A menor diferença entre dois candidatos à Presidência da República desde a redemocratização, em 1985, apontou, segundo analistas, para um país rachado. No resultado final das urnas, 3,46 milhões de pessoas, representando apenas 3,28% dos votos válidos, deram a vitória à presidente Dilma Rousseff (PT).

Especialistas procurados pelo Hoje em Dia avaliaram que a divisão da preferência do eleitorado não deverá durar por muito tempo. Mas, na vida política do dia a dia, essa mudança deverá aparecer com mais frequência em forma de cobrança de um governo melhor e que atenda à demanda da população, avalia o professor de direito eleitoral Arthur Guerra.

“Em junho de 2013, houve mobilização política e de ideais, mas isso acabou sendo esquecido, assim como deverá ser esquecido esse acirramento entre os eleitores de Aécio Neves (PSDB) e Dilma”, avalia Guerra.

Já o cientista político Paulo Roberto Figueira, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), avalia que o cenário de indefinição destas eleições, em que havia a chance de qualquer um dos candidatos saírem vitoriosos nas urnas, contribuiu para que os ânimos dos brasileiros ficassem acirrados. “Quanto mais indefinida, mais emparelhada, mais os eleitores discutiam”, ressalta Figueira.

Mas isso não é novidade no Brasil. Em 1989, quando houve a primeira eleição para Presidente da República pós ditadura militar, a vontade de chegar ao poder era tanta que, assim como neste ano, que os eleitores se exaltaram. Na ocasião, Fernando Collor derrotou Lula. “O calor da disputa tem muito a ver com a dramaticidade. Em 2002, quando a vitória de Lula já era dada como certa, isso não ocorreu”.

Mas uma diferença importante da disputa deste ano em relação à do final da década de 1980 é a influência das redes sociais e da internet. Atualmente, segundo o professor, 60 milhões de brasileiros estão na rede, participando de debates públicos, postando todo tipo informações, contrainformações e acusações, nem sempre com fontes confiáveis, além de manifestações racistas e xenofóbicas.
Apesar de tudo isso, Figueira acredita que em pouco tempo tudo voltará ao normal. “Não há impedimento algum para o retorno do patamar do diálogo. Mas, claro, num primeiro momento é mais difícil. Depois as pessoas voltam a conversar com os amigos que se afastaram”, avalia.

Polarização

O cientista político acredita que as instituições e os partidos voltarão a se articular brevemente, nas negociações com o Congresso Nacional e com a Presidência. “Não estamos no cenário de polarização que não se possa construir diálogos. É algo comum que, após o resultado das eleições, os partidos voltem a conversar”, avalia. Em seus discursos após o resultado, no domingo, tanto Dilma Rousseff quanto Aécio Neves apresentaram falas conciliatórias.

Alckmin ressalta disposição ao diálogo
 
O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), divulgou nessa segunda-feira (27) uma nota cumprimentando a presidente Dilma Rousseff (PT). Alckmin cumprimenta também o candidato derrotado, Aécio Neves (PSDB), “pela defesa enfática de ideais e propostas essenciais ao Brasil” e, em especial, os eleitores paulistas, “pela cidadania demonstrada ao longo do segundo turno das eleições presidenciais”.

São Paulo foi o Estado onde Aécio obteve um dos melhores resultados proporcionais e o melhor saldo total de votos – teve 64,31% dos válidos. Alckmin também ressaltou a disposição de manter o diálogo com o governo federal.