Poeta, cronista e professora na área de literatura, Ana Elisa Ribeiro tem dedicado boa parte de sua obra à discussão sobre a leitura e a escrita, temas que a cativam desde a adolescência. Ela lembra que essa paixão pelos códigos do universo literário, expressa em títulos como “Livro: Edição e Tecnologia no Século XXI” e “Escrever Hoje, Palavra, Imagem e Educação”, surgiu como um ato de rebeldia, diante do preconceito sofrido por quem escolhia fazer o curso de Letras na faculdade.

Professora de Produção Editorial no Cefet, Ana Elisa é uma referência nacional nos estudos que envolvem tecnologias e educação, história das tecnologias da escrita e da leitura, formação e atuação de editores e revisores. Também tem se dedicado à pesquisa e à valorização da mulher nas várias áreas da literatura, a partir do grupo de pesquisa “Mulheres Editoras no Brasil”.

A atenção dada à literatura começou cedo, na época do início da internet, quando criou o blog “Estante de Livro” e o site literário “Patife”, na virada do milênio.

“O (poeta) Ricardo Aleixo costuma dizer que eu me promovo mal. Ele fala que eu sou a primeira poeta que conheceu que fez um blog falando de literatura. Foi uma época muito legal, em que publiquei muita coisa, de resenha a contos curtos”, destaca.
Envolvida em várias atividades, Ana Elisa prefere dizer que é professora quando lhe perguntam a profissão. “Evito dizer que sou poeta ou contista, porque gosto de escrever sobre qualquer coisa, de poema a artigo científico. Sou uma professora que escreve”, afirma Ana Elisa, que nos últimos dois anos lançou os livros “Renascença”, dentro da coleção “BH. A Cidade de Cada um”, e “Dicionário de Imprecisões”.

Você vem encabeçando a questão da valorização da mulher nas várias esferas da literatura. Como é a participação feminina neste campo em Minas Gerais?

Eu até cheguei tarde à preocupação da participação da mulher neste campo. Primeiro, porque fiquei muito tempo fazendo sem muita consciência, além de sem muito estudo sobre isso. Comecei a ficar mais esperta em 2014, quando me aprofundei ao fazer um pós-doutorado em Estudos Literários, na UFMG, com a Constância Lima Duarte, que é um dos principais nomes do país sobre o tema. Estudei algumas figuras importantes do país, principalmente romancistas do século 19 e início do 20. Fiquei preocupada com a coisa mais contemporânea, com as mulheres de hoje, sem perder de vista as pioneiras. Passei também a perguntar sobre a figura da editora, que é mais apagada ainda. Então consegui aprovação de um projeto na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), ao lado de algumas colegas que já tratavam disso há mais tempo, em torno da criação de um grupo de estudos sobre mulheres na edição. Hoje, felizmente, há um monte de mulheres editando, com trabalhos fabulosos. Agora se encontra menos resistência, mas ainda há alguns campos majoritariamente masculinos, como a crítica de literatura. Uma ação interessante feita pela Constância, junto com uma professora de Santa Catarina, a Zahidé Muzart, é que não basta fazer uma lista de escritoras, mas buscar publicá-las de novo.

Você sofreu algum tipo de dificuldade ou preconceito no campo literário por ser mulher?
Desde criança, a gente recebe alguns recados de que determinadas coisas não são para você, que servem como desestímulo. Dentro desta ótica, a mulher precisa ser mais discreta. A sorte ou azar das pessoas é que eu não acreditava muito nelas. Sempre mantive uma rebeldia saudável. Na escola, esta estrutura se faz presente quando percebemos que, entre os poetas que estudamos, há mais homens do que mulheres. No romance, que é um lugar de grande prestígio, isso tem mudado, com a mulher ocupando o seu espaço. No caso da crônica, o predomínio também é masculino. Como se exige quase um texto de humor, isso seria mais raro entre as mulheres. É um lugar que elas não entram.

