A disputa entre governo federal e oposição trava não apenas os rumos econômico, político e fiscal do país, mas também pode atrapalhar o combate ao mosquito Aedes aegypti e as doenças que ele transmite (dengue, zica e chikungunya). Com o objetivo de dar mais segurança para o governo na votação de hoje que elegerá o líder do PMDB na Câmara dos Deputados, o ministro da Saúde, Marcelo Castro, do Piauí, deve se desvencilhar do cargo, pelo menos por um dia, para ir ao Congresso apoiar a reeleição do candidato governista, o fluminense Leonardo Picciani. A eleição está marcada para começar às 15h desta quarta-feira (17), e o adversário do governo é o paraibano Hugo Motta, que tem o apoio do presidente da Casa, Eduardo Cunha.

O ministro reassumirá o cargo legislativo no lugar de seu suplente, Flavio Nogueira, que é do PDT e, por isso, não vota na escolha do líder peemedebista. Além dele, Picciani também convocou dois deputados do Rio de Janeiro que são voto certo: o secretário municipal de Governo Pedro Paulo Carvalho, da capital fluminense, e o secretário estadual de Esporte, Marco Antônio Cabral. Esses dois últimos já constavam ontem no portal Câmara como deputados em exercício.

Manifestações

No entanto, na tarde desta terça, após inúmeras manifestações contrárias à sua atitude, o ministro disse que ainda não havia se decidido se retomaria o cargo parlamentar temporariamente, mas também não negou. Ele e o governo federal avaliavam o desgaste político que pode ocorrer com a saída, mesmo que temporária, do comando do Ministério da Saúde.

A batalha entre Picciani e Motta tem como objetivo o direcionamento dos rumos do maior partido na Câmara e, também, o menos coeso. O PMDB, que é base do governo federal mas tem boa parte contrária à presidente Dilma Rousseff (PT), será decisivo nas votações, principalmente nas relativas ao processo de impeachment e ao ajuste fiscal.

Para colocar ainda mais lenha na fogueira, Eduardo Cunha e partidos da oposição apresentaram ontem requerimento convocando o ministro da Saúde para ir à Câmara prestar esclarecimentos sobre o combate ao mosquito, ao vírus zika e a microcefalia.

Abertamente, eles disseram que a motivação foi a possível saída de Marcelo Castro para apoiar a reeleição de Picciani.

“Como o ministro abandona o ministério no auge da crise? Isso é um escárnio”, criticou Raul Jungmann (PPS-PE). Já o líder do Democratas, Pauderney Avelino (AM), afirmou que solicitaria regime de urgência ao requerimento. “Acredito que podemos aprovar hoje (ontem)”.

Para o deputado federal Leonardo Quintão, a saída temporária do ministro não irá atrapalhar o combate à epidemia no pais. “É apenas uma questão burocrática. Ele vai continuar a trabalhar no ministério”.

Parlamentares esperam eleição apertada para a presidência do PMDB na Câmara

A votação da liderança do PMDB na Câmara dos Deputados, hoje, a partir das 15h, tem confirmados 69 deputados, e tanto o candidato governista, Leonardo Picciani, quanto o de oposição, Hugo Motta, afirmam ter maioria.

Como cada lado conta os votos para si, o deputado federal Mauro Lopes brinca que a bancada do partido deve ser muito maior do que é. “A bancada deve ter mais de 100 deputados. Cada um fala uma coisa. Mas eu acho que vai ser uma eleição muito apertada”, enfatizou.

Se fosse apostar, Lopes afirma que Picciani sairá como vencedor. No entanto, ele pondera que a votação é secreta. “Isso dá abertura para traição”.

No entanto, se o ministro da Saúde, Marcelo Castro, confirmar a saída temporária do cargo no Executivo e retomar a vaga na Câmara dos Deputados, o total de peemedebistas chegará a 70.

Parlamentares ligados a Picciani relataram ao Hoje em Dia que somam pelo menos 40 votos. Por outro lado, os defensores de Motta, apoiado pelo presidente da Casa, Eduardo Cunha, contam pelo menos 35 adesões.

O mineiro Leonardo Quintão, que chegou a lançar uma chapa mas desistiu no último dia 22 de janeiro para apoiar Picciani, afirmou que o número nas urnas pode surpreender. “Com otimismo, chegamos a 45 votos. E acho que o Motta vai ter no máximo 28”.

Rebelião

Quintão protagonizou uma rebelião em dezembro passado, e conseguiu tomar a liderança de Picciani, mas logo depois o fluminense retomou o cargo. Apesar do desentendimento, Quintão afirma que resolveu apoiar Picciani porque ele estaria disposto a dar voz a todos os deputados do partido. “Ele se comprometeu a ouvir todas as áreas do PMDB”, garantiu. Já Lopes acredita que, após as eleições, a bancada deve ficar mais unida.