Uma campanha de renegociação promovida pela Caixa pode devolver o poder de compra a quase 400 mil mineiros. Com validade até 28 de agosto, o programa é destinado a inadimplentes do financiamento habitacional e a quem tem dívidas comerciais, como cartão de crédito e cheque especial. O objetivo, conforme o superintendente regional do banco, Marcelo Bomfim, é aumentar a circulação de capital no mercado, impulsionando a economia. 

O giro de recursos é estimulado devido à liberação do crédito para quem estava inadimplente. “Quando a pessoa tem esse tipo de dívida, ela é negativada e o poder de compra acaba. As lojas não vendem parcelado, ela não consegue comprar com cartão de crédito. Como consequência, a qualidade de vida da pessoa piora e ainda falta dinheiro na praça”, explica Marcelo Bomfim.

Ele não informa quantos mineiros já aderiram ao programa, mas adianta que 336 mil pessoas têm direito a renegociar dívidas comerciais (cartão de crédito, cheque especial, empréstimo pessoal, entre outras) e 62,8 mil clientes podem ficar em dia com as contas da casa própria. 

Em todo o Brasil, 125 mil clientes já renegociaram dívidas comercias, e 25 mil solicitaram renegociação de débitos imobiliários, segundo balanço divulgado ontem pelo presidente do banco, Pedro Guimarães.

Os valores das dívidas não são tão altos. Conforme o superintendente regional, 92% das pessoas que têm débitos comerciais devem até R$ 2 mil, e 66% das dívidas de pessoas jurídicas não ultrapassam R$ 5 mil. 

“Dada a situação econômica das famílias, é dever do banco dar oportunidade para que as pessoas regularizem a situação junto à Caixa”, afirma. 

Para acertar as contas com a instituição financeira, basta ir a qualquer agência da Caixa e levar um documento com foto. Conforme Bomfim, todas as unidades estão aptas a verificar a dívida e fazer uma proposta ao devedor.

Quem tem débito comercial há mais de 360 dias pode renegociar a dívida com descontos que variam de 40% a 90%.No caso dos financiamentos habitacionais, aqueles que estiverem com mais de 30 dias em atraso podem receber uma proposta do banco. 

Foi o caso do especialista em Tecnologia da Informação Rodrigo Vianney Gonçalves. Ele acabou se enrolando com uma grande reforma realizada no apartamento e atrasou algumas parcelas do apartamento. “Fiz um gasto além do orçamento e meu nome foi negativado. Como consequência, perdi poder de compra. Depois da renegociação, o nome foi limpo em cinco dias úteis”, conta.

Gonçalves pagou uma parcela das que devia e as outras foram incorporadas ao saldo devedor. Ele afirma que a Caixa chegou a oferecer suspensão do pagamento das parcelas por seis meses, mas ele não aceitou. “Como consigo pagar, achei melhor não adiar as parcelas”, pondera.

Antes de se endividar, o conferente Evandro de Lima recorreu à Caixa e conseguiu congelar as parcelas da casa própria por um ano. O objetivo foi evitar problemas futuros. “Eu estava atravessando uma fase de dificuldade financeira e fiquei com medo de não conseguir pagar as parcelas. Fui à Caixa e consegui interromper o pagamento por um ano. A solução oferecida por eles, apesar de aumentar um pouco a dívida, vai me ajudar bastante”, diz.

 

Associação de mutuários questiona altas taxas de juros

As iniciativas da Caixa para renegocia débitos são bem-vindas, mas elas não solucionam o problema do superendividamento das famílias, conforme afirma o presidente da Associação dos Moradores Mutuários de Minas Gerais (AMMMG), Sílvio Saldanha. De acordo com ele, o fato de o juro composto incidir sobre as parcelas é o principal responsável pela inadimplência da casa própria. 

“A renegociação remedia o problema, mas não resolve. Se os juros fossem simples, a prestação seria até quatro vezes menor, e as pessoas não deveriam tanto ao banco”, pondera.

Ele destaca que o dinheiro utilizado pelo banco para financiar a casa própria por meio das linhas pró-cotista e SBPE são do próprio consumidor. “O banco usa o Fundo de Garantia e o dinheiro da poupança para emprestar dinheiro e tem muito lucro com isso. Se o dinheiro fosse da instituição financeira, ela poderia jogar o juro lá em cima. Mas não, o dinheiro é do próprio consumidor”, afirma.

Apesar das duras críticas, ele aconselha os mutuários a não atrasar as parcelas, sob pena de o imóvel ir a leilão. Vale ressaltar que a Lei 9514/1997 diz que o banco pode retomar o imóvel quando há três parcelas abertas. Basta que ele mande uma notificação informando que o comprador tem 15 dias para arcar com todo o débito.