logo após o casamento, Ines embarcou em um avião para encontrar com o marido.

 

Engenheiro Valério Fusaro

Engenheiro Valério Fusaro mostra a revista “O Cruzeiro”, de 1959, que conta a história do casamento dele com Ines, e de outros dois “Samurais”, por meio de procuração


Junto a ela, embarcaram outras duas esposas: Marisa Andrade Rodrigues, que se casou com Maurício Melo, e Wilma Xavier Ribeiro, recém-esposa de Álvaro Luiz Macedo de Andrade. Emocionado, Valério conta como o episódio foi marcante para ele e para os companheiros de missão.

“Foi muito importante pra mim, é claro, e para o núcleo que estava desde o início lá no Japão. A presença da ala feminina foi um elo a mais na nossa formação de amizade, que permanece até hoje. Todos já estavam cansados com aquele dia a dia, só ouvindo japonês. Foi muito importante o lado feminino”, relembra.

Os “samurais” e as esposas

Os “samurais” e as esposas, em foto tirada em Tóquio, pouco depois de elas chegarem ao país


"Os Sete Samurais"

O nome “Os Sete Samurais” é uma referência direta ao filme homônimo do diretor japonês Akira Kurosawa, lançado em 1954. Do grupo dos 10 engenheiros que foram ao Japão, em 1958, sete são egressos da turma de 1957 da Escola de Engenharia de Ouro Preto.

Valério Fusaro relata que o engenheiro Amaro Lanari Júnior havia sido paraninfo da turma de 1957. No ano seguinte, Lanari tornou-se presidente da Usiminas e resolveu convidar os ex-alunos para a empreitada.

“O Lanari queria pegar quem não tinha experiência, vícios, e moldar com um pensamento moderno”, revela Fusaro.

Depois, ao grupo dos sete foram incorporados três engenheiros já formados há mais tempo, mas também jovens: José Barros Cota, Cássio Lanari Guatimosim e o José Eulálio Pinto. Por isso, os “Sete Samurais”, na verdade, são dez.

Sonho da construção da usina foi bancado com capital dos japoneses e do antigo BNDE

O sonho da construção da Usiminas começou a ganhar corpo em maio de 1957, com a assinatura do acordo Lanari-Horikoshi. O documento foi firmado entre o engenheiro Amaro Lanari Júnior, representando a Usiminas, e Teizo Horikoshi, chefe da terceira missão japonesa que veio ao Brasil para acertar detalhes da construção da usina.

A Usiminas é consequência direta do Plano de Metas do presidente Juscelino Kubitschek (1956/61). De acordo com o livro “Aço Brasil: uma viagem pela indústria do aço”, lançado em 2013, com o apoio de JK foi constituído um grupo de acionistas, que incluía o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (antigo BNDE, atual BNDES), com 26,64%, o governo de Minas(23,95%), a Companhia Vale do Rio Doce(9%), a Companhia Siderúrgica Nacional (1,52%) e grupos privados, com apenas 1%.

O restante, que soma quase 40%, foi investimento japonês. O grupo Nippon-Kabushiki Kaisha foi o responsável por fornecer a maior parte dos equipamentos e supervisionar a construção, concluída em 26 de outubro de 1962.

“A Usiminas é uma das maiores produtoras de aço do país e contribui fortemente para a economia nacional. O Brasil tem hoje o maior parque industrial de aço da América do Sul, é o maior produtor da América Latina e ocupa o quinto lugar como exportador líquido de aço e o nono como produtor de aço no mundo. A Usiminas é fundamental para que o país se mantenha nesse patamar”, disse o atual presidente executivo do Instituto Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes.

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