A aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 241, que limita o crescimento dos gastos públicos à taxa da inflação pelos próximos 20 anos, será “desastrosa” para o desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil, segundo o presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Luiz Davidovich. Pesquisadores temem que o resultado seja o congelamento do orçamento dedicado hoje ao setor, considerado extremamente baixo.

“Se continuarmos na situação atual por mais 20 anos será mortal; vamos voltar ao status de colônia extrativista”, disse Davidovich. “Na verdade, não digo nem 20 anos. Se for cinco, já será extremamente complicado”.

Na avaliação do coordenador do Centro de Tecnologia em Nanotubos de Carbono (CTNanotubos) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Marcos Pimenta, o país retrocederá pelo menos 30 anos no quesito desenvolvimento tecnológico. Como consequência prática da PEC, Pimenta destaca cortes no número de bolsas de estudos, redução drástica de verbas para compras de material e para equipamentos de laboratório. 

“O Brasil demorou muitos anos para criar um programa de desenvolvimento científico e essa PEC vai cortar fontes de recursos indispensáveis. Os países desenvolvidos investem em ciência e tecnologia e o Brasil está na contramão, cortando recursos de áreas fundamentais”, critica.

O desemprego em massa de doutores é outro possível impacto citado pelo pesquisador. “O Brasil nunca formou tantos doutores. Essas pessoas, extremamente qualificadas, não terão campo para trabalhar e poderão ter que procurar outras áreas”, lamenta. 

Partículas

No CTNanotubos, que aproxima a indústria da academia, são estudados as aplicação dos nanotubos (partículas atômicas criadas em laboratório, que são formadas por uma espécie de túnel de carbono, 100 mil vezes mais fino do que um fio de cabelo) a produtos como cimentos e plásticos. As partículas garantem superpoderes aos materiais, dando mais durabilidade e resistência a eles.

Enxugamento

O orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (hoje chamado MCTIC, após fusão com a pasta das Comunicações) encolheu consideravelmente nos últimos anos. Em valores corrigidos pela inflação, é quase 30% menor do que 10 anos atrás, e aproximadamente metade do que era em 2010. “Estamos partindo de um patamar muito baixo”, diz Davidovich, físico da Universidade Federal do Rio (UFRJ).

"É um cenário trágico para a ciência”, diz a presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Helena Nader. Ela teme uma fuga em massa de cérebros para o exterior, caso a situação de perpetue dessa forma. “O que estamos dizendo para os nosso jovens cientistas é: se você tem condições de ir embora do Brasil, vá; porque aqui a ciência não é valorizada”.

“Vamos voltar à realidade da década de 1990, quando a única saída para ciência, tecnologia e inovação no Brasil era o aeroporto”, diz o bioquímico Jerson Lima da Silva, professor da UFRJ e diretor científico da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).
Com agências