A urna e a apuração já eram eletrônicas. Agora, mais uma fase importante do processo eleitoral se encaminha para o meio digital. E tende a transformar em coisa do passado as convenções presenciais com faixas e festa para aclamar os candidatos escolhidos para o pleito. Com a pandemia, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) autorizou a realização de eventos remotos para a homologação das chapas que concorrerão na disputa municipal deste ano. E é exatamente como os principais partidos da disputa pretendem cumprir a exigência. Já se preparando para uma campanha que, com as recomendações de saúde, tende a também se concentrar na esfera virtual.

As legendas aguardam apenas pela confirmação do adiamento do primeiro turno e a definição sobre os prazos para fechar os planos. Há quem ainda cogite a possibilidade de reunião da militância de acordo com a evolução da situação de saúde, mas como plano B. E outros se adiantaram ao apostar na tecnologia para manter a atividade política no período. Em busca da reeleição do prefeito Alexandre Kalil, o PSD já trabalha nas ferramentas para as convenções remotas. "Vamos criar também reuniões para definir as prioridades de cada município, o que era feito pessoalmente, mas agora não é o caso. As reuniões virtuais vieram para ficar, ainda que o contato, que a conversa pessoal sejam muito importantes na política. Os números mostram que 3 de cada 10 mineiros não têm acesso à internet, e é preciso falar com essas pessoas. Depois dessa eleição atípica voltaremos às ruas, à política raiz, mas agregando a ajuda da tecnologia", diz o senador Carlos Viana, presidente da legenda em Minas.

O PSDB é outro que prepara os instrumentos para que os diretórios municipais façam convenções virtuais, que serão disponibilizados em julho. O diretório nacional regulamentou, em março, os dispositivos online, e vem estimulando seu emprego. “Desde a nossa convenção que eu tenho orientado para o uso intensivo das soluções digitais. É possível encurtar a distância entre as pessoas e discutir assuntos fundamentais para a sociedade", destaca o presidente em Minas, deputado-federal Paulo Abi-Ackel.

Presidente do Cidadania e pré-candidato do partido à PBH, o deputado estadual João Vítor Xavier lembra que a convenção vai além de um evento meramente homologatório, mas que a situação extraordinária definirá a solução adotada pelo partido. "Se for possível fazer convenção presencial melhor, porque legitima mais o processo democrático, é um momento de debate de ideias, mas entre o ideal e o possível vai uma distância. Se a saúde pública não recomendar, nós faremos remotamente. A saúde agora é a prioridade".

Convenção

Eventos presenciais, tradicionais para lançamento das chapas, não serão comuns nas eleições deste ano

Mobilização virtual

Mesmo duas siglas de forte mobilização social têm trocado a rua pela tela do computador. O PT, que optpu pelaa candidatura própria à PBH, passou a organizar reuniões e cursos pelo Zoom antes mesmo da quarentena, e descobre que é possível manter o engajamento de forma remota. "Vamos fazer a convenção de forma virtual. Temos nos organizado desta forma e é mesmo o caminho", explica o secretário de comunicação do partido, Kerison Lopes.

O PSOL, outro que terá chapa majoritária, também tem feito discussões virtuais e marcou para o dia 4 a reunião do diretório estadual que definirá o planejamento eleitoral. "Estamos em compasso de espera pela decisão da data pelo Congresso", explica a presidente do órgão, Maria da Consolação Rocha.

Para o professor Felipe Nunes, do Departamento de Ciência Política da UFMG, a pandemia antecipou em uma década a tendência de digitalização do processo eleitoral, o que inclui as campanhas. Ele vê como positiva a adoção das convenções remotas. "O fato das convenções se transformarem em atos virtuais vai abrir espaço para que mais pessoas participem. Ir a um evento é muito mais caro do que abrir um link no computador. Mesmo quem está distante vai poder se engajar, não precisa estar no local. Nos moldes atuais o alcance do evento acabava limitado".

Sobre o fato de a situação de saúde dificultar a campanha convencional, com o corpo a corpo, ele faz uma comparação interessante. "O mundo digital será, ainda mais, o terreno da disputa. Com um aspecto: se nas ruas ficava a sujeira dos panfletos, agora há outra sujeira, um vírus preocupante, que são as fake news".

 

Adiamento depende de

aprovação do Congresso

Por se tratar de artigo da Constituição Federal, a mudança nas datas da eleição municipal deste ano depende da aprovação de uma proposta de emenda (PEC) pelo Congresso Nacional. O que, tudo indica, será apenas uma formalidade. Depois de conversa entre o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Luís Roberto Barroso; os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP) especialistas em saúde e líderes partidários, ganhou força a ideia do senador Eduardo Braga (MDB-AM) de um intervalo de 15 dias entre primeiro e segundo turno, que ocorreriam, respectivamente, em 15 e 29 de novembro.

Entre os aspectos que deverão ser analisados está a mudança, ou não dos prazos para convenções e inscrição das chapas. Além disso, será necessário elaborar normas que possibilitem a proteção do eleitor e reduzam riscos de contágio pelo novo coronavírus na ida às urnas.