Há meses a crise migratória europeia ocupa o centro das atenções, mas é no Oriente Médio que se produz o combustível que alimenta essa fuga sem fim de milhares de refugiados. Especialistas avaliam que os quatro anos de guerra civil na Síria e a intervenção militar norte-americana são os grandes responsáveis por essa que é considerada a maior crise humanitária desde a Segunda Guerra Mundial.

“Isso é resultado de medidas equivocadas da Europa e dos EUA, criando condições para que a vida se tornasse insustentável nos países de origem dos refugiados”, diz o professor da FGV/IBS e doutor em Relações Internacionais Cláudio Alfradique.

Para ele, um dos equívocos foi retirar a força dos governantes, mesmo os “antidemocráticos” como Muammar Khadafi, na Líbia, e Bashar al-Assad, na Síria. Isso, segundo o professor, facilitou o surgimento do grupo terrorista Estado Islâmico.

A organização surgiu em 2014 como mais um grupo armado sunita radical contrário ao regime de Bashar al-Assad. Seu líder, Abu Bakr al-Baghdad, se aproveitou do rompimento entre sunitas e xiitas no Iraque e da guerra civil na Síria para cooptar e unir rebeldes sunitas e militares do extinto exército de Saddam Hussein.

“As situações de extremismo aconteceram em reposta às intervenções militares, são efeitos colaterais. O mesmo ocorreu no Iraque, onde Saddam mantinha a população de sunitas e xiitas num delicado equilíbrio que já não existe”, observa Alfradique.

Professor de Direito Internacional do Ibmec, Dorival Guimarães Júnior reforça que o foco do EI no Iraque surgiu após a presença dos EUA. “De lá para cá, o grupo vem se aproveitando de estados mais frágeis para construir suas bases e seguir com o objetivo de exterminar a civilização ocidental”.

“Não há como negociar com um grupo que tem como meta exterminar. A questão não é só uma briga por território, como no conflito entre Israel e Palestina”, Dorival Guimarães Júnior, professor de Direito Internacional do IBMEC

Bombardeios russos e americanos estão longe de solucionar a crise no Iraque e na Síria
 
A solução para a crise migratória passa longe dos bombardeios da Rússia e dos EUA para tentar frear o EI. A adaptação de países europeus para receber mais de 700 mil refugiados também é um paliativo.

“O EI não é o único produtor de refugiados, não adianta apenas combatê-los. Os ataques geram muitos problemas humanitários. E as maiores vítimas são as pessoas que não são combatentes, que não participam ativamente da guerra civil, e mesmo assim são perseguidas”, ressalta Dorival Guimarães Júnior, professor de Direito Internacional do Ibmec.

A maior preocupação hoje é com a adaptação de países da Europa para recepção dos refugiados. Mas isso não resolve os problemas de quem ainda não foi abrigado, na opinião do professor. “Uma decisão conjunta dos Estados com a Organização das Nações Unidas (ONU) deve ser tomada imediatamente no sentido de resolver os conflitos nos países de origem e criar estruturas maiores de proteção”, defende Guimarães.

Para Cláudio Alfradique, as forças de segurança dos Estados Unidos e da aliança militar do Atlântico Norte (Otan) enfrentam o maior dos impasses. “Se eles optarem por cessar os bombardeios, pode ser que o Estado Islâmico se fortaleça ainda mais e invada outras regiões”, prevê.

O especialista em Relações Internacionais concorda que medidas paliativas de acolhimento não vão tratar da situação. “Depois de se estabelecer a paz nas regiões mais conturbadas, é preciso trabalhar com investimento para aumento de renda e de empregos”, diz.
 

(*) Com agências