O consumidor, cliente de instituições bancárias, vai ser o maior beneficiário do novo sistema operacional, o “open banking”, ou banco aberto. A análise é do diretor de Estratégia da Belo Investment Research, Rafael Foscarini. 

Desde sexta-feira (13), os clientes que quiserem usufruir de melhores taxas e serviços de outros bancos podem pedir o compartilhamento de seus dados, mesmo sem ser correntista. 

A expectativa do mercado é que, com a entrada em operação do novo sistema, instituições bancárias diminuam o custo de serviços e produtos e ofereçam taxas melhores para atrair mais clientes. 


O que é o “open banking”? 

O mundo da economia e das finanças é muito dinâmico. O país está vivenciando uma modernização com pagamentos via internet, pix e transações via bitcoins. Open banking é mais uma ferramenta. É um sistema financeiro aberto ou banco aberto, em tradução livre, que está sendo implementado pelo Banco Central e busca dar autonomia para o cliente e para o usuário. Com isso, o consumidor poderá escolher produtos diferentes de bancos diferentes. O que muda, em linhas gerais, é que o cliente será dono dos próprios dados bancários, o que vai permitir que haja mais concorrência no setor bancário. 

O que muda? 

Até a semana passada, trocar de banco ou fazer qualquer tipo de operação financeira em um banco diferente do que o consumidor usa era muito complicado. As informações bancárias, todo o histórico do cliente, estão no banco A, que é o dele. Quando existia a intenção do consumidor de mudar, para fazer um financiamento ou pedir um cartão de crédito no banco B, que não é o do cliente, o consumidor não conseguia fazer a transferência dos dados. Se o cliente tem 20 anos de situação bancária bem administrada, sem atrasar conta, com pagamento de cartão de crédito em dia, e pedir para mudar todo o histórico dele para o banco B, ele era penalizado porque esse banco não sabia que o cliente era um bom pagador. Agora, com o open banking, o cliente pode autorizar o banco B, onde ele tem interesse em fazer qualquer tipo de operação, a acessar as informações dele. O gerente do banco B vai ter condições de fazer uma análise baseada no histórico do cliente. 

“Minha sugestão é que as pessoas tenham conta em um único banco, mas usufruam de outros serviços em outras instituições” para economista, sistema, já oferecido a clientes, deve reduzir taxas bancárias"

Quais são os benefícios desse sistema para o consumidor? 

Como tem mais clareza nos dados, o preço que o banco vai cobrar pode diminuir, com taxas menores. Os juros, no caso de um financiamento, serão menores se o cliente tiver histórico de bom pagador. O open banking vai dar mais transparência às informações, e isso vai aumentar a concorrência. As taxas dos bancos devem diminuir e, no final, o cliente será o maior beneficiado. É bom frisar esses benefícios para o consumidor porque existem muitas fake news. O open banking é uma iniciativa muito positiva para o sistema como um todo. Os bancos vão ter que brigar pelos clientes, ou seja, oferecer produtos e preços melhores, e o maior beneficiado será o próprio cliente, que terá acesso a produtos e serviços mais baratos. 

“Existem muitas fake news. Muitas pessoas estão receosas com o novo sistema, achando que os dados vão ficar dentro do sistema e que a própria pessoa não terá acesso. Mas isso não é verdade. Os dados são do cliente”

Quais são os produtos que estão na lista? 

Não há restrição do tipo de produto ou serviço. O open banking vai possibilitar que, ao longo de 2021 e também em 2022, mais produtos sejam adicionados a esse sistema transparente. Mas, basicamente, todos os serviços bancários poderão ser contratados em um banco diferente, e o que é melhor, sem que o cliente precise abrir uma conta em cada banco. O consumidor pode ser correntista do banco A, porque não cobra taxa de conta corrente; ter cartão de crédito do banco B, porque oferece o serviço com taxas menores; ter investimento no banco C, porque oferece rendimento melhor; financiamento em um banco de maior porte, que talvez seja a especialidade dessa instituição. Então, em resumo, o cliente vai poder montar o seu próprio banco escolhendo os serviços financeiros de acordo com as melhores ofertas de cada banco. 

Então, o vínculo com a instituição bancária não é condição para usar o sistema? 

