Os fícus da Avenida Bernardo Monteiro, em Belo Horizonte, estão ameaçados de morte. Eles são contemporâneos dos fícus da avenida Afonso Pena que ainda podem ser vistos em fotos da capital mineira, mas somente naquelas tiradas antes de novembro de 1963. Pois, neste mês, grandes máquinas contratadas pelo prefeito Jorge Carone arrancaram centenas de árvores frondosas, para dar lugar ao asfalto e facilitar o trânsito.

Na ocasião, o pretexto para a extirpação dos fícus foi uma praga de insetos, o Gynaikothrips ficorum – ou amintinha, apelido dado ao inseto incômodo por desconhecidos moradores, em “homenagem” ao prefeito Amintas de Barros. Prevendo uma forte reação popular ao corte das árvores, Carone mandou que as máquinas trabalhassem de madrugada. Não houve salvação para os fícus da Afonso Pena, mas salvaram-se os da Bernardo Monteiro.

Agora, não é o prefeito a ameaçá-las, e nem mesmo os amintinhas – que também sobreviveram – mas um fungo. E dificilmente teremos a mesma reação raivosa de antigamente, se também eles forem arrancados. Ficarão bem como um retrato na parede. Hoje já se sabe que não foi uma boa ideia plantar fícus, uma espécie exótica originária da Ásia e da Oceania, em nossas ruas e avenidas, por causa do seu tamanho e da agressividade das raízes, que destroem tubulações e tudo mais que encontram pela frente.

O importante é que, não sendo possível salvar essas árvores estrangeiras, sejam plantadas em seu lugar espécies nativas com raízes mais adequadas e que possam contribuir para o equilíbrio ecológico. Não podemos dispensar novas árvores, numa cidade ocupada por veículos e cada vez mais carente de vegetação. Cada morador de Belo Horizonte tinha em média 29 metros quadrados de vegetação, em 1997, e agora pouco mais de 18.

O prefeito Marcio Lacerda sancionou, há 11 dias, a Lei 10.610, que determina o exame periódico das árvores da cidade, para recuperar as doentes ou para cortar as que forem consideradas inseguras para as pessoas. Será bem-vinda a lei, se a alternativa do corte não vier a preponderar, e se a árvore cortada for logo substituída por outra mais adequada à arborização urbana que o fícus. No momento, o que mais se vê são tocos deixados nas calçadas a apodrecer, pois custa dinheiro arrancar as raízes e plantar outras. Pior ainda, vereadores propondo mudanças na Lei de Uso e Ocupação do Solo, para transformar áreas de preservação ambiental em loteamentos que dão lucro.