Nem o Natal irá trazer alento ao comerciante, segundo representantes do setor varejista. A crise brasileira, com desemprego elevado, atraso no pagamento do 13º salário de parte do funcionalismo público e a inadimplência são alguns dos fatores apontados para que as vendas neste ano sejam ainda menores em comparação com 2015.

Em Minas Gerais, o comércio registrou queda nas vendas de 5,2% ao longo do ano. “A expectativa é que este seja o pior Natal da história do país. Os consumidores estão endividados. Muitos estão inseguros com a situação política do país e acabam não indo às compras”, explica Alexandre França, porta-voz da Associação dos Lojistas de Shopping Centers de Minas (Alô Shopping).

Para o economista da Fecomércio-MG, Guilherme Almeida, ainda que o Natal apresentasse boas vendas, reverter esse quadro negativo seria muito difícil. “O quadro de queda em 2016 é muito significativo. Percebemos cautela muito grande nos consumidores”, diz.

Levantamento da entidade, feito em novembro com 381 empresários de todo o Estado, apontava que 40% dos empresários já acreditavam que as vendas neste ano seriam menores que em 2015.

Tíquete médio
Se em anos anteriores o consumidor pretendia gastar entre R$ 100 e R$ 150 com presentes de Natal, segundo projeções da CDL-BH, Fecomércio-MG e Alô Shopping, neste ano o tíquete médio não deve chegar aos R$ 100. Tanto nas lojas de shoppings quanto nas localizadas nas ruas são as “lembrancinhas” que têm caído no gosto do consumidor.

“As lojas mais cheias neste fim de ano são, normalmente, as que têm produtos com preço máximo entre R$ 50 e R$ 80”, explica Alessandro Runcini, diretor da CDL-BH.

Quem ainda está vendendo bem são os comerciantes de departamento de roupas e brinquedos de menor valor. Os setores mais afetados, nesse cenário, são os de bens de consumo duráveis, como móveis e eletrodomésticos. “No ano passado os lojistas já tiveram queda nas vendas de 3,8% em relação a 2014. Em 2016, ainda se vendermos o mesmo que em 2015, o que não deve acontecer, estaremos perdendo, pois a inflação já bate na casa dos 7%”, conclui

Desemprego
O fator que estaria mais impactando as vendas de Natal, segundo Guilherme Almeida, economista da Fecomércio-MG é o desemprego, que chegou à casa dos 11,8% da população economicamente ativa no Brasil no segundo trimestre deste ano. “Em comparação com o Natal de 2015, esse total era inferior a 7%. Isso é um dos principais fatores para estancar o consumo das famílias” afirmou.

Nesse sentido, apesar dos estímulos à economia lançados pelo governo federal nas últimas duas semanas, como a redução na taxa de juros do cartão de crédito e a liberação dos saques de recursos de contas inativas do FGTS, Guilherme Almeida acha pouco provável que haja uma retomada imediata do comércio.

Já Alexandre França, porta-voz do Alô Shopping, é mais otimista. “No segundo trimestre a economia começa a se recuperar. Os juros devem cair, devemos ter uma safra boa na agricultura”, prevê.
 

Parte do 13º salário deve ser utilizada para saldar dívidas

O 13º salário neste ano não deve ser utilizado para compra de presentes de Natal. Pelo menos, essa é a previsão dos comerciantes, que já sentem as lojas mais vazias em relação a 2015. Em 2016, por causa de atraso em repasses em alguns setores do funcionalismo público, especialmente em Belo Horizonte, muita gente ficou sem receber o benefício extra integral, que deveria ter acontecido até o último dia 20.

Guilherme Almeida, economista da Fecomércio-MG, pontua, no entanto, que devido ao endividamento da população, parte do dinheiro do abono de fim de ano já não iria para as lojas. “Em levantamento feito pela Fecomércio, 39,3% dos entrevistados disseram que utilizaria o 13º para o pagar de dívidas, mas é claro que uma parte se converte em compras”, disse.

Para a lojista Rosilene Braga, que vende biojóias na Savassi, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, o momento do funcionalismo já trouxe reflexos no comércio. “Com o parcelamento e atraso nos salários e 13º, mesmo que a pessoa receba, ela fica muito insegura”, diz.

No entanto, a comerciante acredita que irá conseguir manter um equilíbrio nas vendas em comparação com as de 2015, ainda que não salvem 2016. “As pessoas têm comprado valores menores, mas não têm deixado de comprar totalmente”, complementa.

Para Alessandro Russini, diretor da CDL-BH, nem mesmo as chuvas pesadas que caíram na cidade no mês de dezembro puderam ser ignoradas, já que atrapalharam muito as vendas dos comerciantes de rua. “Sem contar que muita gente está desanimada em comprar no Natal. Além da crise econômica, convivemos com uma crise moral”, diz.

A lojista Rosilene Braga também acredita que o momento político do país interfere. “Em 2014, as vendas foram normais e o Natal foi excelente. Ao longo de 2015, fomos sofrendo com quedas. Neste ano foi muito tumultuado, com a expectativa do impeachment e a mudança de presidente. Então, fica tudo muito parado”, comenta.

Estratégias
Carlos Roberto Moreira, dono de uma loja de roupas para o público jovem, conta que para poder reverter o momento difícil no comércio, tem apostado em promoções e alternativas para atrair o consumidor, como, por exemplo, a venda de kits de produtos.

“As coisas não são como antes. Para que consigamos ter crescimento é preciso um esforço ainda maior. Já estávamos nos planejando para as vendas de fim de ano com essa expectativa de que o consumidor iria procurar preços menores neste Natal”.