O Palácio do Planalto avalia que a prisão do pecuarista José Carlos Bumlai ontem abre uma nova vertente de investigação na operação “Lava Jato”, com foco no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e desdobramentos políticos sensíveis para o governo Dilma Rousseff. Bumlai é amigo de Lula e tornou-se alvo da “Lava Jato” depois que delatores relataram que ele teria repassado recursos para uma nora do ex-presidente e ajudado a quitar dívidas de campanha do PT, o que o pecuarista nega ter feito.

Além disso, Bumlai é descrito pelo delator Fernando Soares, o Baiano, como uma espécie de lobista na Sete Brasil, empresa que administra o aluguel de sondas para a Petrobras no pré-sal.

O núcleo mais próximo a Dilma avalia que o fechamento do cerco a Lula tem o objetivo de desmoralizá-lo e enfraquecer sua capacidade de mobilização social. Os auxiliares da presidente reconhecem que, em um eventual cenário de abertura de impeachment, o ex-presidente “é o único” capaz de mobilizar a militância petista e os movimentos sociais para defender o mandato da sucessora. Caso Lula esteja desgastado pelas suspeitas de corrupção, por exemplo, o governo Dilma poderia ficar inviabilizado.
O ex-presidente, por sua vez, nega que tenha atuado como intermediário de empresas ou autorizado lobby em seu nome.

Ministros petistas avaliaram ontem que, se a investigação chegar de vez ao ex-presidente, o resultado prático não será apenas prejuízos ao governo Dilma, mas também significará a derrocada do PT.

Navio-sonda

As investigações da 21ª fase da “Lava Jato”, a operação Passe Livre, partem de apuração das circunstâncias de contratação de navio-sonda pela Petrobras com “concretos indícios de fraude” na licitação.

“Segundo apurações, complexas medidas de engenharia financeira foram utilizadas pelos investigados com o objetivo de ocultar a real destinação dos valores indevidos pagos a agentes públicos”, informou a PF em nota.

Tesoureiros

Dois tesoureiros do PT - Delúbio Soares e João Vaccari Neto - e o ex-ministro José Dirceu participaram, segundo delatores da “Lava Jato”, da negociação envolvendo empréstimos ao pecuarista. No despacho da prisão preventiva de Bumlai, o juiz Sérgio Moro afirmou que há prova do envolvimento do pecuarista em corrupção “mediante vantagem indevida concedida aos dirigentes da Petrobras e a ele mesmo, José Carlos Bumlai, e ao Partido dos Trabalhadores”.

Três delatores da “Lava Jato” relataram o acerto. O principal deles é Salim Schahin, sócio do Grupo Schahin. Ele contou ter se reunido em 2004 na sede do banco Schahin com Delúbio Soares e com Bumlai para discutir o empréstimo de R$ 12,280 milhões, que serviria para pagar dívidas da campanha presidencial de 2002, estimadas em R$ 60 milhões.

Segundo ele, os dois disseram que, “como evidência adicional”, a Casa Civil procuraria um dos acionistas do banco. Dias depois, disse Salim, ele recebeu um telefonema do então ministro da Casa Civil José Dirceu. Falaram apenas amenidades, mas, para Salim, “a mensagem estava entendida”.

(*) Com agências

Não há prova de envolvimento do ex-presidente, afirma Moro 

SÃO PAULO – Na decisão que mandou prender o pecuarista José Carlos Bumlai, amigo de Lula e suspeito de intermediar propinas envolvendo contrato de navio-sonda da Petrobras, o juiz Sérgio Moro ressaltou não haver nenhuma prova contra o ex-presidente petista no empréstimo de R$ 12 milhões do banco Schahin ao pecuarista. Segundo os investigadores e com base em delações dos executivos do banco, o empréstimo teria sido para repassar dinheiro ao PT.

“Não há nenhuma prova de que o ex-presidente da República estivesse de fato envolvido nesses ilícitos, mas o comportamento recorrente do investigado José Carlos Bumlai levanta o natural receio de que o mesmo nome seja de alguma maneira, mas indevidamente, invocado para obstruir ou para interferir na investigação”, aponta Moro.

Surpresa

Assessores do ex-presidente Lula insistiram ontem na tese de que ele foi surpreendido pela prisão de Bumlai pela Polícia Federal. A interlocutores, o ex-presidente tem repetido: “se ele (Bumlai) fez alguma coisa, não foi com meu aval”. Segundo o discurso de um colaborador de Lula, “não se pode nem confiar no que o marido faz, o que dirá um amigo”.

Apesar da preocupação, a recomendação é que se acompanhe com calma as investigações.

*Agências Estado e Folhapress

 

Contratos de R$ 518 milhões com o BNDES estão na mira

CURITIBA – Os contratos de empréstimo do pecuarista José Carlos Bumlai com o BNDES estão no alvo da nova fase da operação “Lava Jato”. Policiais federais estiveram na sede do banco e intimaram a presidência a entregar cópias dos contratos e seus processos de aprovação, realizados entre 2005 e 2012.
 

Serão investigados três empréstimos a duas empresas do pecuarista: São Fernando Açúcar e Álcool e São Fernando Energia, que somam R$ 518 milhões. Grande parte das operações, de acordo com o Ministério Público Federal, nunca foi paga. Segundo o procurador Diogo Castor de Mattos, as empresas ou estavam inativas ou não tinham atividade operacional à época.

A São Fernando Açúcar e Álcool, por exemplo, obteve contrato de R$ 350 milhões quando já havia um pedido de falência, em 2008. A empresa tem um passivo de cerca de R$ 1 bilhão – metade dele com o BNDES. Já a São Fernando Energia conseguiu R$ 104 milhões quando estava inativa operacionalmente e possuía apenas sete empregados.

As duas empresas eram administradas pelos filhos de Bumlai, Maurício e Guilherme, e também tinham participação dos sócios do frigorífico Bertin, Natalino e Silmar Roberto Bertin.

Em nota, o BNDES afirmou que não houve qualquer irregularidade nas operações, que possui garantias reais suficientes para fazer frente à dívida existente e que todas as medidas judiciais pertinentes para a recuperação do crédito foram tomadas pela instituição.

Barba

O lobista e delator Fernando Soares, o “Baiano”, que intermediou contrato de R$ 1,6 bilhão da Schahin com a Petrobras, disse em depoimento que pressionou o pecuarista para que ele acionasse o presidente Lula em 2006 e o então presidente da Petrobras, Sergio Gabrieli, para que o negócio fosse fechado.

Segundo Baiano, “Bumlai respondeu que o depoente poderia ficar tranquilo, pois iria acionar Gabrielli e o ‘Barba’, que era como Bumlai se referia ao presidente Lula”.

O negócio, na versão de três delatores, foi uma espécie de compensação que o grupo Schahin recebeu por ter emprestado R$ 12 milhões a Bumlai em 2004, que foram repassados ao PT, segundo investigadores da “Lava Jato”.

A principal dificuldade para a Schahin obter o contrato com a Petrobras era que a empresa não tinha contratos tão vultosos como o da Vitoria 10.000, de R$ 1,6 bilhão. De acordo com Baiano, foi o apoio político que destravou o negócio.
 

*Agência Folhapress