Prestes a completar um ano à frente da Federação das Indústrias dos Estados de Minas Gerais (Fiemg), em maio, Flávio Roscoe, que tem se posicionado sobre todos os grandes assuntos que permeiam Minas Gerais, faz um balanço da gestão, que, segundo ele, é focada em defender os interesses das indústrias e da sociedade em geral. Empresário bem-sucedido do setor têxtil e defensor do associativismo, Flávio recebeu a equipe do Hoje em Dia na sede da entidade e falou sobre os cortes no Sistema S anunciados pelo presidente Jair Bolsonaro, criticou a demonização da mineração, embora ressalte a necessidade de investir em segurança, e anunciou estratégias para fiscalizar e propor pautas para o Congresso. Confira a entrevista completa.


Como você avalia a sua gestão à frente da Fiemg? Qual o mote do seu mandato?
Temos dado ênfase em atender às demandas das indústrias e, consequentemente, defender os interesses de toda a sociedade. Afinal, é importante dizer que os interesses da sociedade estão ligados umbilicalmente aos interesses da indústria. Defender causas que melhorem de maneira geral a sociedade brasileira é o mote da nossa gestão. 

Como indústria e sociedade estão ligados?
Indústria é investimento de longo prazo. Quando se instala em uma localidade, ela casa com aquela comunidade. Ela não pode entrar e sair. É um investimento imobilizado. Se a sociedade não vai bem, os interesses daquela indústria também não vão bem. Se a educação é ruim, os funcionários terão que receber mais treinamento, e a indústria vai gastar mais tempo para atingir um bom nível de produtividade. Se a infraestrutura é ruim, as mercadorias terão custo onerado. Se o sistema de saúde não é bom, os clientes e funcionários também vão sofrer. Se não há segurança, todos perdem. Então, investimento industrial, diferentemente de outros, que são mais baixos, é investimento que cria raiz onde (a indústria) está instalada. Não é como uma loja, que se está ruim vai para outro lugar. A indústria cria vínculo com a sociedade que é quase que indissolúvel.

Como a Fiemg lida com a política? 
Não temos medo de contrariar os interesses políticos para defender a indústria. Compramos brigas sim, expomos claramente a nossa posição, que é incisiva. Desde que assumi, tudo que aconteceu em Minas Gerais até hoje a Fiemg teve posição incisiva. Temos posição para tudo e, geralmente, contra a maré, antecipando questões. 

Você pode dar um exemplo?
Fomos os primeiros a manifestar sobre a greve dos caminhoneiros. Falamos que seria uma catástrofe e que traria consequências desastrosas para a economia. E depois viram que estávamos certos, porque caiu o nível de atividade, caiu o emprego. E chegou em um ponto que faltou comida no supermercado. 

O governo federal pretende cortar entre 30%e 50% das contribuições para o Sistema S. Qual a posição da Fiemg sobre o assunto?
Todo governo que entra quer fazer mudanças. E é natural haver propostas desse tipo. A posição da Fiemg para o momento é a de que é necessário nos doarmos para o país. Eu entendo que, com o tipo de gestão que defendemos, não teria como nós não nos sacrificarmos pelo país. Por isso, estimamos cortes de 20%. E é importante lembrar que quem arca com esse dinheiro são as próprias empresas. E eu digo que hoje a Fiemg está preparada para um corte de 20%. Reduzimos os custos sem ferir atividade fim. E ainda aumentamos o número de alunos em 15%. Procuramos fazer mais com menos. Mas é importante lembrar que se não houver cortes vamos poder otimizar os recursos para que mais pessoas tenha formação educacional e profissional. 

Mas o governo ameaça cortar entre 30% e 50% dos recursos.
Ainda vamos sentar para negociar. Esse índice, que gira entre 30% e 50%, é pesado. Ele não é sustentável. Temos que lembrar que o recurso é todo direcionado para a educação profissional. No Senai, por exemplo, quase 70% da obrigação é para a gratuidade do aluno. O Sesi e o Senai prestam serviços muito importantes para a sociedade, com nível de qualidade altíssimo. O custo é muito menor do que o gasto pelas próprias entidades públicas que prestam o serviço.
Além disso, os nossos índice de qualidade de educação são incomparáveis com a rede pública. O Senai é considerado uma das melhores, senão a melhor, escola de formação profissional do mundo. 

E como você vê os cortes?
Muitas vezes não entendemos é o que o governo vai fazer nas suas áreas. Então, acho que ele tem que olhar para as áreas de gestão de recursos dele também. Às vezes, cortar no Sistema S é cortar onde é mais produtivo. 

