O senador Delcídio do Amaral (ex-PT-MS), novo delator da Operação “Lava Jato”, usou uma aeronave do governo de Minas para se deslocar de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro em 7 de junho de 2006.

O objetivo da viagem, segundo Delcídio, seria para tratar do suposto envolvimento do então governador Aécio Neves e de aliados com os fatos que estavam sendo investigados pela CPI dos Correios. Em delação, Delcídio disse que Aécio teria mandado emissários para adiar prazos na entrega de sigilos bancários do extinto Banco Rural para a CPI. Delcídio era o presidente da CPI.

O registro do voo foi confirmado nessa terça (15) ao Hoje em Dia pela assessoria do atual governo estadual, com base em registro do gabinete militar. O motivo do deslocamento não foi explicado.

No anexo 13 da delação, Delcídio sustenta que Aécio atuou para interferir no andamento da CPI. A comissão investigou o esquema do mensalão do PT e, segundo Delcídio, Aécio estava incomodado com a quebra de sigiloso bancário do Banco Rural.

Mensalão tucano

Além do esquema petista, o Rural é acusado de ter operado o mensalão mineiro, também conhecido como mensalão tucano.

Em depoimento, Delcídio sustentou ter tratado esse tema com Aécio em Belo Horizonte, no palácio do governo, e que depois dessa reunião o tucano “franqueou o avião do Governo de Minas Gerais para que o declarante viajasse para o Rio de Janeiro”.

As maquiagens das informações do extinto Banco Rural realmente foram realizadas e, segundo Delcídio, ‘serviram para esconder’ dados de Aécio, do ex-senador Clésio Andrade, ex-vice do tucano, de Marcos Valério e “companhia”.

“Marcos Valério comentou com o declarante (Delcídio do Amaral) que a tecnologia do mensalão foi desenvolvida no Estado de Minas Gerais e exportada para o PT”, diz trecho da delação.

Furnas

Em outro ponto da delação, Delcídio acusa Aécio de ter recebido propina de Furnas. No anexo 5 da delação, Delcídio disse que “sem dúvida” Aécio recebeu vantagens indevidas do esquema de corrupção de Furnas, semelhante ao da Petrobras, envolvendo inclusive as mesmas empreiteiras. O operador apontado por Delcídio é o ex-diretor de engenharia da estatal Dimas Toledo, indicado pelo PSDB e PP.

Com chegada do ex-presidente Lula ao poder, Dimas passou a colaborar também com o PT. A defesa de Dimas Toledo repudiou a delação de Delcídio.

Em nota ao Hoje em Dia, Aécio confirmou ter cedido a aeronave a Delcídio, mas não explicou o motivo da viagem. Segundo o comunicado, o deslocamento da aeronave ocorreu dentro da legislação, que prevê o transporte de autoridades e agentes públicos em missões oficiais.

Ainda segundo a nota, autoridades de diferentes partidos, como o ex-prefeito Fernando Pimentel, os governadores Sérgio Cabral e Paulo Hartung, além do deputado petista Arlindo Chinaglia (PT), também utilizaram as aeronaves do Estado. Em relação a Furnas, o tucano disse ser falsa a acusação.

Confira na íntegra a nota enviada pelo senador Aécio Neves:

O senador Delcídio do Amaral citou o nome do senador Aécio Neves em três circunstâncias, todas elas falsas:

São citações mentirosas que não se sustentam na realidade e se referem apenas a “ouvir dizer” de terceiros.

1 – Delcídio do Amaral se refere a uma fundação que a mãe do senador planejou criar no exterior. Trata-se de assunto requentado já amplamente divulgado nas redes petistas na internet e, inclusive, já investigado e arquivado pela Justiça e pelo Ministério Público Federal há vários anos.

O assunto em questão foi devidamente analisado e arquivado, há mais de cinco anos, em 2010, após a Justiça Federal e o MPF do Rio de Janeiro constatarem a inexistência de qualquer irregularidade. Não houve sequer abertura de ação penal.

Ano passado, membros do PT reuniram material divulgado na internet e voltaram a apresentar a mesma falsa denúncia à Procuradoria Geral da República. Após o fornecimento das informações, o assunto foi novamente arquivado. Desta vez pela PGR, mais uma vez constada a inexistência de qualquer irregularidade.

Em 2001, a mãe do senador Aécio Neves cogitou vender alguns imóveis e aplicar os recursos no exterior. No entanto, o projeto foi suspenso em função da doença do marido dela e a fundação não chegou a ser implementada de fato.

Para o projeto, ela buscou a assessoria de um profissional que havia sido durante anos representante oficial de instituição financeira internacional, legalmente constituída no Brasil, sr. Norbert Muller. À época do contato, não existia qualquer razão para se duvidar da idoneidade profissional do representante.

Durante os seis anos em que o projeto ficou em suspenso (período entre assinatura dos primeiros documentos e o cancelamento definitivo do projeto, em 2007, em função do agravamento do estado de saúde de seu marido), a responsável fez dois pagamentos, em moeda nacional, e no Brasil, ao sr. Muller, referentes a despesas cobradas por ele. Esses valores corresponderam a uma média anual de cerca de 5 mil dólares.

Esses valores foram transferidos pelo representante para uma conta e corresponderam à totalidade dos depósitos realizados que foram integralmente consumidos em pagamentos de taxas e honorários. A conta nunca foi movimentada.

A criação da fundação foi devidamente declarada no Imposto de Renda da titular.

2 - Sobre a menção ao nome do senador Aécio com relação a Furnas, Delcídio repete o que vem sendo amplamente disseminado há anos pelo PT que tenta criar falsas acusações envolvendo nomes da oposição.

É curioso observar a contradição na fala do delator já que ao mesmo tempo em que ele diz que a lista de Furnas é falsa, ele afirma que houve recursos destinados a políticos.

3 – O delator relaciona o nome do senador Aécio ao Banco Rural no contexto da CPMI dos Correios. O senador jamais tratou com o delator Delcídio de nenhum assunto referente à CPMI dos Correios. Também jamais pediu a ninguém que o fizesse.

Nunca manteve qualquer relação com o Banco Rural, teve conta corrente na instituição ou solicitou empréstimos.

É fácil demonstrar que o PSDB não atuou na CPMI dos Correios com o objetivo de proteger ninguém. Pelo contrário, pode ser comprovado o posicionamento do PSDB na CPMI em favor do aprofundamento das investigações de todas as denúncias feitas durante os trabalhos da Comissão, incluindo aquelas relacionadas a nomes de integrantes do partido.

Por fim, e ainda sobre esse assunto, é fácil demonstrar que Delcídio do Amaral não está falando a verdade. Ele diz que foi a Minas tratar com o então governador Aécio de assunto referente à CPMI. É mentira. O relatório final da CPMI data de abril de 2006 e a viagem de Delcídio a Minas ocorreu dois meses depois, no dia 7 de junho de 2006. O que demonstra que ele não poderia ter tratado de assunto da CPMI já encerrada.

Na verdade, o encontro ocorrido foi a pedido dele para tratar do apoio partidário a seu nome nas eleições estaduais, em 2006, quando ele pretendia ser candidato no Mato Grosso do Sul.