Presidente da Funed fala dos desafios gerados pela Covid-19 e papel da fundação

Luiz Augusto Barros
@luizaugbarros
13/11/2021 às 10:54.
Atualizado em 05/12/2021 às 06:15
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Com mais de 100 anos de existência, a Fundação Ezequiel Dias (Funed) é uma das principais instituições de pesquisa do Brasil no campo da ciência. Nos últimos dois anos, em virtude da pandemia, teve papel importante na contenção do avanço do coronavírus em Minas.

O presidente da fundação, Dario Ramalho, conta os maiores desafios no enfrentamento da doença. Explica também o motivo pelo qual a Funed não participou da produção de vacinas contra a Covid-19 e dá detalhes de outros projetos, como o apoio à fabricação do lote piloto do imunizante da UFMG, bem como de outros medicamentos.

Qual foi o papel da Funed durante a pandemia de Covid-19? Quais as principais ações realizadas nos últimos dois anos?A Funed às vezes é mais conhecida pela indústria, pela capacidade de fabricar. Mas, na verdade, a grande atuação da Funed durante a pandemia foi dar vazão ao exame PCR, que não existia. Imagine que no final de 2019 e começo de 2020 não havia teste para coronavírus. Três meses depois, temos o PCR, que é específico para ele. Isso é absolutamente inédito, revolucionário. Do dia para a noite a gente tinha exame e, quatro meses depois, ele estava disponível em todos os lugares.

A Funed às vezes é mais conhecida pela indústria, pela capacidade de fabricar. Mas, na verdade, a grande atuação da Funed durante a Covid foi dar vazão ao exame PCR, que não existia

Qual a reflexão que a pandemia deixa?

 Não era uma tarefa fácil de ser executada, e fizemos. Com todas as dificuldades, foi criado. Acho que esse é o grande aprendizado que fica para a gente. A geração que viveu a Covid-19 precisa deixar lições para a próxima, porque virá uma próxima. A gente percebeu que todas as estruturas, inclusive a sociedade, ficaram de joelhos diante da Covid. O preço de não estar preparado é muito caro.

O que a crise sanitária deixa de legado para a fundação?

A pandemia nos obrigou a ter um sistema super eficiente. Em determinado momento, quando a Funed precisou aumentar a capacidade de produção, tivemos que fazer uma rotatividade, e foi esse sistema que segurou as pontas até que os insumos exauriram. O resultado é que, em dezembro do ano passado, a Funed estava realizando três mil exames por dia. Quando chegavam cinco mil, então tínhamos que enviar dois mil para a Fiocruz, no Rio de Janeiro, porque não dávamos conta. Mas três mil exames PCR por dia é um volume muito grande.

Se eu quero trabalhar com vacina, preciso de gente que entende de vacina. Então trazer um hospital especializado em Covid, como o Eduardo de Menezes, me ajuda a montar as peças do quebra-cabeças

Por que a Funed não participou da produção de vacina contra o coronavírus?

A Fiocruz e o Instituto Butantan são muito maiores do que a Funed. Umas das ideias que foi muito debatida era a de que a Funed poderia simplesmente embalar (as vacinas). Porém, os laboratórios públicos, quando receberam a nova tecnologia, começaram embalando para, em determinado momento, conseguirem produzir a cadeia inteira. Como eles têm grande capacidade de produção, fazia sentido o interesse na tecnologia que estavam importando. Para a Funed, não fazia sentido adquirir uma tecnologia que demandava a construção de uma fábrica do zero. Ou seja, traria a tecnologia hoje para construir uma fábrica que vai ficar pronta daqui a cinco ou 10 anos. Faz sentido para uma vacina de RNA (código genético), talvez para a de adenovírus modificado. A Funed procurou 16 parceiros e os únicos que se interessaram queriam transferir a tecnologia de vírus inativo. Nossa Unidade 5, que é novíssima, é projetada para fazer imunizante de proteína recombinante. A vacina da UFMG usa esse processo, por isso somos parceiros dela. A Fiocruz entrou na parceria com a “força bruta”, enquanto o Butantan se identificou com a tecnologia, que se encaixa muito bem no arcabouço deles.

No ano passado foi cogitado que a Funed poderia se tornar um Centro de Enfrentamento de Calamidades após a fusão com o Hospital Eduardo de Menezes e incorporação da Vigilância Estadual do Óbito (Crivo). Isso avançou?

A gente propôs à Assembleia Legislativa de Minas que incorporasse à Funed um hospital especializado em doenças infecciosas. Se eu quero trabalhar com vacina, preciso de gente que entende de vacina. Então trazer um hospital especializado em Covid, como o Eduardo de Menezes, me ajuda a montar as peças do quebra-cabeças. Ter todas as etapas aqui dentro facilita minha conversa com outras instituições. Mas o projeto está na Comissão de Constituição e Justiça parado. Não tramitou.

O preço de produção da Funed não é competitivo com o do setor privado. O papel do laboratório oficial, então, é estratégico

A Funed receberá um aporte financeiro de R$ 28 milhões do Estado para a estruturação de laboratórios. Como essa verba será aproveitada?

