Desde o início do mês, cerca de quatro casos de violência política foram registrados por dia em todo o país, segundo dados do Mapa da Violência Política no Brasil, criado pelo jornalista Haroldo Ceravolo para monitorar a escalada dos crimes motivados pela intolerância política. Em Minas, o caso de uma jovem que teria sido agredida na Pampulha, em Belo Horizonte, ao afirmar que não votaria no candidato Jair Bolsonaro (PSL), está sendo investigado pela Polícia Civil.

“Sou jornalista há cerca de 24 anos e cubro eleições desde a década de 1990. Sempre fiz o acompanhamento do noticiário eleitoral e policial em todos os dias de eleição e a tendência, a praxe, sempre foi uma diminuição de ocorrências policiais nos dias de votação. Mas, neste ano, o cenário foi outro”, contou Ceravolo, que se revela assustado com a escalada da violência no período eleitoral.

Segundo o jornalista, que é diretor de redação do portal Opera Mundi, de São Paulo, a iniciativa foi concretizada nessa segunda-feira (8), após ele perceber a necessidade de se documentar e dimensionar o crescimento dos episódios de violência em todo o Brasil. O mapa funciona de forma colaborativa e é alimentado através de relatos enviados à equipe de Ceravolo, que apura casos ocorridos a partir de 1º de outubro. “Recebemos os relatos e fazemos a apuração para entender o que aconteceu e se o crime se encaixa na característica de intolerância política. Além dos 45 documentados no mapa, temos entre 10 e 15 casos ainda sendo analisados para serem incluídos”, explicou.

Outras iniciativas

Além do trabalho de Ceravolo, outras iniciativas podem ser encontradas trazendo a reunião de dados sobre a violência politica. A agência de reportagens A Pública, por exemplo, lançou um estudo no qual também mapeia as ocorrências de crimes políticos. Segundo dados d'A Pública, que ainda separam as ocorrências pela ideologia dos agressores, cerca de 50 casos de agressões por apoiadores do candidato Jair Bolsonaro (PSL) já foram reportados, contra seis de simpatizantes de Fernando Haddad (PT) e outros 15 sem posicionamento político claro.

Além de veículos de comunicação, as redes sociais vêm sendo amplamente usadas como plataforma de manifestação e denúncia de casos de agressão. Um desses casos é o perfil @elenaovainosmatar, que exibe relatos de várias pessoas que teriam sofrido agressões de apoiadores de Jair Bolsonaro. Foram procurados perfis de denúncia contra atos de opositores do candidato do PSL, mas não foram encontrados.

Violência em Minas

A reportagem também procurou dados sobre as ocorrências no Estado de Minas Gerais, mas tanto a Polícia Militar quanto a Polícia Civil e a Secretaria Estadual de Segurança Pública (Sesp) afirmaram que não era possível levantar tais dados por sua especificidade, uma vez que cada ocorrência teria que ser avaliada individualmente.

O Mapa da Violência Política no Brasil aponta apenas a ocorrência da jovem agredida na Pampulha, já o levantamento d'A Pública quantifica em cinco os casos registrados de crimes cometidos por apoiadores de Bolsonaro no Estado. Nas categorias de situação indefinida e de agressões contra apoiadores de Bolsonaro, Minas não registrou casos.

Perigo iminente

Na opinião do jornalista Haroldo Ceravolo, a situação é alarmante e reforça a importância de que a população se dê conta dos riscos que esse tipo de comportamento traz à sociedade e à democracia. "Não é uma agressão a uma pessoa, é uma agressão ao direito dela de escolher seu representante, é uma agressão à democracia, esse tipo de comportamento não pode ser naturalizado", afirmou o jornalista.

Como o mapa funciona de maneira colaborativa, Ceravolo incentiva o envio de relatos à sua equipe, que apura os casos e, se confirmados, os insere no mapa da violência. Para enviar, os interessados devem preencher este formulário. O material, segundo o criador da iniciativa, será coletado e apurado pela equipe.

Disputa presidencial

Candidato mais votado no primeiro turno, com 46,03% dos votos válidos, Jair Bolsonaro se posicionou em suas redes sociais nesta quinta-feira (11) dispensando os votos de eleitores que cometam atos violentos em seu nome. A reportagem procurou Bolsonaro para falar sobre as ocorrências, mas a assessoria do candidato ainda não se manifestou além das postagens em redes sociais.

O deputado federal Reginaldo Lopes (PT), coordenador da campanha de Fernando Haddad (PT) em Minas, afirmou que as ocorrências são consequência dos atos do candidato do PSL. "Isso já é consequência de um candidato desqualificado que baseou sua carreira de 28 anos na Câmara dos Deputados na promoção da violência contra mulheres, gays, negros pobres e as minorias em geral", comentou. Lopes ainda anunciou o lançamento do que ele chama de “frente democrática contra o fascismo”. De acordo com ele, representantes de várias esferas da sociedade, entre políticos, igrejas, artistas e membros da sociedade civil, se unirão para combater a disseminação e a prática de ideias potencialmente violentas e nocivas à democracia. A frente será lançada na próxima terça-feira (16).

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