Apesar de Belo Horizonte ter recebido apenas metade dos seis jogos da Copa do Mundo, o prefeito Marcio Lacerda (PSB) já está satisfeito com os resultados preliminares que o torneio internacional trouxe à capital. Para o socialista, a preparação da cidade foi muito boa, mas o setor do turismo, especialmente de bares e restaurantes, não capacitou seus funcionários em outros línguas. Segundo Lacerda, sobraram 1.200 vagas nos cursos de inglês oferecidos especificamente para a Copa. Ao mesmo tempo, ele faz um mea-culpa na implantação do BRT, assumindo que, no início da operação, faltou informação aos usuários, mas garante que isso já foi solucionado.

O prefeito apresenta uma novidade em relação à Operação Urbana Consorciada Nova BH. A proposta de projeto de lei deverá ser enviada à Câmara de Vereadores antes das eleições, e sofrerá modificações em relação ao que foi anunciado no início deste ano. Agora, a proposta da Prefeitura é dividir a implantação Nova BH, começando pela área Central, o entorno da Lagoinha e o Barro Preto.

Lacerda destacou que até metade dos recursos provenientes da Nova BH devem ser aplicados em mobilidade urbana, e até mesmo no metrô, que, segundo ele, também precisa de recursos municipais para poder sair do papel. Apesar disso, ressaltou que há verbas federais asseguradas para sua construção e que o projeto da linha Lagoinha-Savassi já está pronto, entrando no nível de detalhamentos. Em relação à mobilidade metropolitana, o prefeito de BH ressaltou a construção dos anéis Leste, Norte e Sul. Segundo Lacerda, essas novas vias deverão desafogar o Anel Rodoviário, retirando o tráfego pesado e transformando-o em uma espécie de grande avenida metropolitana.

Prefeito, antes da Copa, tinha muita gente falando que ia ser um desastre. Qual o balanço que já pode ser feito?

Uma Copa do Mundo é um acontecimento único em um país, pela sua dimensão, por toda a preparação, mas principalmente pela oportunidade de exposição no mundo inteiro. O vetor que nós colocamos foi muito simples: é uma oportunidade de internacionalizar BH. Mas um dos pontos em que nós falhamos foi no ensino de línguas. Apesar de todo o incentivo, 2 mil vagas oferecidas gratuitas para curso de inglês, foram preenchidas 800 vagas. Foram oferecidas tradução de cardápios pela internet para bares e restaurantes, mas quase não foi feito. Não foi falta de esforço. Teve dinheiro do Ministério do Turismo. Então tem um pouquinho ainda dessa trava, desse provincianismo que atrapalha. Aquilo que nós temos de valores, de jeito mineiro de ser, de receber bem, isso é o principal ativo e está funcionando.

O que é que a PBH está fazendo para aproveitar essa visibilidade mundial?

Nós vamos ter que fazer uma reflexão depois. Uma coisa também que eu não consegui fazer foi mais viagens para empresários e jornalistas estrangeiros. O Ministério do Turismo fez, a gente também fez alguma. Contratamos o jornalista Mike Lee, que ajudou muito.

Tudo o que foi planejado foi feito?

A divisão de responsabilidades foi bem definida. Anossa parte principal foi a mobilidade, que não é só fazer BRT, é também fazer o plano de operação nos dias de Copa. Foi testado na Copa das Confederações, na última hora a UFMG fechou as portas, mas nós já tínhamos um plano B. Então a chave é isso: planejamento e o acompanhamento passo a passo. A verdade é que o governo federal fez uma boa coordenação. O ministro Aldo Rebelo e o secretário executivo, Luís Fernandes, foram importantes. A gente estava com o BRT na Pampulha agarrado. A Aeronáutica não licenciava por estar ao lado do aeroporto (da Pampulha). Aí o secretário-executivo falou no comando da Aeronáutica e em uma semana resolveu. A lentidão da infraestrutura tem muito a ver com isso. E às vezes não adianta a presidente ter vontade de fazer ou determinar se não criar uma estrutura e coordenação que leve a coisa do início ao fim.

Quais os maiores ganhos para a cidade nesta Copa e as maiores falhas?

Há legados permanentes na questão da mobilidade, dos hospitais, dos estádios. Belo Horizonte está criando uma marca e nós estamos sendo cada vez mais convidados para falar das experiências, fora do país.
 

