O comandante do Batalhão de Choque da Polícia Militar do Rio, coronel Fábio Almeida de Souza, incitou a violência policial contra manifestantes durante os protestos de rua de 2013, conforme reportagem da revista "Veja" desta semana. Mensagens atribuídas a Souza, trocadas com comandados, indicam também que ele tem admiração pela doutrina nazista. Outra suspeita é de que ele pode estar envolvido no ataque a tiros ao prédio de outro oficial, seu desafeto.

As mensagens constam de investigação sigilosa a cargo da Corregedoria-Geral da PM. Em nota, a corporação confirma a abertura de Inquérito Policial Militar (IPM), mas não dá detalhes. Souza foi promovido a coronel no final do ano passado "por merecimento", quando comandava a equipe de vigilância pessoal do secretário estadual de Segurança, José Mariano Beltrame.

Em um grupo de WhatsApp (aplicativo de mensagens por celular), Souza, segundo a "Veja", escreveu que os black blocs, manifestantes considerados violentos e baderneiros, deveriam ser mortos: "7,62 (referência a um calibre de fuzil), mata eles tudo", disse. "Porrada, paulada, tonfada (pancada com um instrumento chamado tonfa, semelhante a um cassetete), fuzilzada, mãozada."

Em outra mensagem, fala: "Na última manifestação, dei de AM640 inferno azul (lançador de bomba de gás) nas costas de um black bobo, no máximo 30 metros!!! Que orgulho!!!"

Também divulgada pela revista, mensagem atribuída ao coronel menciona despacho de umbanda deixado na porta do gabinete do tenente-coronel Márcio Rocha, que substituiu Souza por um período no Batalhão de Choque. Os dois seriam inimigos. "Faltou a galinha preta, as guias, as velas do Flamengo, a pipoca e aquela batata cheia de espeto." A portaria do prédio de Rocha foi atingida por tiros disparados por dois homens numa moto em janeiro de 2014, uma semana após o episódio do despacho.

Em outra postagem, Souza louva o "padrão Alemanha de 1930", em referência ao regime instituído pelo líder nazista Adolf Hitler, e diz: "Vai ter virada e vingança. 2014, a virada. 2015, a caça aos infieis insurgentes ladrilhos malditos indignos".

A PM emitiu notas sobre a investigação do ataque à casa de Rocha: "O Inquérito Policial Militar (IPM) está em andamento, na fase de cumprimento de exigências feitas pelo Ministério Público. (...) Todos os oficiais citados nos fatos já depuseram na qualidade de testemunhas." Não há comentário sobre a troca de mensagens pelo WhatsApp.

Procurados pela reportagem, nem o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) nem o secretário de Segurança se manifestaram. As assessorias informaram que caberia à PM responder sobre os fatos.

O diretor da Anistia Internacional no Brasil, Atila Roque, considerou muito grave o teor das mensagens. "Se confirmada a autenticidade dessa troca de mensagens, estamos diante de um fato de enorme gravidade: um oficial da 'elite' da polícia pregando abertamente o uso excessivo da força, o extermínio e a sedição, conspirando contra os próprios colegas policiais. É difícil entender como esse oficial e os demais identificados nessa investigação da Corregedoria ainda não estejam afastados do serviço; e, no caso do coronel Fábio, tenha sido inclusive, promovido."

Para o presidente da Comissão Nacional de Direitos Humanos do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Wadih Damous, "esses diálogos capitaneados pelo comandante da tropa acabam por ratificar o que já se sabe há muito tempo: a PM acaba por se constituir em fator importante da cultura da violência que impera na política pública de segurança. Incitar os soldados a praticar violência contra manifestantes ou seja contra quem for, e com exortações de natureza inequivocamente nazista, é inaceitável e incompatível com as funções policiais".