A presidente Dilma Rousseff decidiu manter o controle sobre a Petrobras ao escolher como novo presidente da empresa Aldemir Bendine, que até essa sexta-feira (6) comandava o Banco do Brasil com obediência às agendas do Palácio do Planalto. A escolha dividiu o Conselho de Administração. Três dos dez membros votaram contra a indicação.

Com a inesperada renúncia coletiva da diretoria da estatal, Dilma teve 48 horas para buscar um nome que fosse de sua confiança e também tivesse prestígio técnico e independência política para agradar ao mercado. Diante de algumas sondagens frustradas, não encontrou ninguém disponível que atendesse inteiramente aos requisitos.

A presidente decidiu baseada nos seguintes critérios: confiança de que Bendine repetirá a fidelidade ao governo já demonstrada no comando do BB; a experiência dele no mercado com expertise para tentar sanar a confusão contábil da empresa; e, por fim, sua disponibilidade em assumir a estatal e assinar os balanços daqui para frente.

Bendine começa a despachar na sede da Petrobrás na segunda-feira. E terá como primeira tarefa resolver o impasse sobre a aprovação do balanço e os reais valores dos ativos inflados, que a ex-presidente Graça Foster estimou em R$ 88,6 bilhões.

Ações

A solução caseira decepcionou o mercado e as ações da Petrobrás, que haviam subido cerca de 15% anteontem diante de rumores da saída de Graça. Nessa sexta, caíram mais de 7%, assim que a nova escolha começou a circular. Dilma se surpreendeu com a reação negativa do mercado ao nome de Bendine. Ontem, em almoço com o núcleo político de seu governo, no Palácio da Alvorada, afirmou que não esperava essa resposta do mercado financeiro.

Sabendo não se tratar do desfecho ideal, a estratégia para tentar minimizar a rejeição a Bendine foi anunciar ao mesmo tempo o nome de Ivan de Souza Monteiro como diretor financeiro da petroleira. Como vice-presidente de Finanças e de Relações com Investidores do BB, Monteiro ganhou respeito no mercado por, entre outras ações, viabilizar captações estrangeiras para o banco público. A escolha do novo conselho, na próxima semana, também terá como objetivo transferir credibilidade à nova direção da estatal.

No governo, considera-se que ambos têm experiência para lidar com isso. Um exemplo foi o saneamento do banco Votorantim, braço financeiro das empresas da família Ermírio de Moraes. A operação parou no BB em 2009, quando 49,99% do capital votante e 50% do capital social total foram adquiridos pelo banco estatal a pedido do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Vale

A opção por Bendine contrariou parte dos conselheiros da presidente, mas foi da vontade irreversível de Dilma, que o recebeu na quarta-feira para uma primeira conversa secreta no Alvorada. O ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, defendeu até o fim o nome de Murilo Ferreira, presidente da Vale.

Entretanto, o executivo da mineradora enviou recados de que recusaria a proposta. Usou como argumento o delicado momento de reestruturação da empresa, com a queda no preço do minério de ferro no mercado mundial, precisando renegociar seu perfil de endividamento.

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tentou contribuir com sugestões de nomes tanto para a presidência como para o conselho da Petrobrás, e até chegou a fazer algumas conversas com potenciais substitutos, mas também não participou da decisão sobre Bendine.

Já alguns ministros petistas alinhados ao ex-presidente Lula trabalhavam para emplacar no comando da estatal petrolífera o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles, mas a alternativa foi rejeitada. Quando Dilma ainda era ministra, travou várias batalhas com Meirelles dentro do Executivo e perdeu quase todas.

Crise

Bendine assumiu o Banco do Brasil em abril de 2009, na fase mais aguda da crise financeira global, com a missão de executar duas tarefas da agenda do ex-presidente Lula: ampliar a oferta de crédito para estimular a economia e liderar uma competição aguerrida com os bancos privados, para forçá-los a reduzir os juros. Seu antecessor no cargo, Antonio Francisco de Lima Neto, não seguiu a cartilha do Palácio do Planalto e foi retirado do cargo.

Na avaliação do governo, a experiência de Bendine durante quase seis anos à frente do Banco do Brasil o cacifa para resolver o maior problema da petroleira neste momento: a confusão financeira decorrente de problemas na contabilidade por causa do impacto da Operação Lava Jato, que investiga esquema de corrupção e desvios na Petrobrás. Com livre acesso no sistema financeiro, caberá a ele resolver o endividamento significativo da companhia.

Conselheiros não ligados ao governo desaprovam nome

Três conselheiros votaram contra o nome de Aldemir Bendine para a presidência da Petrobrás. Na reunião realizada na sexta-feira (6), Mauro Cunha, representante dos ordinaristas, José Guimarães Monforte, dos preferencialistas, e Silvio Sinedino, indicado dos funcionários, desaprovaram a escolha para a substituição de Graça Foster.

A decisão sobre a saída da diretoria anterior, que renunciou na quarta-feira, e a eleição dos novos nomes geraram momentos de forte tensão na reunião do Conselho de Administração da estatal de ontem. Os conselheiros não ligados ao governo reclamaram que souberam pela imprensa da indicação do então presidente do Banco do Brasil.

O nome de Bendine não agradou aos acionistas minoritários por ser bastante alinhado com o Planalto e distante de alguém com perfil mais técnico e capaz de dar um "choque de credibilidade" à estatal, como chegou a ser cogitado. As ações da estatal voltaram a desabar ontem na Bovespa em razão da mudança na diretoria.