“Há alguns anos, os moradores da minha geração precisavam ir ao Centro de Belo Horizonte para fazer compras. Hoje, encontramos quase tudo nos bairros. Há preços e comodidade”, conta a artesã Solange Resende, de 56 anos, moradora do Padre Eustáquio (região Noroeste da capital). Assim como ela, praticamente nove em cada 10 consumidores de Belo Horizonte dão preferência ao comércio de bairro. É o que mostrou uma pesquisa da Fecomércio-MG: 87,2% dos compradores da capital recorrem aos estabelecimentos perto de casa.

O comércio do hipercentro é opção para 56,4% dos entrevistados, enquanto os shoppings centers atendem 51,3%. A conta não fecha em 100% porque, na pesquisa, os entrevistados optavam por mais de uma resposta.

Quando analisado o percentual daqueles que “sempre compram” em determinados locais, 53,2% responderam que frequentam as lojas de bairro. O índice é bem maior do que os de quem vai ao hipercentro (13,5%) e aos shoppings (15,1%). 

Em razão da preferência de consumidores pela região em que moram, alguns lojistas optaram por concentrar os negócios no bairro, como relata Vanessa Abreu: “Eu tinha duas lojas. Uma no Centro e outra no Padre Eustáquio. Fechei a de lá depois que o movimento caiu muito. Fiquei com a do bairro”.

O economista-chefe da Fecomércio-MG, Guilherme Almeida, explica que os consumidores buscam mais comodidade no momento da compra. O aumento das compras virtuais reforça a opção das pessoas pela aquisição de bens em locais perto de casa. A Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm) apurou faturamento de R$ 17 bilhões do e-commerce no primeiro trimestre de 2019, cifra 16% maior que a de igual intervalo de 2018. 

“Essa (compra com comodidade) é uma característica mundial e explica, inclusive, a ascensão do e-commerce. Os consumidores, em seu hábito de consumo, sempre buscam otimizar o valor pago em bens e serviços, adquirindo-os em locais de fácil acesso e que não incorram em maiores custos de deslocamento”, reforçou Almeida.

Esta facilidade resulta em otimização do tempo, sobretudo para quem trabalha em casa ou na região em que reside. Dependendo do bairro que o consumidor mora, o tempo que gastaria para fazer uma compra em shopping ou no hipercentro é revertido no trabalho.

“Há outro item que é levado em conta no caso das lojas de bairro, que é a proximidade com os comerciantes”, acrescentou. Em outras palavras, Almeida quer dizer que, em boa parte das lojas de bairro, o comprador é atendido pelo próprio dono do estabelecimento, o que pode significar melhor atendimento e maior possibilidade de negociação.

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Vanessa decidiu fechar a loja no centro de BH e ficar apenas com o estabelecimento no Padre Eustáquio

Alimentação

A maioria dos moradores que vai às compras em bairros leva para casa produtos alimentícios. Já aqueles que vão aos shoppings e ao hipercentro de Belo Horizonte estão atrás de roupas, calçados e acessórios.

Segundo pesquisa da Fecomércio-MG, os alimentos respondem por 23,5% das compras feitas nos bairros. Já o conjunto de roupas, calçados e acessórios ficou em segundo lugar, com percentual de 10,9%.

Nos shoppings e no hipercentro, o conjunto de roupas, calçados e acessórios lidera o ranking com, respectivamente, 39,2% e 73,3%. “Os alimentos precisam ser consumidos todos os dias. Antigamente, as pessoas iam nos hipermercados e faziam compras para o mês todo. Era época de inflação alta. Com a inflação controlada, as pessoas fazem compras para um período menor, aproveitando as promoções semanais e até diárias”, explicou Guilherme Almeida, economista-chefe da Fecomércio-MG.

A artesã Solange Resende, moradora do Padre Eustáquio, conta que se recorda da época em que precisava ir ao centro da capital para abastecer a dispensa do mês: “Era complicado. Hoje, há muitos mercados nos bairros. Vou tanto ao comércio daqui que minha filha brinca comigo quando saio de casa: ‘Lá vai a mamãe passear nos supermercados’”.

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Bolso

A pesquisa da Fecomércio mostra também que o preço conta muito para o consumidor decidir onde vai às compras. Oito em cada 10 entrevistados (81%) disseram que o valor do produto ou serviço “influencia muito” na hora de escolher o local de consumo. Outros 12,8% afirmaram que os preços“influenciam pouco” e 6,2% disseram que “não influenciam”.

Quanto à localização, o quesito “influencia muito” foi citado por 68,7%, o que reforça também a opção cada vez maior pelo comércio mais próximo do local de residência.