A Fiemg possui um projeto para aproximação dos parlamentares. Como ele funciona?
Estamos com esse projeto em andamento. Vamos fazer a avaliação dos parlamentares, fazer um ranking de aproveitamento com base nos assuntos mais importantes para a indústria, como a Previdência, por exemplo. A princípio, vamos trabalhar diretamente com os políticos dos âmbitos estadual e federal, acompanhar o desempenho deles nas votações e municiá-los de informações. Queremos reconhecer aquele parlamentar que faz um bom trabalho e que, muitas vezes, vota contra aqueles que exercem mais pressão. Os políticos têm dificuldade com esses grupos de pressão, por isso, queremos dar exposição positiva a eles. 

Mas esse ranqueamento, com exposição daqueles considerados mais alinhados à sociedade pela Fiemg, não pode ser considerado uma espécie de financiamento de campanha? 
A avaliação faz parte da democracia. Todo mundo pode fazer um ranking. Nós, entidades de classe, também podemos fazer. Podemos dizer que o parlamentar tal teve um bom desempenho, por exemplo. E os critérios não serão baseados apenas na indústria. Esse instrumento de democracia terá toda a transparência. Nesse sentido, também estamos integrando as mídias sociais da Fiemg às das grandes empresas. Com isso, criamos uma ampla base de comunicação, onde aquilo que a Fiemg fala passa a ser ouvido por um número maior de pessoas. Queremos nos comunicar com a sociedade.

Os empresários batem muito na tecla da necessidade da reforma previdenciária. Por quê?
Sem a reforma, o Brasil não tem futuro. Em breve, todo o recurso público será usado para a aposentadoria das pessoas. O mundo mudou, as pessoas estão morrendo com muito mais idade, as pessoas estão vivendo muito mais, trabalhando muito mais. Com isso, tem que haver mudança na Previdência. Além do mais, a previdência pública é muito injusta. Ela é muito favorecida em detrimento da previdência privada. Na pública existem grandes benefícios que são insustentáveis. Sem mudanças na Previdência não tem crescimento na economia. Sem crescimento, a indústria vai definhar. Então, a reforma da Previdência é vital para que tenhamos um ambiente de negócios que não inviabilize os investimentos. Não é importante só para a indústria, mas para toda a sociedade. E pode ser o fator de virada para a economia brasileira. 

O que a indústria ganha com a reforma? 
Não ganhamos nada diretamente com isso. O que propomos é que o Estado gaste de uma maneira mais eficaz. E entendemos que uma reforma da Previdência poderia tornar isso mais possível. 

A Fiemg tem divulgado uma série de estudos sobre mineração e os impactos do fechamento de várias minas pelo Estado, reflexo do aumento do risco de rompimento, exposto após as mortes em Brumadinho. Qual a posição da entidade sobre o assunto?
O setor mineral tem uma relevância muito grande para a sociedade brasileira. E para a mineira tem mais importância ainda. A vida como nós conhecemos não existe sem setor mineral. A água que nós bebemos tem cal. Os produtos que comemos têm minerais adicionados ao solo, que aumentam a produtividade. Todo item que você usa tem produto mineral, sem contar o próprio petróleo. Por isso, a relevância do setor. Ainda mais em um estado chamado Minas Gerais. E o minério extraído aqui fica aqui sim, ao contrário do que dizem. Metade da produção de Minas fica no Sudeste do Brasil. Vira carro, geladeira, vergalhão, ponte, viaduto. 

Qual o impacto na cadeia de fornecedores?
Tudo que é ligado a minério é atingido, atinge toda a cadeia em Minas Gerais. Por isso, chegamos à conclusão de que o impacto é muito maior do que se supunha. E transcende a atividade mineral. Em nosso Estado, todo o polo minero-metalúrgico e os clientes dessas empresas também são afetados. Autopeças, fabricantes de peças em geral, equipamentos, todos esses correm o risco de perder parte da matéria prima. 

São necessárias mudanças?
Sim, temos defendido que são necessárias mudanças, que a mineração tem que ser segura e que as barragens a montante têm que acabar. Concordamos com essa análise. Mas não podemos demonizar a mineração. Estamos trabalhando com a projeção de perda de 850 mil empregos em Minas Gerais. É uma tragédia de grande porte. E tragédia em vidas humanas, porque são 850 mil pais e mães de famílias. Não podemos ir ao extremo de dizer que não pode ter a atividade econômica porque ocorreu o acidente.