Na Câmara Municipal, o clima nessa terça-feira (2) foi de críticas dos parlamentares em relação à atuação do vereador Cláudio Duarte (PSL), preso pela Polícia Civil. Parte dos vereadores é favorável à instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para analisar uma eventual cassação do vereador preso.

No primeiro mandato, eleito com 4.513 votos, Cláudio Duarte é descrito como impulsivo, provocativo e temperamental pelos colegas. O vereador Gabriel Azevedo (PHS) criticou o fato de o vereador do PSL ter sido o único parlamentar da Casa a apoiar publicamente celebrações em prol da ditadura militar, realizadas no último domingo, em Belo Horizonte.

“Dos 41 vereadores, lamentavelmente um foi às ruas defender o golpe de 1964, um regime que torturou, censurou e prendeu. E 48h depois, preso está ele. E, ao que parece, mesmo tendo defendido os cidadãos de bem, a família e os bons costumes, paira sobre ele a dúvida de que estava coagindo servidores da Câmara Municipal para dividir o salário recebido por eles”, criticou Azevedo.

Para o vereador Mateus Simões (Novo), é “obrigação” abrir a CPI, caso as investigações comprovem o crime do vereador do PSL. “Concretizando o inquérito, é possível abrir um processo ético disciplinar, sim, assim como o que foi instaurado contra o vereador Wellington Magalhães”, disse o vereador Mateus Simões (Novo).

O corregedor da Câmara Municipal, Bim da Ambulância (PSDB), disse que vai aguardar o avanço das investigações da Polícia Civil para decidir sobre a abertura de uma eventual CPI. Bim ainda reforçou as críticas feitas pelos colegas à atuação de Cláudio Duarte na Câmara. “Ainda estou em estado de choque. Ainda mais se tratando de um parlamentar que não tem boa transição aqui na Casa. Ele tem certos desgastes e temperamentos que a gente não consegue mensurar. Não é de trato simples com os colegas”, disse.

Filho do presidente também é suspeito de cobrança

O esquema conhecido como “rachadinha” ou “pedágio”, em que funcionários de gabinetes são obrigados a devolver parte do salário aos parlamentares, não é novidade na política brasileira, mas recentemente voltou à tona com as suspeitas de que teria sido adotado por Flávio Bolsonaro, hoje senador, quando ele era deputado estadual no Rio de Janeiro. Tanto Flávio quanto o pai, Jair Bolsonaro são do PSL, mesmo partido do vereador Cláudio Duarte, preso nessa terça em Belo Horizonte. O operador da “rachadinha” seria Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio na Assembleia fluminense.

Relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) revelou movimentações financeiras nas contas de Queiroz no total de R$ 7 milhões entre 2014 e 2017. Somente entre janeiro de 2016 e o início de 2017, quando estava lotado no gabinete de Flávio, ele movimentou R$ 1,2 milhão, valor incompatível com o salário dele. 

Segundo o Coaf, outros assessores do gabinete de Flávio faziam depósitos regulares para Queiroz, sempre em datas próximas do dia de pagamento na Assembleia, o que levantou a suspeita da prática da “rachadinha”. Os dados também apontaram que ele fez um depósito de R$ 24 mil na conta da hoje primeira-dama, Michele Bolsonaro.

Em depoimento ao Ministério Público do Rio, Fabrício Queiroz admitiu que recolhia dinheiro dos colegas de gabinete, mas alegou que os valores eram usados para contratar assessores informais e “expandir a atuação parlamentar” do então deputado nas bases. 

A investigação do caso está a cargo do Grupo Especializado no Combate à Corrupção (Gaecc) do MP do Rio. Flávio Bolsonaro alega inocência. Tentou transferir a apuração do caso para o Supremo Tribunal Federal (STF), sob alegação de ter direito ao foro privilegiado, mas o pedido foi negado.

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