A presidente Dilma Rousseff decidiu oferecer cinco ministérios ao PMDB para atrair o apoio da legenda, aprovar o ajuste fiscal e barrar um possível processo de impeachment. Para tanto, sacrificou uma das principais pastas do PT, a Saúde, o que provocou descontentamento no seu partido. O ministério tem o maior orçamento da Esplanada e é comandado pelo PT desde o primeiro mandato de Dilma. A opção da presidente, porém, foi acalmar o PMDB diante do agravamento crise política.

À noite, o ministro da Saúde, Arthur Chioro, foi chamado pelo chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, no Palácio do Planalto. Na conversa, Mercadante disse a Chioro - homem da confiança do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do prefeito de São Bernardo do Campo (SP), Luiz Marinho - que o governo precisava do cargo para manter o PMDB na base aliada.

O governo contava, por exemplo, com o apoio do PMDB ontem à noite para barrar a chamada pauta-bomba do Congresso, que amplia os gastos do Executivo.

Cotados

Um dos deputados cotados para substituir Chioro é Manoel Junior (PMDB-PB), ligado ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que rompeu com o governo, mas tem aos poucos retomado as conversas com Dilma. O outro é Marcelo Castro (PMDB-PI). Dilma vetou Saraiva Felipe (PMDB-MG), que foi ministro da Saúde no governo Luiz Inácio Lula da Silva e teve o nome envolvido no escândalo dos sanguessugas.

Por 42 votos a 9, a bancada do PMDB na Câmara decidiu continuar no governo e indicar nomes para a Saúde e para o novo ministério que deverá ser batizado de Infraestrutura, composto pela fusão de Aviação Civil e Portos. O PMDB controla hoje na gestão Dilma seis pastas (Minas Energia, Agricultura, Turismo, Aviação Civil, Portos e Pesca). Comandava sete, mas Mangabeira Unger entregou o cargo na Secretaria de Assuntos Estratégicos, que deve ser extinta na reforma ministerial.

Poder

Embora aparentemente o espaço oferecido ao PMDB seja menor, na prática o partido terá bem mais poder e é considerado hoje fundamental para frear o impeachment. Além de ganhar o Ministério da Saúde, deverá dirigir Infraestrutura. A Pesca, por sua vez, será fundida com Agricultura. Na lista dos cinco ministérios que o governo propôs ao PMDB, dois ficarão com a bancada do partido na Câmara, comandada pelo deputado Leonardo Picciani (RJ), e outros dois com a do Senado, liderada por Eunício Oliveira (CE). O quinto nome deve ser de consenso, mas é aí que reside o problema. Dilma disse a interlocutores que quer manter Eliseu Padilha, hoje na Aviação Civil, na Infraestrutura. Mas a bancada da Câmara rejeita a ideia.

Picciani levará hoje a Dilma os nomes de Newton Cardoso Junior (MG), Mauro Lopes (MG) e José Priante (PA) para Infraestrutura. O grupo do Senado, por sua vez, está de olho em Integração Nacional, hoje com o PP. Na negociação, o governo chegou a propor ao PMDB o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, hoje comandado por Armando Monteiro (PTB). Armando ficou magoado e pode sair.

Do lado do PMDB, ficam na equipe Kátia Abreu (Agricultura) e Eduardo Braga (Minas e Energia). Henrique Eduardo Alves deve permanecer no Turismo, e a Câmara indicará o titular da Saúde.

O vice-presidente Michel Temer amenizou os problemas. "Vamos dar tempo ao tempo. As bancadas vão se entender", disse ele. Dilma também mexerá no núcleo duro do governo e o atual ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini, assumirá a Secretaria Geral, que fará a articulação política com o Congresso. Além disso, os ministérios da Previdência e do Trabalho serão fundidos. Com as mudanças, o Planalto pretende se reaproximar do PMDB e dos outros partidos da base.