Independentemente de qual será o desfecho, que seja breve. É esse o sentimento generalizado de representantes de importantes setores da economia brasileira sobre o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT).

A avaliação é a de que quanto mais se prolongar a indefinição sobre a ocupante do posto mais alto da República, mais tarde será retomada a pauta econômica, colocada em segundo plano com o agravamento da crise política. A estimativa é a de que a economia nacional este ano encolha entre 3% e 3,5%, e que 2016 seja ano de nova recessão.

“O pior cenário é o da incerteza. Qualquer que seja a definição, tem que ocorrer rápido. A retomada da economia depende que seja superado esse processo de impeachment, que paralisou todas discussões”, disse o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Pesada em Minas Gerais (Sicepot-MG), Emir Cadar Filho.

Para ele, em caso de queda da presidente e posse do vice, Michel Temer (PMDB), a imprevisibilidade aumenta porque haverá mudanças que demandam tempo. A permanência de Dilma, porém, também não anima. “Não se vê muita mudança no cenário”.

O diretor de operações da assessoria de investimentos FN Capital, Paulo Figueiredo, também defende a ideia do quanto mais rápido melhor. “Quanto mais breve for a definição, mais rápido se voltará o foco para a economia”.

Figueiredo comentou que há uma forte aversão ao atual governo, mas que ao mesmo tempo se Temer for alçado ao posto de presidente se ampliará o sentimento de incerteza. “Com o Temer, não temos nenhum indicativo de qual será a política econômica. Com Dilma, haverá o desânimo de uma continuidade do modelo atual, com aumento de impostos, mas ao menos espera-se maior facilidade de aprovação das medidas econômicas no Congresso, e maior previsibilidade para o investidor”.

A aversão à Dilma pode explicar a reação eufórica do mercado financeiro após acolhimento d o pedido de impeachment. A bolsa teve alta de 3,29% na quinta-feira (3) e o dólar a maior queda no mês, de 2,26%, vendido a R$ 3,748. Mas nessa sexta (4) o movimento foi contrário, com a bolsa caindo 2,23%%. Já o dólar teve leve alta de 0,26%, cotado a R$ 3,739.

Mais cauteloso, o presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte, Bruno Falci, preferiu não medir os impactos do processo de impeachment. Ao destacar que a entidade é apartidária, disse apenas que a crise política não se descolou da econômica.
Presidente da AMM desqualifica Temer em caso de cassação.

Presidente da AMM desqualifica Temer em caso de cassação

A crença de que a ascensão do vice-presidente, Michel Temer (PMDB), em caso do impeachment de Dilma Rousseff, resultaria em um governo mais estabilizado é desmontada pelo peemedebista Antônio Júlio, presidente da Associação Mineira de Municípios (AMM) e prefeito de Pará de Minas.

Durante ciclo de debates sobre a retomada do desenvolvimento econômico realizado nessa sexta (4) na Assembleia Legislativa de Minas gerais, Antônio Júlio afirmou que o partido não tem liderança e determinação para assumir.

“Não vejo o PMDB assumindo o governo, primeiro porque nós não ganhamos a eleição. E não sei se teria legitimidade para fazer as mudanças que o Brasil quer, se ele teria tranquilidade, se conseguiria agregar o Congresso Nacional neste momento tão complicado”, disse.

Para o prefeito, a bancada do partido no Congresso deve agir como governo neste momento e apoiar a presidente Dilma Rousseff. “Tem gente que fala que parte do PMDB quer dar o golpe. Eu não concordo. Temos que ter responsabilidade com o Brasil e ajudar Dilma a sair dessa”.

Do ponto de vista econômico, o futuro de Temer dependerá de como ele irá conduzir esta fase de instabilidade até uma definição do processo de impeachment, analisa o vice-presidente do Conselho Regional de Economia de Minas Gerais, Pedro Paulo Moreira Pettersen. “Se o processo se acirrar, Temer terá que construir uma maioria a seu favor para sinalizar à iniciativa privada que o governo federal vai conseguir reduzir as incertezas”.

Carnaval

No entanto, o economista acredita que o desfecho deste impasse não acontecerá antes do Carnaval. “Isso, se o Congresso resolver fazer a convocação das sessões extraordinárias durante o recesso parlamentar”. Segundo Pettersen, só a partir daí será possível dimensionar se 2016 também será “contaminado” pela instabilidade política.

“A melhor forma de desvincular essa contaminação entre política e economia é resolvendo logo o problema da legitimidade do governo. Seja levando o impeachment às últimas consequências, que culminaria na saída de Dilma, ou reconhecendo que o processo não tem base legal”.

O vice-presidente tem se mantido longe da articulação da defesa do governo. Ele e Dilma não se falam desde quinta-feira (3).