Muita gente busca melhorar o comportamento do próprio automóvel, seja para ele ficar mais esperto ou consumir menos. E tem muita gente que promete melhor desempenho com soluções simples. São pastilhas que prometem reduzir consumo, assim como peças que “garantem” que o popular terá fôlego de supercarro. Uma das receitas mais comuns, e que não exige muito conhecimento técnico, é a troca do filtro de ar por um do tipo esportivo.

Os filtros esportivos prometem ganho de potência. Por terem menor restrição, o motor faz menos esforço para sugar o ar. E em tese o raciocínio é mais que correto. Afinal, quanto mais livre for a admissão, menor é o esforço, que pode ser traduzido em ganho de potência. 

Mas por trás de um raciocínio simplório há questões de engenharia que não são levadas em consideração. E o resultado pode ser um pequeno prejuízo, ou um problemão.

No laboratório

Para comprovar se o filtro esportivo realmente torna o carro mais esperto, dois alunos de Engenharia Mecânica resolveram levar a peça para o laboratório e testar cientificamente a real eficácia dela no motor de um carro convencional.

A pesquisa faz parte do trabalho de conclusão de curso produzido pelos estudantes Lucas Costa Fagundes e Raylan Rodrigues e comprova que a troca do filtro de ar convencional por um do tipo esportivo não aumenta o desempenho do motor, como prometido nas propagandas do varejo. É o que explica o professor Luiz Flávio Vieira Brant, que orientou os alunos na pesquisa.

A proposta não é condenar a peça, mas oferecer ao consumidor informações que podem orientá-lo sobre os reais efeitos dos componentes. “Assim, poderemos desmistificar e também ratificar peças e produtos que estão no mercado”, comenta Brant.

Dinamômetro

Para comprovar se realmente ocorria ganho de potência e torque com a troca do filtro, os alunos ligaram o motor num dinamômetro e perceberam que não havia diferença na potência aferida quando se usava o filtro convencional e o esportivo. “O trabalho comprovou que a simples troca não eleva a potência e o torque do motor. Para que se tenha um ganho real é necessário reprogramar a central eletrônica”, explica o professor. 

Eles então recorreram a um Tubo Pitot (igual ao usado na aviação para mensurar a velocidade externa do ar) para descobrir se ocorria, ou não, aumento do fluxo de ar com o uso do filtro esportivo, que tem menor restrição que os convencionais. 

“Com o uso do Tubo Pitot comprovamos que há um acréscimo de 30% a 40% do fluxo ar. O problema é que todo esse volume esbarra na borboleta de admissão. E quando há uma pressão maior que a ideal, a central eletrônica emite um sinal para regular a abertura da borboleta para que não entre mais ar do que o ideal”, explica. 

É por isso que se faz necessária a reprogramação da central eletrônica. Pois ela irá ajustar a admissão para receber o maior fluxo de ar e a injeção de combustível para que se tenha uma proporção ideal.

Placebo

Na prática, Fagundes explica que somente a troca não traz benefício, mas também pode aumentar o consumo e as emissões, pois o motorista, não obtendo melhor comportamento, tenderá a pisar mais forte. 

“É preciso entender que o desenvolvimento de um carro segue uma série de determinações de engenharia, mas também de legislação. Os carros são projetados garantir que irão atender as exigências de emissões e consumo quando estiverem no mercado”, observa.

Outro fator sobre os filtros de ar, que serão tema de uma pesquisa futura, têm relação com a capacidade de absorção de impurezas. “O próximo passo é descobrir se esses filtros, por permitirem maior fluxo de ar, deixam passar impurezas para as câmaras de combustão, o que pode ser um grande problema”, sinaliza. 

Então fica a dica: só a troca do filtro não garantirá mais vigor ao seu “puro-sangue”!

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