Por apenas um voto de diferença, a Câmara Municipal de Belo Horizonte arquivou nesta sexta-feira (13) a denúncia contra o vereador Flávio dos Santos (Podemos) por suspeita da prática de rachadinha, quando o parlamentar confisca parte dos salários dos funcionários. Foram 20 votos favoráveis -- um a menos do que o necessário para instaurar uma Comissão Processante --, quatro votos contrários e três abstenções. Mesmo presentes no Plenário, outros oito vereadores optaram por não votar. Com o resultado, o processo fica arquivado e não pode ser reaberto, a não ser que nova denúncia seja apresentada.

Apenas os vereadores Jair di Gregório (PP), Wesley Autoescola (PRP), Bispo Fernando Luiz (PSB) e Coronel Piccinini (PSB) votaram contra a abertura do processo. Já os vereadores Preto (DEM), Álvaro Damião (DEM) e Jorge Santos (Republicanos) se abstiveram de votar. Em sua justificativa pelo voto contrário à investigação, Wesley disse não ver "provas suficientes" para a Câmara Municipal investigar Flávio dos Santos.

"O Flávio está sendo investigado. Mas, para comprovar quebra de decoro é preciso que a Polícia Civil adiante mais sobre o inquérito. Não sabemos em que fase está, o que tem apurado... Por isso, julguei prematuro abrir um processo hoje", disse o vereador do PRP. O vereador Flávio dos Santos acompanhou a sessão plenária, mas não falou com a imprensa porque, segundo funcionários de seu gabinete, ele teria passado mal.

Após o resultado da votação, o vereador Mateus Simões (Novo) disse que os vereadores tentaram "acobertar" Flávio dos Santos por medo de serem atingidos por investigações similares. Na semana passada, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) confirmou que está investigando denúncias de rachadinha contra Jair di Gregório (PP) e Bispo Fernando Luiz. Os dois votaram contra a abertura de investigações sobre o caso Flávio dos Santos.

"Tenho vergonha de fazer parte de um corpo de legisladores que não é capaz de investigar um dos seus porque querem acobertar esse tipo de ato. Se isso é medo de que outros sejam investigados, que venha o Ministério Público e faça uma devassa, que corte todas as cabeças necessárias", esbravejou o vereador do Novo.

Mateus Simões também apontou uma suposta influência na votação do vereador Wellington Magalhães (DC), que está sendo investigado por uma Comissão Processante, acusado de desviar R$ 30 milhões do legislativo municipal em contratos de publicidade superfaturados. Logo após a votação, com 20 votos marcados no painel da Casa favoráveis à investigação, Magalhães foi cumprimentar Flávio dos Santos, mas não falou com a imprensa.

"Eu volto a chamar a atenção para a imagem ao final da votação. Wellington Magalhães em pé, disse para a presidente: 'um minutinho, presidente, eu não votei'. Passam-se dez segundos, ele continua sem votar e faz um sinal para a presidente dizendo que não iria votar. Se isso não foi um sinal para o Flávio dos Santos dizendo: 'eu salvei esse, me salvem também', se isso não tem interferência direta no processo dele, não sei o que tem", disse o vereador do Novo. 

Essa é a segunda vez que Flávio dos Santos se livra de uma investigação na Casa. No primeiro pedido de cassação, em julho, protocolado por Mateus Simões, o vereador foi absolvido pelos colegas com 14 votos contrários ao processo e 15 a favor, seis a menos do que o necessário para a investigação.

Entenda

Na denúncia contra Flávio dos Santos, formalizada pelo estudante de direito Eduardo Otoni e por um ex-funcionário do gabinete do vereador, Edilson Silva, há áudios nos quais funcionários do parlamentar confirmam a prática de rachadinha. Os denunciantes também relatam que Flávio dos Santos seria dono de uma ONG de fachada no bairro Saudade, onde mora, e teria recebido recursos de forma ilícita.