A gente está acelerando as etapas da implantação da vacina contra meningite C, o que também ajudará a SpiN-TEC (vacina da UFMG). O investimento vem para que a gente consiga acelerar essas etapas, porque as duas vacinas possuem a mesma tecnologia, a mesma plataforma de proteína recombinante. O que seria apenas da meningite vai servir para a produção do lote piloto da fase 3 da SpiN-TEC e para outras. A ideia é que se tenham tecnologias compatíveis sendo utilizadas na mesma plataforma. A fábrica vai produzir a da meningite C e, futuramente, também a CWY, que é uma espécie de versão 2.0 dela. Se conseguirmos fazer isso contanto com fundação de apoio, produziremos num prazo de um ano.<EM>

Há mais de uma década, a Funed recebeu um investimento para incorporar a tecnologia da vacina contra meningite C. No entanto, a fundação apenas envasa e distribui o produto. Faltou estrutura ou recurso para dar prosseguimento ao processo?

Não acredito que recurso tenha sido o maior impeditivo para esse atraso, apesar do que foi alegado. Acredito que, na verdade, seja a capacidade de execução. Se você me der R$ 1 bilhão, hoje, não entrego a SpiN-TEC no prazo de um ano. Eu não consigo executar porque a máquina burocrática é muito morosa. Para mudar o paradigma de como executo, preciso das ferramentas jurídicas adequadas. Entendo a expectativa da sociedade de que num prazo de 12 anos essa incorporação já tenha sido feita. Realmente, acho que a gente tem que mudar o paradigma para conseguirmos incorporar a tecnologia. Ou seja, não dá para ficar 12, 20 anos incorporando tecnologia. Isso tem que ser feito em cinco. E para que aconteça, duas premissas são importantes: fundação de apoio e cooperação com outros laboratórios oficiais. A gente possui 21 fábricas públicas. Será que consigo fazer as etapas da produção dentro do Butantan e da Fiocruz e, assim, acelerar a incorporação da tecnologia para entregar ao SUS? Essa é uma pergunta que a gente vem fazendo e que acho muito importante.

Em quanto tempo essa vacina poderá ser produzida?

A expectativa hoje é de que ao menos daqui a cinco anos, mas estamos trabalhando para cumprir prazo de cinco anos. Sozinha, a Funed terá dificuldade. É preciso uma fundação de apoio, caso contrário, não muda o paradigma. E precisamos de colaboração com os outros laboratórios oficiais que possam ajudar a cumprir o prazo. Se está sendo feito 100% em território nacional, é o que importa. A tecnologia está no Brasil”.

Historicamente, a Funed é conhecida pela produção de diversos medicamentos, mas esse número caiu. Por que? O que é fabricado atualmente pela instituição?

“A maior parte dos laboratórios produzia medicamentos sintéticos, ou seja, comprimidos e xaropes. No início do século 21, houve uma mudança no SUS, e as secretarias estaduais passaram a comprar por pregão de preços. Isso quebrou o parque sintético brasileiro. O preço de produção da Funed não é competitivo com o do setor privado. O papel do laboratório oficial, então, é estratégico. Hoje, a Funed produz, essencialmente, remédio para Hepatite B e Hanseníase. Dois produtos estratégicos, de doenças transmissíveis, fora o envase da vacina contra meningite e os soros antirrábico, antitetânico, anti ofídicos e antiescorpiônico. Estes, na verdade, estão suspensos pela reforma na unidade de soros. A expectativa é de retomada no ano que vem.

Como está a situação da produção da Insulina Glargina? Por que não foi para frente?

O Ministério da Saúde procurou a Funed e, dentro da política de desenvolvimento de produto, de transferência de tecnologia, uma delas foi a insulina, em 2018. Só que o Ministério Público entrou com uma ação contra a Saúde e suspendeu a política. A suspensão durou alguns anos e a insulina está nesse bolo, foi reprovada. Agora, o Ministério da Saúde voltou a nos procurar para propor a retomada dessa política, o que está sendo discutido para produção em parceria com uma indústria privada aqui em Minas.

O que podemos falar sobre o orçamento da Funed?

A maior parte do orçamento da Funed está envolvida com a vacina da meningite, em respeito ao volume adquirido pelo Ministério da Saúde. No ano passado, a pasta comprou 20 milhões de frascos e a expectativa é que haja uma redução para sete milhões. As pessoas estão vacinando muito menos, por causa da Covid. Há menos procura n os postos de saúde. Então, houve uma queda na cobertura vacinal e no consumo da vacina contra meningite.

Como você vê o potencial da Funed? Pode ser equiparada ao Butantan e à Fiocruz?

O que a sociedade mineira quer da Funed? Uma fundação com esse tipo de comparação? Então é preciso crescer muito em tamanho, flexibilidade e ferramentas jurídicas, além das áreas de conhecimento. Mas isso envolve transformação, sentar com a sociedade e discutir. A comparação é com a Fiocruz? Então me dê as ferramentas da Fiocruz. Com esse tipo de estrutura, o horizonte é ainda mais brilhante. Não que o que ela faz hoje não seja extraordinário, mas o potencial inato dessas fundações é brutal.

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