A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Cachoeira vai ouvir nesta semana os dois depoimentos mais esperados, desde a instalação.

O ex-diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), Luiz Antônio Pagot, foi convocado para a terça-feira (28). No dia seguinte é a vez do dono da empreiteira Delta, Fernando Cavendish. A convocação do empresário que elevou a Delta ao patamar de uma das maiores construtoras do País, maior detentora de contratos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), em vários estados, foi pedida por 11 requerimentos assinados por 14 parlamentares.

A probabilidade de Fernando Cavendish usar o direito constitucional de ficar em silêncio é grande. A defesa do empresário já impetrou habeas corpus no Supremo Tribunal Federal (STF) com pedido de liminar para não comparecer à reunião, o que já era esperado pelo próprio presidente da CPI, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), que disse não esperar muito do depoimento de Cavendish.

Vital do Rêgo precisará administrar a pressão de alguns parlamentares contrários ao atual rito da CPMI de dispensar imediatamente os convocados depois que eles alegam o direito constitucional ao silêncio. “O depoimento do Cavendish é o de uma testemunha como outra qualquer. Não podemos tratá-lo diferente de Demóstenes [Torres], diferente de A, B ou C. Temos um rito a cumprir, definido por decisão colegiada”.

O líder do PPS na Câmara, deputado Rubens Bueno (PR), acredita que Cavendish ficará calado perante as perguntas dos parlamentares. Para o deputado, isso será mais um indício de que o ex-presidente da Delta tem envolvimento com o esquema ilegal. "Provavelmente não vai falar porque agora virou daqueles que se comportam como uma máfia. É o silêncio absoluto, negociado, articulado com Carlinhos Cachoeira, com todos aqueles que estão trabalhando com o mesmo objetivo: de não falar nada para esconder o que tem atrás disso.”


Acusações contra Cavendish

De acordo com a Polícia Federal (PF), a Delta recebeu quase R$ 4 bilhões dos contratos com o governo e repassou pelo menos R4 413 milhões a empresas de fachada ligadas a Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Este, por sua vez, aparece em ligações telefônicas, gravadas pela PF, atuando em favor da Delta.

O relator da CPI, deputado Odair Cunha (PT-MG), afirmou que já tem convicção de que o empresário é vinculado ao suposto esquema criminoso de Cachoeira. “É claro que Fernando Cavendish serviu à organização criminosa, se vinculou a ela, na medida em que a empresa da qual ele é sócio-proprietário passou volumes importantes a empresas dirigidas pelo senhor Carlos Cachoeira.”

Para Odair Cunha, o espaço aberto para o ex-presidente da Delta será a chance para ele se defender. "Ele é sim vinculado à organização. Terá oportunidade, no seu depoimento, de dar informações que nos convençam de maneira contrária, na medida que estamos em uma fase preliminar do inquérito parlamentar.


Outros depoimentos

Os outros dois depoimentos da semana também prometem ser polêmicos. Além de Luiz Antônio Pagot, na terça-feira, vai depor na quarta Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto, ex-diretor da Dersa, Desenvolvimento Rodoviário S.A, empresa ligada ao Governo de São Paulo responsável por obras viárias no estado. Ele é acusado de atuar junto ao Dnit em busca de recursos para a campanha de José Serra à Presidência da República. Ambos já disseram que têm informações para dar à CPMI do Cachoeira.

Quem também tem depoimento marcado para terça-feira é o empresário Adir Assad, que é dono das empresas JSM Terraplenagem e SP Terraplenagem, apontadas como ‘laranjas’ do esquema ilegal e de terem sido beneficiadas com repasses de dinheiro público pela construtora Delta. Assim como vários acusados de integrar a organização criminosa, Assad pediu ao STF um habeas corpus para garantir o direito de ficar em silêncio e não produzir provas contra si.

As reuniões estão previstas para começar às 10h15, na sala 2 da ala Nilo Coelho do Senado.