Que marca é essa?

Apesar da pujança econômica, BH tem qualidade de vida e inclusão social. A marca seria uma cidade sustentável. E aí tem a questão da renda, que é fundamental, a renda média crescendo. E a qualidade de vida, a inserção, que tem a ver com lazer, participação democrática, aos poucos isto está avançando.

E em relação às falhas?

Não teve nenhum caos em aeroportos, como os ‘profetas’ diziam aí. Isso foi ajudado um pouco porque o turismo de negócios nessa época deu uma arrefecida, os pacotes turísticos internos também, mas eu acho que essa correria de última hora deu uma ajustada. Essa concessão demorou tempo demais. Mas, agora, vai andar. Além disso, tivemos a dificuldade com idiomas.

Qual avaliação o senhor faz do BRT/Move?

A avaliação é muito positiva, inclusive em pesquisas. Tem um ganho em tempo e em conforto. Isso é fundamental. Às vezes, as pessoas reclamam por ter que fazer baldeação. Nas estações começou sem o volume de informação adequado, porque é complexa aquela movimentação. Mas está se ajustando. A gente manda auditores para ficar nas estações. Onde já era troncalizado, como na avenida Cristiano Machado, as pessoas já faziam a baldeação. Na primeira etapa da Antônio Carlos foi feita a integração de linhas que eram diretas. Agora entrou Venda Nova e Vilarinho, que já têm essa baldeação.

Mas o BRT no Centro se mistura com outros veículos. Há uma perda de tempo, uma certa impaciência, porque ele não anda. Mas era o que nós podíamos fazer. Ali não tinha como separar. Vai melhorar quando mais linhas se integrarem, saírem os ônibus convencionais, e quando a rodoviária for transferida do Centro.

Mas não poderia haver faixas exclusivas?

Nós vamos ter mais um viaduto exclusivo para ônibus na Lagoinha. Apesar dessa mistura de tráfego ali, há um ganho real.

O senhor imagina uma área no Centro, ou dentro da Contorno, em que só seja permitido transporte público, priorizando os pedestres?

Isso é possível a longo prazo e, aos poucos, vem sendo feito, como na Savassi. No Centro, alguma coisa foi feita pelo Pimentel. Nós vamos fazer algo parecido agora no Barro Preto. Vai ficar bem melhor para os pedestres. Outras intervenções serão feitas no Centro, o chamado MobCentro, como foi feito nas avenidas Carandaí com Afonso Pena, para melhorar para o pedestre e diminuir os engarrafamentos. Não tem como expulsar o automóvel, até pela conformação viária e geográfica da cidade.

Mas o que está sendo feito?

O metrô é inevitável, vai acontecer, embora de forma lenta, devido aos altos investimentos e à dificuldade de se fazer túneis. Mas, por exemplo, o projeto Lagoinha-Savassi já está pronto. Nós estamos discutindo detalhes dele agora. A ligação subterrânea Santa Tereza-Praça Raul Soares, passando pela linha Lagoinha-Savassi, no Palácio das Artes, também já tem um pré-projeto. É uma questão de tempo para se diminuir os carros e fazer as pessoas andarem de transporte coletivo.

Como está o projeto do Nova BH?

Estamos revisando, reduzindo o tamanho, e deixando um pouco mais aberta a utilização do recurso, porque queremos destinar mais verbas para a mobilidade. Mas deixando em aberto uma etapa posterior, uma consulta comunitária, popular, para decidir o uso do recurso. Eu me convenci da necessidade de destinar uma boa parte dos recursos, talvez até a metade, para mobilidade. Como o metrô é muito caro, se não tiver essa possibilidade de o município também colocar recursos, a gente não vai dar conta.

O que exatamente vai ficar de fora do Nova BH?

A operação continua do mesmo tamanho, mas será lançada em etapas. A consulta popular vai ser para definir o uso dos recursos, não o tamanho da operação. Queremos enviar à Câmara antes das eleições.

Em que vai se concentrar essa primeira fase?