Você trabalha muito o humor em seus textos, não é verdade?
O humor está em todos os meus textos, até mais na poesia. E, sinceramente, não sei se é bem visto. Tenho a sensação de que a mulher não pode ser engraçada. Noto que lhe tentam colocar algum limite. Mas não é por isso que deixo de fazer nada. Não me submeto. Não faço aquilo que está mais na moda ou que vai funcionar mais.

Boa parte de sua produção, tanto em artigos como em livros, aponta para um grande interesse pela escrita, por seus códigos e transições.
A escrita é um direito. A expressão é um direito. Infelizmente, levamos uma vida como se ela fosse acessória. A leitura e a escrita fazem parte de um projeto de vida, desde a minha adolescência. Sempre foi minha paixão. Se eu conseguisse ter autonomia com ela, pagando as minhas contas, levaria tudo para esse lado. Absolutamente tudo. Acordava e dormia pensando nisso. Mesmo sabendo que não tinha grande prestígio, escolhi fazer Letras. Mais uma vez eu desobedeci, não dando a mínima para as piadinhas que faziam. Fiz o curso buscando aproveitá-lo ao máximo. Depois da faculdade, eu me envolvi com a publicação de livros e a revisão de textos. Trabalhei em várias editoras de BH, antes de ser professora. Uma das minhas áreas de pesquisa na faculdade eram as técnicas de escrita, como a da internet. E no Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet), onde eu fui dar aula, pudemos pensar no trabalho de produção editorial, do ponto de vista também tecnológico. O computador trouxe um impacto social muito grande, em toda a área de Comunicação. A partir dele apareceram muito mais publicações. Há 20 anos, o mercado passou a fervilhar de editoras independentes. Com um programa de diagrama-ção, o processo ficou mais barato.

Com tanto interesse pela área editorial, você já pensou em abrir uma editora?
Não tenho a menor vontade de ser empresária, embora possa ser uma pessoa empreendedora. Fui editora-assistente em algumas editoras, publicando livros jurídicos, didáticos e literários. De 2015 a 2017, publiquei com Bruno Brum a coleção “Leve um Livro”, feito com recursos da Lei Municipal de Cultura. Era distribuído em livrarias, no metrô, na rodoviária... Conseguimos alcançar leitores que achavam que não gostavam de poesia. Muita gente colecionava. Foi muito importante por trazer a poesia mais contemporânea. Hoje, somente editoras pequenas publicam poesia. As grandes não gostam, com exceção de um poeta x ou y, que caiu nas graças de um editor.

Você passou, em 2014, por um problema semelhante ao de Gregório Duvivier, que teve um texto dele usado em sala de aula e criticado pelos pais de alunos, quando houve um protesto, numa escola de Santa Luzia, sobre a leitura de um poema seu, “Ciuminho Básico”. Como foi isso?
Não foi igual ao do Gregorio. Foi ainda mais idiota. Entregaram o meu texto inapropriadamente para um grupo de crianças da escola. Faltou curadoria. Eu não tive nada com aquilo diretamente, apesar de os veículos terem ido atrás de mim. O livro em que saiu o poema é de 2008 e não tinha controle de onde seria usado. Mas isso tudo criou um mal-entendido. Creio que foi o início do obscurantismo, que agora se tornou mais forte. Até hoje há um processo contra um jornal de TV correndo por dano moral. A literatura como motivo de censura e perseguição não é novidade. Veja bem: conseguem perseguir a Ana Maria Machado e a Lygia Bojunga, que são autoras clássicos infantis! É muita piração.

E na sala de aula? Como tem sido?
A gente dá aula com medo. Retiramos coisas do programa para evitar polêmica. Fico muito mal com isso. Nunca havia passado por isso na vida. É muito terrível dar aula assim. Além de tudo, não é fácil identificar de onde virá a agressão. É difícil saber o que pode dar problema ou não. Qualquer coisa pode se tornar um problema, como levar a uma turma uma história que fala de uma religião de matriz africana. Isso aconteceu recentemente com um livro da Mazza, uma história juvenil sobre princesas africanas. Numa escola do interior do Rio de Janeiro, foi questionada a presença do livro na lista de indicações.