A crise econômica que assola o país parece ter ficado para trás no mercado imobiliário, principalmente em relação aos imóveis de luxo. No primeiro trimestre de 2018, Belo Horizonte e Nova Lima ganharam 570 novas unidades residenciais. Dados do Censo Imobiliário, realizado pela Bureau de Inteligência Corporativa (Brain) e divulgado pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado de Minas Gerais (Sinduscon-MG), mostram que o número é o maior dos últimos seis trimestres e representa um crescimento de 200% em relação aos últimos três meses do ano passado, quando foram lançados 190 novos empreendimentos. Para o consumidor, o reaquecimento pode trazer preços um pouco mais salgados: o custo médio do metro quadrado na capital subiu de R$ 8.022 para R$ 9.175, uma diferença de 1,7%.

Além dos lançamentos, o número de vendas também subiu. Nos primeiros três meses deste ano foram vendidos 549 apartamentos, número 53,78% superior ao observado nos últimos três meses de 2017 e o maior dos últimos três trimestres. Com o resultado, o estoque disponível para comercialização voltou a superar a casa de 4 mil unidades e encerrou o mês de março em 4.017 imóveis disponíveis para a venda. 

Segundo o Sinduscon-MG, o resultado se deve às melhores perspectivas para a economia em 2018, com as projeções sinalizando incremento de 1,8% no PIB, inflação mais baixa e taxa de juros em queda. 

“A redução da taxa de juros e a queda da inflação proporcionaram um ambiente mais otimista e os empresários decidiram voltar a fazer lançamentos. Um fenômeno interessante é que quando há lançamentos, as vendas também aumentam. É um ciclo virtuoso que cria efeito positivo, movimentando a economia e gerando mais empregos”, diz o vice-presidente da Área Imobiliária do Sinduscon-MG, José Francisco Cançado. 

Ele ressalta, porém, que os dados são referentes ao primeiro trimestre do ano e a greve dos caminhoneiros foi um imprevisto que poderá afetar os resultados ao longo do ano. “A tendência é continuar crescendo, mas um possível aumento da inflação e dos juros pode afetar o mercado imobiliário. Isso nós só saberemos nos próximos estudos”, diz. 

Professor do Ibmec/MG, o engenheiro Otávio Nascimento, que também presta consultoria para construtoras, ressalta a importância do reaquecimento. “O mercado teve uma retração muito grande, então qualquer melhora já significa muito. Ainda não estamos nos números normais, mas é animador que os investidores estejam mais otimistas. Isso mostra que o mercado imobiliário está retomando a credibilidade. Ainda não estamos em uma fase boa, mas já saímos do fundo do poço”, afirma. 
 

Imóveis de luxo têm sido vendidos por até R$ 12 milhões no Belvedere e no Vale do Sereno


O mercado de luxo, em geral, esteve na contramão da crise nos últimos anos. Estudo divulgado no ano passado pela MCF Consultoria mostrou que esse segmento cresceu 9% em 2016, com faturamento de R$ 33,9 bilhões, ante R$ 31,1 bilhões em 2015 . Belo Horizonte, de acordo com os empresários ouvidos no estudo, é a quarta cidade em potencial para investimentos nessa área, atrás apenas de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. No Belvedere, em BH, e no Vale do Sereno, em Nova Lima, novos empreendimentos têm sido vendidos entre R$ 6 milhões e R$ 12 milhões.

O mercado imobiliário corrobora os indicativos. No primeiro trimestre de 2018, foram 125 unidades lançadas e 94 vendidas nos padrões luxo e super luxo, de acordo com o Censo Imobiliário. O número de lançamentos é 145% maior do que em 2017, quando foram ofertadas 51 unidades. 

“O mercado de luxo, juntamente com os imóveis do programa Minha Casa, Minha Vida, foi o que menos sofreu com a recessão. No altíssimo luxo, parece não ter crise. É muito nítido como o mercado está melhor, as nossas vendas cresceram cerca de 30% em relação ao último trimestre de 2017”, afirma Lucas Couto, diretor comercial e de marketing do grupo Patrimar. A construtora acaba de lançar, em parceria com a Somattos, um novo empreendimento no ramo. Com apartamentos que variam entre 480 e 671 metros quadrados, as torres Apogée e L’Essence ficarão no Jardim Mangabeiras, entre o Belvedere, em Belo Horizonte, e o Vila da Serra, em Nova Lima. 

“Fomos surpreendidos com a procura. Lançamos em maio e já temos quase 50% do empreendimento vendido. Esse público sofreu muito menos com a crise e ainda tem uma demanda enorme”, avalia Couto. 

Outro empreendimento que reafirma a receptividade do ramo foram os edifícios Terra e Sol, lançados em agosto de 2017 pelo Grupo EPO. Localizados no Vale do Sereno, em Nova Lima, os apartamentos de alto luxo foram vendidos antes mesmo do início das obras. 

“O sucesso foi tanto que acabamos de lançar mais um empreendimento de alto luxo no bairro Serra e as obras começarão em julho deste ano. É um mercado afastado da crise e por isso é mais favorável para as construtoras”, explica Marcelo Carvalho, gerente comercial do Grupo EPO.

Para Humberto Mattos, diretor comercial da Somattos, a rapidez das vendas no setor reflete a aposta dos consumidores de que o momento é oportuno para fazer investimentos. 

“Comprar agora, quando os preços ainda estão estáveis, é entender que a perspectiva é de que as coisas melhorem em breve. Quem enxerga a longo prazo vê como uma oportunidade”, afirma.