No último dia da viagem à Bolívia, o papa Francisco teve um encontro emocionante com detentos do presídio de Palmasola, na periferia de Santa Cruz de la Sierra, onde ouviu denúncias de dificuldades de acesso à Justiça e corrupção e relatos de superlotação, violência e má qualidade da alimentação.

Em discurso, o papa pediu respostas imediatas para tantos problemas e melhores condições nas cadeias. "Reclusão não é o mesmo que exclusão", afirmou. "São muitos os elementos que jogam contra, sei muito bem, a superlotação, a lentidão da justiça, a fala de terapias ocupacionais e de políticas de reabilitação, a violência fazem necessária uma rápida e eficaz aliança institucional para encontrar respostas", afirmou.

O pontífice optou por um pronunciamento mais voltado para a solidariedade com os presos, em vez de cobranças diretas de providências contra a corrupção e as injustiças. "Sou um homem perdoado que foi e é salvo dos seus pecados", disse a homens e mulheres que cumprem pena em Palmasola. "Eu também tenho meus erros e devo fazer penitências", afirmou. Palmasola é considerado o presídio mais violento da Bolívia.

O papa pediu aos presos que se ajudem mutuamente e busquem na religião um alívio para o sofrimento na cadeia. Disse que o sofrimento e a privação de liberdade podem levar ao egoísmo, à violência e ao desespero. "O diabo procura a briga", afirmou. Francisco lembrou os discípulos Pedro e Paulo, que também estiveram presos. "Eles rezaram, e (outras pessoas) rezaram por eles. Duas ações que geram entre si uma rede que sustenta a vida e a esperança", afirmou.

Condenado a 20 anos por homicídio, o detento Andres de Jesus, de 22 anos, em Palmasola desde os 19, disse que, no início, se admirou com os presos dormindo no chão, mas hoje vê com naturalidade e lembrou a rebelião de presos que deixou 35 pessoas mortas em 2013. "Alguns dormem como bichos, como animais e isso hoje me parece comum. Precisamos de alimentação digna, programas reais de reabilitação social e verdadeira justiça", afirmou.

A presa Ana Lia Parada, encerrou aos prantos um discurso em que denunciou o "terrorismo jurídico", em que apenas os que podem pagar advogados caros têm acesso à Justiça. Ela pediu que o papa interceda pela libertação de presas idosas, com doenças terminais e que já tenham cumprido um terço da pena, no caso das condenadas a mais de trinta anos.

Bispo responsável pela pastoral penitenciária, o monsenhor Jesús Juárez, também fez graves denúncias em discurso ao papa: "É escândalo a demora da justiça na Bolívia onde 24% dos presos não têm sentença, estão custodiados".

O papa chegou em carro fechado ao presídio, mas passou para um veículo aberto depois de passar pelo portão de entrada. De maneira ainda mais afetuosa que em outros compromissos no país, cumprimentou presos, agentes penitenciários, voluntários e muitas crianças. (Luciana Nunes Leal, enviada especial)