Nós reduziríamos à metade. Estão previstos lá cerca de 25 quilômetros quadrados. Reduziríamos para 12 quilômetros quadrados na primeira etapa, mantendo um pedaço da Antônio Carlos, envolvendo a Lagoinha, e da Andradas, envolvendo o Centro, mais o Barro Preto, que é a área que tem mais potencial de investimento. Mas os recursos poderiam ser utilizados fora dessa área inicial, quando terminasse a aplicação de recursos nesse local. Certamente, haverá sobra para utilizar fora dessa área, na segunda etapa.

A gente está discutindo as questões de cidades, mas é impossível pensar em Belo Horizontes sem pensar em região metropolitana.

Para Belo Horizonte estar bem, a região metropolitana precisa melhorar. Não adianta você ser uma ilha de sucesso, cercado de problemas. O fato de você ter um arranjo institucional, como tem hoje, com conselho deliberativo, com agência, é um grande avanço. Não sei se essa agência está funcionando como deveria estar. Nunca fui procurado pela diretoria da agência para debater essa questões.

Mau sinal?

Mau sinal. Fazem-se reuniões burocráticas, mas que não escutam os prefeitos. Nós temos uma relação muito boa com as cidades vizinhas, inclusive no planejamento urbanístico. O Plano Diretor Metropolitano foi feito de uma forma um tanto acadêmica. Eu fui contra se contratar a universidade para fazer. Acho que tinha que ser uma consultoria de mercado, com o apoio da universidade. Mas, se você compara com o que acontece nas regiões metropolitanas de Rio e de São Paulo, nós estamos muito mais à frente.

O governador Alberto Pinto Coelho, quando tomou posse, chamou os prefeitos para conversar sobre projetos de mobilidade. Qual a evolução disso?

Nós apresentamos ao governo Federal, depois do PAC Copa, uma série de projetos. Dentre esses, R$ 377 milhões para a Prefeitura fazer corredores de ônibus, parte de ciclovias, um grande corredor de ônibus na Amazonas, que vai ser um BRT simplificado, e estamos na fase de contratar o financiamento. Foram definidos R$ 2 bilhões para o metrô, a segunda etapa, de Santa Tereza à Praça Raul Soares e Savassi-Belvedere, e o governo do Estado apresentou um projeto de aproveitamento de linhas férreas da região metropolitana. Um deles, que é o Contagem-Betim, é bastante viável, o Eldorado (Contagem) – Barreiro é bastante viável e outros ainda têm que comprovar a viabilidade. Já no BRT, nós integramos os ônibus metropolitanos, inclusive com a construção de estações em várias cidades. O governo do Estado, agora, com a nossa concordância, lançou uma PMI, semana passada, de uma ligação Aeroporto de Confins-Centro. Do aeroporto até Venda Nova/Cidade Administrativa, não é viável economicamente, por causa da demanda. Provavelmente, da Cidade Administrativa para cá (Centro) ele é viável, mas passando não por cima do BRT ou do metrô, mas mais pelo lado de Contagem. Mas as contas que fizemos desse transporte, com o monotrilho, é um investimento altíssimo, que teria que ser bancado pelo governo, e com um alto subsídio nas passagens. Então, vamos ver o que o mercado apresenta. A gente já fez um pré-estudo.

E o anel metropolitano?

Os outros projetos metropolitanos são o Anel Norte, que o Estado agora resolveu não esperar o governo federal. Vai ligar Betim a Ravena, na BR-381 e desafogar muito o Anel Rodoviário. Tem o Anel Sul, que é a ligação Betim – Olhos D’água, que o governo federal disse que está fazendo, mas a gente ainda não viu o projeto. E o Anel Leste, que é a ligação Olhos D’água – BR-381, em Sabará, por trás da Serra do Curral. Nós precisamos usar a faixa de domínio da antiga ferrovia, que passa no Belvedere. Precisamos resolver quem vai usar esse ativo para fazer a concessão. O Estado lançou uma PMI a nosso pedido.

Há novidade em relação ao Cine Pathé?

Tem um projeto aprovado, em concordância com o proprietário. É uma operação urbana, em que no fundo dele se constrói um prédio, a gente concede o coeficiente de aproveitamento. Eles reformam o cinema e entregam para a prefeitura. Aí surgiu um ruído. O proprietário, digamos, é meio desligado. Ao mesmo tempo ele alugou para um shopping, aí travou o negócio. Então, está se fazendo um acordo para continuar o projeto como era, e quem investiu lá será indenizado.