Não, não é preciso ser cliente de novos bancos ou de qualquer instituição bancária onde se queira contratar o serviço, o que é um dos benefícios do open banking. Até a semana passada, o cliente precisava ser cliente de vários bancos se quisesse ter os benefícios oferecidos por eles. Agora, está mais fácil organizar as finanças. A minha sugestão é que as pessoas tenham conta em um único banco e possam usufruir de outros serviços em outros bancos, que será a forma mais eficiente de utilizar esse novo sistema, ou seja, consolidar todas as contas em um único banco e pesquisar os serviços mais em conta em outras instituições e contratar onde achar melhor. Consolidar tudo em um único lugar e visualizar produtos diferentes, de bancos diferentes, em uma única plataforma, é um benefício e ainda com vantagens, como produtos e serviços com taxas melhores, custo melhor, financiamentos com preços e prazos melhores. 

Como o consumidor vai poder compartilhar esses dados? 

Como falei no início, existem muitas fake news circulando pela internet. Muitas pessoas estão receosas com o novo sistema, achando que os dados vão ficar dentro do sistema e que a própria pessoa não terá acesso. Mas isso não é verdade. Os dados são do cliente. É ele quem vai autorizar ou não o banco a ter acesso a determinado histórico. A operação vai funcionar da seguinte forma: se a pessoa é cliente do banco A e quer um financiamento no banco B, o próprio cliente vai ao banco B, informa que quer fazer o financiamento com ele e o banco B vai entrar em contato com o banco A para pedir as informações e, assim, o banco A, obrigatoriamente, vai entrar em contato com o cliente para autenticar e autorizar que os dados dele sejam repassados ao banco B. São três etapas. E todo esse processo pode ser feito pelo próprio celular, com toda segurança que já é utilizada, como o uso de biometria, sempre com o consentimento do cliente, ou seja, os dados não vão ficar passando de um lado para outro sem o cliente autorizar. E uma outra vantagem: o cliente pode cancelar qualquer operação quando ele quiser, ou seja, se ele solicitar hoje e, por alguma razão, desistir de fazer a operação, ele pode cancelar amanhã sem nenhum problema. Terá um mecanismo que fará com que a licença, mesmo autorizada pelo cliente, expire a cada doze meses. Isso quer dizer que o banco não poderá ter acesso aos dados do cliente para sempre. O cliente terá de solicitar a renovação ao banco. Isso dá muita segurança! 

“O Open Banking vai dar mais transparência às informações e isso vai aumentar a concorrência, as taxas dos bancos devem diminuir e, no final, o cliente será o maior beneficiado”

Isso funciona como portabilidade? 

Não, isso não é uma portabilidade. O cliente apenas estará autorizando outro banco, que não o dele, a usar os dados por um período que o próprio cliente determinar. 

O open banking já funciona em outros países? 

O open banking é recente no mundo todo. O Reino Unido iniciou esse processo em 2018 e a partir daí começou a se espalhar. Já existe na Índia, Austrália e China. Canadá e Estados Unidos já estão estudando a possibilidade de implementação, ou seja, os principais players estão inseridos nesse processo. Cada país começa de uma forma diferente, seguindo as determinações das leis que protegem os dados. No Brasil, existem a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que entrou em vigor em 2018, e a Lei de Seguro Bancária, de 2001, que vão ditar as regras para o mercado brasileiro. A LGPD é inspirada na lei europeia e exige das empresas maior proteção e cuidado no armazenamento dos dados pessoais. Apesar de ter bastante similaridade entre o sistema de open banking, é preciso analisar o que a legislação de cada país determina. Uma coisa é certa: quem ficar de fora do open banking vai ficar atrasado. E uma coisa em que o Brasil é bom, é no sistema bancário. É muito bem regulado, o Banco Central tem autonomia, então, não me surpreende que o Brasil seja um dos pioneiros do open banking. 

Por que a implementação aqui no Brasil será em quatro fases? 

O mercado já vem ouvindo falar do open banking há pelo menos um ano. A primeira fase foi implementada em fevereiro deste ano só para os bancos. A segunda fase começou na sexta-feira (13), com a participação do cliente. A fase três inclui meios de pagamento como o pix, por exemplo, a partir de 30 de agosto, e a última fase será em dezembro, com outros compartilhamentos do cliente, como previdência e seguros. O processo tem que ocorrer em fases porque é um sistema tecnológico muito robusto. O sistema de compartilhamento acontece no formato de Interface de Programação de Aplicação, em inglês, Application Programming Interface, que é um sistema que o Banco Central vai gerir, onde as instituições financeiras participantes vão compartilhar as informações de forma padronizada. Com isso, vai ter um volume de dados muito grande e, se não houver teste e fases, isso pode falhar. Ao longo de 2022, o que a gente espera é que a gestão da parte financeira pessoal seja feita em menos plataformas ou até em uma só, com a possibilidade de o cliente contratar um serviço de outro banco dentro do seu próprio banco.

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