O numeral 4 está presente em diversas esferas da vida de Max Oliveira, mineiro de Timóteo, na região do Rio Doce. Em 2012, foi a diferença de R$ 400 no preço de passagens aéreas que o estimulou a criar uma plataforma para comercializar milhas. Sua startup emprega atualmente 400 pessoas colaboradores, já negociou 40 bilhões de milhas, traduzidas em 4 milhões de viagens desde 2013.

Aos 34 anos, o também compositor Max Oliveira atribui ao aspecto terapêutico da música seu perfil centrado e de maturidade à frente de uma das startups mais bem-sucedidas de Minas Gerais e do Brasil. “Eu tive meus conflitos na adolescência, mas eu ia para o violão, compunha e aquilo ia me tratando”, diz, ao receber a reportagem do Hoje em Dia na sede da empresa, que ocupa três andares de um prédio comercial na região Centro-Sul de Belo Horizonte, com salas amplas e decoradas para transmitir a sensação proporcionada pelas viagens. O co-fundador da MaxMilhas fala de seu perfil à frente da empresa, batizada a partir da brincadeira dos colegas de república com que compartilhou a ideia, que após executada foi laureada em seu primeiro ano como “Startup Promissora do Ano” pela revista Exame e ganhadora do prêmio “Startup do Ano” em 2017, pela ABStartups (Associação Brasileira de Startups).
 

“Criamos um novo modelo de negócios que não só estimula mais pessoas a acumularem milhas, podendo fazer uma renda extra com elas, como também fazemos os brasileiros viajarem mais”


​De onde surgiu a ideia da MaxMilhas e você já imaginava que o comércio de milhas aéreas tivesse tamanho espaço para crescer?

Surgiu em meados de 2013, quando eu queria visitar minha namorada, atual esposa. Namorávamos à distância e, um dia, comprando uma passagem para visitá-la, percebi que o preço no site da companhia aérea tinha subido muito em questão de minutos. Ao mesmo tempo, notei que a quantidade de milhas necessárias para o mesmo voo não tinha sofrido alteração. Pensei que poderia comprar as milhas de alguém, mas era algo que na época não seria tão fácil. Tive então a ideia de criar uma plataforma na qual quem tivesse milhas, e não fosse utilizá-las, pudesse disponibilizar para quem gostaria de viajar economizando. Além de estudar muito o mercado, compartilhei com muita gente a minha ideia. Dessa troca, fui lapidando até tirar a MaxMilhas do papel com mais dois sócios. Nunca tinha empreendido na vida, mas sempre tive uma postura empreendedora em todos os meus trabalhos. Hoje, vejo como essa minha experiência me ajudou. Não acreditava que pudéssemos ter a dimensão que temos hoje, mas acreditava que fazer as pessoas viajarem mais era relevante, independente do nosso tamanho. Todo dia eu tinha muito mais questões do que certezas. Hoje, o que me dá a sensação que está dando certo é olhar nosso time interno crescendo e se desenvolvendo.

O que mais te surpreendeu nesse setor e é possível conhecer um pouco mais sobre o hábito de viagem dos brasileiros a partir do comércio de milhas?

Este é um mercado em pleno crescimento no Brasil e ainda tem um grande potencial pela frente. O mercado de milhas surgiu há alguns anos com os programas de fidelidade, que foram criados pelas companhias aéreas para incentivar que os clientes se tornassem fiéis à sua marca e a seus serviços. Depois evoluiu e os programas de fidelidade acabaram se tornando grandes geradores de caixa para as companhias aéreas e para sua sustentabilidade. Criamos um novo modelo de negócios que não só estimula mais pessoas a acumularem milhas, podendo fazer uma renda extra com elas, como também fazemos os brasileiros viajarem mais, ao terem acesso a preços mais econômicos por meio da compra de passagens com milhas de outras pessoas. Vemos que o processo de acúmulo e utilização das milhas ainda é complexo para muitas pessoas. Falta conhecimento sobre o assunto, o que ainda causa certo distanciamento de alguns consumidores. Por isso, temos tentado suprir essa ausência de informação e familiaridade com o assunto e fortalecer essa cultura de que milhas valem dinheiro e você pode realizar o sonho de viagem de alguém com elas. 

Pelo contato que você tem com outros criadores de startups, é possível cravar que a maioria envereda por uma área a partir de uma experiência de frustração pessoal?

