Tudo indicava que esta seria a menor inflação do mês de março na era do Plano Real (1994), pois o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), que é uma prévia da inflação, ficou em 0,02%. Mas o indicador, embora divulgado ontem, foi fechado dia 15, antes de governadores e prefeitos de todo país imporem limitação no comércio e na indústria. No entanto, em menos de uma semana, o preço de produtos disparou. Muitos em dois dígitos, caso da cenoura (36%). 

A vendedora Selma Pedra teve um susto quando chegou ao supermercado e constatou o aumento no preço de vários produtos em menos de uma semana: “Os ovos, que antes estavam por volta de R$ 12, agora estão custando R$ 15 (o pente)”.

Já o aposentado José Alves reclama da disparada da caixinha de leite: “Foi de R$ 2,80, R$ 2,85 para mais de R$ 3,10. Isso em menos de sete dias”.

O motivo é um efeito em cascata relacionado ao novo coronavírus, causador da Covid-19. Vai desde a dificuldade do produtor em levar as mercadorias aos grandes centros urbanos, devido a fechamento de acesso em alguns municípios, ao crescimento da demanda nas gôndolas, reflexo do receio de boa parte da população pelo risco de desabastecimento.

Uma pesquisa da Central de Abastecimento S.A., a Ceasa Minas, mostra que o preço médio dos hortifrutigranjeiros subiu 4,3% entre 1º e 23 deste mês na comparação com o mesmo período do mês anterior.

“Foi realizado pelo Departamento Técnico um comparativo dos 23 dias de março em relação aos 23 dias de fevereiro. O preço médio em março ficou em R$ 2,43 e o de fevereiro foi R$ 2,33, uma alta de 4,3%”, informou, em nota, a Ceasa.

Mas o percentual fica bem maior quando focado em alguns produtos entre 18 de março, o dia anterior ao decreto que limitou o funcionamento do comércio em Belo Horizonte, e a última segunda-feira.

No caso dos ovos reclamados pela vendedora Petra, o preço comum da caixa com 30 dúzias passou de R$ 120 para R$ 130. O quilo do tomate longa vida foi de R$ 1,50 para R$ 1,75. O da cenoura, de R$ 2,75 para R$ 3,75.

Em relação ao leite, a procura é tão grande que alguns estabelecimentos limitaram o número de unidades a clientes. Para o analista de agronegócios da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), Wallisson Lara, “é um reflexo da procura do produto pelo consumidor”.

“Não só pelo leite, mas para outros produtos. É um impacto imediato. O brasileiro estocando alimentos reflete na elevação dos preços, principalmente do leite de caixinha. São os produtos que não são perecível, como leite em pó”, disse Lara.

Ele acrescenta que as restrições impostas aos setores produtivos e de vendas também reflete no preço. “O próprio produtor está com dificuldade de colocar nas gôndolas. Não há transportador (fácil de ser encontrado) para fazer a distribuição dos produtos”.

O reflexo vem a reboque. “Dentro da porteira, o produtor tem de suspender a produção. A sua queijaria, por exemplo, não comporta aquele volume (que deixa de ser escoado). Tudo precisa ser replanejado”.