A advogada Izabela Caldeira, de 28 anos, reduziu o número de saídas para prosear com as amigas nas noites de Belo Horizonte. “Costumava encontrá-las em barzinhos seis vezes ao mês. Hoje, são apenas duas vezes e olhe lá”. A mudança de hábito se deve a uma espécie de inflação da balada.

Os preços de alguns produtos e serviços em estabelecimentos especializados no público noturno dispararam acima da inflação geral, como revela levantamento da Fundação Ipead/UFMG feito a pedido do Hoje em Dia. No período dos últimos 12 meses, encerrado em julho, a inflação medida pelo Ipead na “capital dos botecos” foi de 3,98%. Já o preço da cerveja nos bares e similares subiu 11,13%, quase o triplo. 

A alta da gelada neste ano (janeiro a julho) foi de 4,69%, percentual também acima da inflação geral em igual intervalo (3,22%). Levando-se em conta todas as bebidas em bares e restaurantes, o preço avançou 7,95% em 12 meses. 

Exemplos como esses fizeram a advogada Izabela frear o happy hour nas noites da capital mineira. “Reduzi as saídas, mas não há como por um fim nos passeios. A gente precisa sair um pouco para distrair a cabeça. Entretanto, as reuniões com os amigos estão sendo mais no lar”, reforçou a advogada, que na última quinta-feira foi colocar a conversa em dia com a também bacharel em Direito Nina Costa, de 30, em um barzinho na Savassi, região Centro-Sul de Belo Horizonte.

Porção

“A noite na capital é boa, porém, está cara. Os preços, dependendo do lugar, são parecidos com os de São Paulo, uma cidade com muito mais opção de lugares. Os tira-gostos, por exemplo, estão mais salgados. Para se ter ideia, a porção de bata frita subiu, acredito, uns 20% de 2018 para 2019”, comparou Nina.

A pesquisa do Ipead não considerou a porção da iguaria, mas um estudo da própria fundação sobre a cesta básica na capital mostra que o valor do produto in natura saltou 89% no período dos últimos 12 meses.

O tira-gosto e os drinks nas boates e danceterias de Belo Horizonte são ainda mais caros do que nos bares, como contam os amigos Álvaro Benício, de 19, André Amorim, de 21, e Lucas Martins, de 23. Segundo a Fundação Ipead, a inflação nas boates disparou 11,89% só nos sete primeiros meses deste ano. 

“Há casas noturnas em que a entrada é R$ 50 e a lata de cerveja custa R$ 12”, lamentou Amorim. Por isso, destaca, ele tomou a mesma decisão da advogada Izabela: receber os amigos em casa sai bem mais barato. “Continuo saindo para bares e restaurantes, mas em menor quantidade. Ultimamente estou ficando mais em casa. Há poucos dias, fizemos um encontro com tira-gostos e bebidas levados pelos amigos. Deu cerca de R$ 20 para cada um e ficamos satisfeitos”, completou o jovem.

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Álvaro Benício, André Amorim e Lucas Martins diminuíram a frequência na balada e passaram a se reunir mais na casa de amigos

 

Apesar da disparada da inflação da noite de BH, o indicador geral na cidade e no país deverá ficar abaixo da meta estabelecida pela equipe econômica do governo federal, de 4,25%. “Os alimentos e o lazer pressionaram o bolso do consumidor, mas a inflação na capital mineira deverá chegar ao fim do ano abaixo deste percentual”, disse Taize Martins, coordenadora de Pesquisas do Ipead.


Setor defende reforma tributária para baratear a conta 

Sonho antigo de empresários e consumidores, a reforma tributária é vista pela seção mineira da Associação dos Bares e Restaurantes (Abrasel) como medida importante para a redução dos preços tanto na indústria como na mesa dos clientes.“Uma ação política, como a reforma tributária, e a maior consciência da população de que a redução de impostos é preciso chegar ao público farão com que os preços caiam”, defende o presidente da entidade, Ricardo Rodrigues.

Estudo do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT)mostra que o peso dos impostos no chope é de 62,2% do preço final. Outras bebidas têm carga maiores, como a caipirinha (76,66%).

De acordo com Rodrigues, uma possível explicação para o salto no valor da cerveja em bares é a entrada de muitas marcas artesanais no mercado, que têm preços mais salgados. “Sem falar que a indústria teve aumento no custo de produção e repassou isso para o varejo. Houve comerciantes que absorveram esta alta, houve empresários que repassaram parcialmente aos clientes e outros que repassaram toda a diferença”, afirmou.

A torcida do universitário Álvaro Benício, de 19, é que o comerciante evite empurrar essa conta para o cliente. “Até mesmo o preço de aguardente de boa qualidade subiu bastante. Há um ano, eu pagava R$ 3 numa dose. Hoje, pago R$ 6. Está ficando difícil frequentar bar”.

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