Não necessariamente frustração. A maior parte dos casos realmente tem a ver com a vivência pessoal, mas também com uma experiência profissional e, principalmente, um olhar visionário. O grande diferencial do empreendedor, para mim, é sua capacidade de fazer algo realmente relevante para as pessoas com aquela oportunidade. No meu caso, queria viajar mais e percebi como essa era uma frustração compartilhada por muita gente. Percebi uma oportunidade aí. Outras startups surgiram de uma percepção de mercado aliada a uma vivência profissional. Se o empreendedor percebe que há um caminho mais fácil para resolver um problema, é claro que isso não deixa de ser uma frustração. Ou seja, de alguma forma, ele se frustrou com o processo já existente. Como, por exemplo, Nubank que chegou para desburocratizar processos bancários, Méliuz para facilitar o processo de cashback e a MaxMilhas para fazer todo mundo viajar mais.

Que conselhos você dá para quem tem vontade de empreender?

Costumo dizer que empreender não é ter currículo ou CNPJ, é ter atitude. Não fui aquela figura genial que vendia coisas na escola para fazer uma grana e, aos 15 anos, fundou seu primeiro negócio. Muitos dizem que empreender, principalmente em bootstrapping - sem investimento externo - exige uma experiência inicial. Pois bem, não tive. No entanto, quando comecei a MaxMilhas com o foco 100% em executar, percebi que sempre assumi uma atitude empreendedora em toda minha carreira como engenheiro de produção. Trabalhar, para mim, é um exercício gratificante de aprender e evoluir. Como sempre fui muito executor, uma das minhas maiores dificuldades é saber delegar. Liderar exige, mais que experiência, autoconhecimento. É fundamental reconhecer suas limitações e fraquezas para trabalhá-las e também para compartilhar. Meu time me inspira todos os dias e também quero fazer isso por eles.Antes de começar a empreender, é preciso ter um propósito que guie as ações e decisões. O propósito tem que ser forte para que se manter em pé nas inúmeras vezes em que irá se debater com problemas tão grandes que te farão implorar para desistir. Também é preciso entender a dor do cliente. Nenhuma empresa quer atender mal, mas poucas entendem de fato a dor que ele sente, e oferecem uma solução para um problema real. Ter clareza disso faz com que o empreendedor engaje toda a equipe. Se o propósito for claro e compartilhado, ter o foco no cliente é genuíno. 

Nos sete anos de empresa, o país passou por uma montanha russa de momentos econômicos. O que mudou nesse segmento e como isso afetou a empresa e o que vem por aí? 

Começamos em 2013 em um cenário de crise generalizada no país. Parecia loucura começar algo do zero, mas sempre encarei crises como oportunidades, inclusive, esse é um dos pilares da nossa cultura na empresa. Em resposta à dificuldade econômica do Brasil, as passagens aéreas estavam muito caras quando começamos. No entanto, a quantidade de milhas necessárias para voar se mantinha. Ou seja, voar por milhas era mais barato e a MaxMilhas nasceu proporcionando essa opção para quem não tinha milhas acumuladas. Chegamos para sanar uma dor real das pessoas, crescemos de forma exponencial e sem nenhum investimento externo. Em 2019, encaramos um grande crise no setor aéreo. Com uma companhia aérea a menos, a oferta de voos diminuiu, os preços aumentaram, a quantidade de milhas para voar também. Foi difícil garantir um preço mais competitivo e acessível. No entanto, de lá pra cá, nosso produto também evoluiu e seguimos tornando viagens possíveis e acessíveis além do desconto na passagem. Podemos dizer que aprendemos com a crise. Só em 2020, estima-se um crescimento de 4% em todo o mercado aéreo. Novos voos, mais ofertas e, assim como as companhias aéreas, também queremos mais pessoas voando. 

Que feitos da empresa mais te orgulham e quais são os próximos passos da MaxMilhas?

Cada viagem que conseguimos fazer acontecer me enche de orgulho. Foram mais de 4 milhões de histórias até então. Já fui até convidado para ser padrinho de casamento porque, assim como aconteceu comigo lá em 2012, um casal que namorava a distância conseguiu se ver com mais frequência pela MaxMilhas a ponto de se casar. Uma viagem é sempre uma história. Como próximos passos, queremos experimentar novos mercados e tornar cada vez mais viagens possíveis para além do desconto na passagem. Nosso produto evoluiu muito e é só o começo. Internacionalização é algo que também temos no radar.