O risco de apagão deve permanecer nos próximos meses em Minas e no restante do país. Um dos motivos para a possibilidade da falta de energia elétrica é a previsão do tempo. A primavera, que vai até 21 de dezembro, será marcada por chuvas no Estado, mas não suficientes para encher os reservatórios das hidrelétricas. A previsão é do coordenador do Quinto Distrito do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), em Belo Horizonte, Lizandro Gemiacki. Confira entrevista com o meteorologista.

Estamos vivendo a pior seca dos últimos anos. O que provocou esse fenômeno nessa proporção?

O Brasil é um país muito grande. Temos diversos climas. Essa seca é mais intensa na bacia do Rio Paraná, que pega parte do Sul de Minas, Triângulo Mineiro, grande parte de São Paulo, Mato Grosso do Sul. A estação chuvosa, que é normalmente regular, vai de outubro a março, e no último ano foi muito irregular. Aqui em Minas, grande parte do Estado, teve uma característica adversa neste ano porque a estação seca praticamente começou um mês antes. Parava de chover em meados de abril e, neste ano, parou de chover em março. Por isso, tivemos uma frequência alta de incêndios, já que tivemos um mês a mais de seca. 

Estamos percebendo as cidades com temperaturas mais altas. O que influencia na temperatura? 

Geralmente, nas cidades, em relação à temperatura, o que mais influencia é a formação de ilhas de calor, principalmente nas metrópoles, que tiveram ao longo do tempo a substituição da cobertura vegetal natural por concreto e asfalto. No aquecimento global, a teoria é que a emissão de gases do efeito estufa vai fazer com que a temperatura aumente, mas os efeitos são dispersos. Dentro do sistema climático é difícil conseguir relacionar uma causa e uma consequência direta. Por exemplo, a temperatura da superfície é influenciada, predominantemente, pela energia solar, que varia de acordo com as nuvens. Se tiver um tipo de nuvem específica, diminui a energia que chega à superfície e diminui a temperatura.

O Quinto Distrito tem equipamentos que conseguem prever essas alterações com muita precisão?

O que a gente tem é uma rede de estações meteoro-lógicas. É padronizada em todo o Brasil. No geral, no mundo, a meteorologia é relativamente bem organizada. É preciso ter uma interação com outras tecnologias, outros países. Para coordenar isso existe uma organização meteoro-lógica mundial que dá as diretrizes básicas. Como produto secundário, é a análise climática. Mas os modelos meteorológicos e de previsão do tempo têm uma limitação. Não temos a previsão para acima de uma semana, porque os modelos não correspondem mais a realidade a partir de uma semana. Quanto à questão do clima, as previsões são feitas mais com base em probabilidade. Então, aqui na região, temos maior probabilidade de uma primavera um pouco mais chuvosa, com a possibilidade de ter o fenômeno La Niña a partir deste mês, que provoca uma mudança não na quantidade de chuva aqui do Estado, mas na condição de formação predominante das chuvas. Nós prevemos que a probabilidade é maior de ter mais eventos da Zona de Convergência do Atlântico Sul, que provocam vários dias de chuva na mesma região, o que é bom para os reservatórios porque reabastece os lençóis freáticos. Mas, para recuperar os níveis nos reservatórios seria necessário uma estação chuvosa muito acima da média. Então, estamos acompanhando para ver como vai se desenvolver.

A Nasa lançou mais um satélite, na semana passada, com objetivo de monitorar e verificar as mudanças climáticas. Vocês têm acesso a essas informações?

Nós temos um acordo com a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA, sigla em inglês), departamento do governo dos Estados Unidos. Recebemos em Brasília as imagens de satélite e dados transformados em produtos numéricos. Por acordo internacional, os países membros da Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência especializada da Organização das Nações Unidas (ONU), têm obrigação de fornecer essas informações publicamente para os vários usuários mundiais. O modelo numérico que é utilizado no Brasil foi operacionalizado via um acordo de cooperação com o Serviço Meteorológico alemão.

Vocês têm percebido mudanças ao longo dos anos no clima?

Atualizamos duas vezes por dia a operação de previsão de tempo para verificar se os modelos conferem com o que está sendo observado e atualizamos, se for o caso. Percebemos que nos últimos anos o tipo de chuva que era predominante tem mudado. Antigamente, a chuva era mais do tipo de Zona de Convergência do Atlântico Sul, sem muito raio, sem muito trovão. Nos últimos dez anos, o tipo de chuva que tem ocorrido aqui é o tipo de “pancadão” no fim de tarde. Por isso, o acumulado do mês acaba sendo o volume de um, dois ou três dias, o que é muito ruim para a agricultura e para a cidade também porque causa diversos transtornos, como alagamento, queda de granizo vendaval. Esses episódios estão se tornando mais frequentes, infelizmente.

Vocês conseguem prever fenômenos como granizo ou geadas com antecedência?

No caso do granizo só conseguimos identificar com uma ou duas horas de antecedência e ele é muito localizado, mais restrito, geralmente cai em um bairro. O que fazemos é emitir um alerta meteorológico que engloba uma área maior. Já as geadas, geralmente, são melhor previstas. Tudo depende do tipo de fenômeno meteoro-lógico associado. Quando é um fenômeno de menor escala, como uma nuvem de tempestade em cima de uma região, é mais complicado da gente prever. Quando identificamos essas massas de ar muito grandes, como foi em julho, no Sul de Minas, conseguimos avisar com antecedência de dois ou três dias. 

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