SYDNEY - Perfurações no leito marinho da costa da Antártica revelaram que uma floresta tropical existiu no continente gelado há 52 milhões de anos, afirmaram cientistas nesta quinta-feira (2), alertando que a região poderá voltar a perder sua camada de gelo em questão de décadas.
 
A análise do núcleo de sedimentos coletados em frente à costa leste da Antártica revelou polens fossilizados provenientes de uma floresta "quase tropical" que cobriu o continente no período Eoceno, de 34 a 56 milhões de anos atrás.
 
Kevin Welsh, cientista australiano que viajou na expedição de 2010, explicou que a análise de moléculas sensíveis à temperatura nos núcleos demonstraram que era "muito quente" 52 milhões de anos atrás, com temperaturas de cerca de 20º Celsius.
 
"Havia florestas em terra, não haveria gelo algum e seria muito quente", afirmou Welsh a respeito do estudo, publicado na revista científica Nature. "É surpreendente porque obviamente a imagem que temos da Antártica é que é muito fria e cheia de gelo", acrescentou.
 
Welsh disse que se acreditava que níveis mais elevados de dióxido de carbono na atmosfera fossem a principal causa do calor e da ausência de gelo na Antártica, com estimativas de CO2 entre 990 a "duas mil" partes por milhão.
 
A concentração de CO2 atualmente é calculada em cerca de 395ppm e Welsh afirmou que as previsões mais extremas, feitas pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) veria o gelo recuado novamente na Antártica "no fim do século".
 
"É difícil dizer porque realmente isto é controlado pelas ações de pessoas e governos", explicou Welsh, paleoclimatologista da Universidade de Queensland. "Realmente depende de como as emissões serão no futuro", acrescentou.
 
Welsh descreveu as descobertas como "muito significativas" para compreender o futuro das mudanças climáticas, particularmente em face da importância da Antártica para o planeta inteiro, bem como do "imenso" volume d'água armazenado em sua superfície.
 
O estudo "demonstra que se atravessarmos períodos de mais CO2 na atmosfera, é muito provável que haverá mudanças dramáticas nestas áreas muito importantes do globo, onde o gelo atualmente existe", afirmou. "Se perdermos muito gelo na Antártica, vamos ver uma mudança dramática no nível do mar em todo o planeta", acrescentou.
 
Até mesmo a elevação do nível do mar em alguns poucos metros inundaria "grandes porções de terra habitável ao longo da costa de muitos grandes países e regiões de terras baixas", acrescentou.
 
O gelo no leste da Antártica tem de 3 a 4 km de espessura e acredita-se que tenha se formado cerca de 34 milhões de anos atrás.
 
Welsh disse que também haverá grandes impactos nas temperaturas globais se o gelo recuar porque se trata de um mecanismo de resfriamento integral do planeta, que regula as temperaturas, ao refletir para o espaço a energia do sol.