Num dos cantos do avião, uma luz praticamente não se apagou toda a noite de anteontem para nessa sexta-feira (23). No assento 40A, ao lado do banheiro e último lugar do avião entre Milão e São Paulo estava Henrique Pizzolato, ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil. Ele pouco dormiu e optou, entre outras coisas, por assistir um filme: O Calvário.

Durante as mais 11 horas de trajeto, Pizzolato leu a Bíblia,comeu pouco e falou ainda menos. Mas não conseguiu evitar ser hostilizado. Ao deixar o avião pelas portas do fundo, foi vaiado e xingado pelos passageiros.

Pizzolato não usou algemas durante o voo e nem no aeroporto de Milão quando foi transferido da custódia dos italianos para o Brasil.

Mas foi a escolha do filme que chamou a atenção, até mesmo dos delegados da Polícia Federal que o acompanharam. Sua opção foi pelo drama irlandês O Calvário, que relata como um padre com forte sentido de honestidade temia por "forças misteriosas" que estavam ameaçando sua comunidade. Pela seleção proposta pela companhia aérea TAM, poderiam ainda ter escolhidos filmes como O Fugitivo, com Harrison Ford, ou mesmo Prenda-me se for Capaz, com Leonardo Di Caprio.

Pizzolato, apesar de estar retornando ao Brasil depois de mais de dois anos de fuga, não parecia interessado nos temas da política nacional. Recusou os jornais brasileiros que lhe foram oferecidos e, nas poucas vezes que conversou com os delegados, não tocou no assunto da crise política no Brasil.

Ele fugiu do País com um passaporte falso, uma identidade roubada e sem ser notado ao fazer um trajeto por vários países até chegar na Itália. Ontem, retornou ao Brasil reconhecido por praticamente todos os demais no avião, sob escolta policial.

Escolta. Pizzolato foi o primeiro a entrar no avião, sendo locado no último lugar, ao lado do banheiro. A sua direita, um agente da Polícia Federal não o deixava sozinho em nenhum instante. Nos dois bancos da frente, mais um agente e uma médica.

Do outro lado do corredor, um delegado da PF. O ex-diretor do BB não precisou fazer o check-in e nem passou pelo controle de passaportes. Sua mala foi despachada junto com a dos delegados que conduziram a operação.

A blindagem foi organizada para que nenhuma situação de crise pudesse ser gerada. No avião, oito assentos tiveram suas poltronas retiradas ao lado do brasileiro, criando uma espécie de escudo contra qualquer um que tentasse sentar perto. A reportagem do Estado e a da TV Globo tiveram seus locais modificados por ordens da PF para que viajassem distante de
Pizzolato. A justificativa para afastar a imprensa era de que a situação poderia gerar riscos para a segurança do voo.

Pizzolato também adotou sua própria maneira de ser evitado. Ao se instalar em seu lugar, rapidamente colocou um fone de ouvido na cabeça e tentava se esconder atrás da poltrona. Durante a viagem, ainda girava o rosto para a janela para não ser fotografado.