As restrições de horários, redução de público e limitações à venda de bebidas alcoólicas de bares e restaurantes em Belo Horizonte, impostas pelos protocolos contra a Covid-19, ainda comprometem a retomada do setor na capital mineira. Mesmo com a flexibilização ocorrida nas últimas duas semanas, muitos estabelecimentos tiveram uma retomada pífia das vendas, com baixo fluxo de caixa, o que pode levar ao fechamento de mais estabelecimentos e ao corte de pessoal até o final do ano. A alta dos insumos também tem sido outro empecilho para alavancar o segmento neste período de pandemia. Na sexta-feira (18), a PBH anunciou mais uma flexibilização para o varejo em BH (Leia mais no Horizontes).

Desde do início da Covid-19 em março deste ano, cerca de 8 mil estabelecimentos fecharam as portas em Belo Horizonte e na Grande BH e 60 mil trabalhadores ficaram desempregados, segundo dados da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes em Minas Gerais (Abrasel-MG). “Antes dessa abertura, a gente comentou muito que 30% do mercado já tinha quebrado e algo em torno de 10% estava quebrado mas não sabia e ia descobrir só agora. E é o que tem ocorrido nessa retomada”, conta Ricardo Rodrigues, presidente da entidade.

Segundo ele, muitos empresários estão descobrindo que não vão dar conta de manter as atividades, porque o movimento está aquém do esperado e o setor tem regras que reduzem a capacidade de atendimento. “A prefeitura vem fazendo liberações graduais e são muito importantes, porque é melhor do que a gente ficou em cinco meses, que era nada. Mas o escalonamento sendo feito de uma forma gradual e lenta, pode trazer o fechamento de mais bares e restaurantes que não tinham fechado ainda, mas a flexibilização já é algum alento”, enfatiza.

“O setor não consegue pagar os custos, por causa do baixo movimento. As pessoas ainda estão muito temerosas”, afirma Túlio Montenegro, proprietário do restaurante Chef Túlio. Segundo ele, em reunião no Barreiro na última segunda-feira com cerca de 18 donos de bares e restaurantes associados à Abrasel, o consenso é de que o setor está muito fraco e não deslanchou. “O tipo de negócio igual ao meu, que tem uma clientela mais erada, ela não vem (ao bar) não. O boteco da rapaziada, da turma até os 30 anos, 35 anos, está cheio, mas os botecos de velhos não estão”, garante.

Gabriela Furtado, sócia da rede Assacabrasa, avalia que as limitações de horário e de dias têm atrapalhado o retorno do setor, mas considera que a reabertura dos estabelecimentos tem que ser feita respeitando todos os protocolos de segurança. “Estamos precisando de ter uma flexibilização maior, no entanto sem deixar de lado a segurança”, enfatiza. A empresária conta que até o momento ainda não demitiu nenhum dos 170 funcionários das sete lojas da rede – a do Patio Savassi fechou nas portas na Pandemia, mas não descarta a possibilidade caso as coisas se agravem.

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Com a pressão dos custos, Dudu pretende elevar em R$ 2 o valor cobrado: “só para dar uma ajuda”

O proprietário do Bar Tudo Legal, no bairro Santo Antônio, Emílio Samuel da Cruz (Dudu), disse que o movimento voltou em torno de 30% em relação ao início da pandemia, mas garante que a limitação de horário ainda tem prejudicado muito o setor. “O que entra no caixa não é suficiente, porque o movimento não voltou ao normal e a despesa é muito alta”, afirma. 

Sidney de Assis Feliciano, proprietário do Bar do Magal, no bairro Cidade Nova, considera que já houve um luz no fim do túnel, mas avalia que a PBH deveria reduzir o horário de funcionamento aos sábados e domingos para que a clientela pudesse ‘esticar’ um pouco além das 22 horas, principalmente às sextas-feiras. “O pessoal continua saindo de casa muito tarde, a gente acaba tendo que dizer não para o cliente”, afirma. Ele conta que os clientes com idade mais avançada ainda continuam com receito de ir ao bar, mas que nesses poucos dias de reabertura, apareceram muitos clientes novos e que a turma mais jovem do bairro já começou a retornar.

 

Comércio já estuda repasse de preços de insumos ao consumidor
 

A alta de insumos para o preparo de refeições, como arroz, feijão e óleo de soja, cujos preços chegaram a disparar nas últimas semanas, já começa a tirar o sono também dos comerciantes, que já não descartam o repasse para o consumidor. 

“A gente diminuiu a receita, as despesas estão a mesma coisa e os custos aumentando, mais um agravante. Aperta mais uma rodada no torniquete”, afirma João Assunção Souza, proprietário do restaurante Too Much, no Santa Efigênia.

 

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Movimento do restaurante Too Much vem crescendo, mas ainda é inferior a 50% do registrado antes da pandemia

Ele conta que o movimento está voltando lentamente, mas que ainda não chega a 50% do que tinha antes da pandemia. “Muitas pessoas ainda têm resistência, algumas empresas ainda estão fechadas. Estamos recomeçando”, disse. Segundo ele, os preços praticados no estabelecimento são os mesmos de antes de março, mas não descarta elevar os valores se não houver uma retração no custo dos insumos. “Se esses preços persistirem altos, aí a gente vai ter que, forçosamente, repassar”, enfatizou.

Emílio Samuel da Cruz, o Dudu do Bar Tudo Legal, afirma também que está tentando segurar os preços por causa da alta dos insumos, mas conta que a situação já está insustentável. “Na semana que vem vou ter que reajustar os valores do self-service, pelo menos uns R$ 2 só para dar uma ajuda. Carne ficou mais cara, assim como o arroz e o óleo”, afirma.

“A gente está fazendo das tripas coração para continuar vendendo. Ainda mais o arroz e o feijão que são a base de alimentação do Brasil. Se aumentar, perde o cliente. Isso prejudica demais o setor”, afirma Túlio Montenegro, proprietário do Chef Túlio.

Gabriela Furtado, sócia da rede Assacabrasa, também já não descarta o repasse para o consumidor final. “A gente não quer repassar porque estamos precisando aumentar as vendas, mas não podemos ter prejuízo. A situação é muito delicada. Espero que esses aumentos tenham sido pontuais, caso contrário vamos acabar repassando”, afirma.

Discrepância
Pesquisa realizada pelo site Mercado Mineiro, no início deste mês, mostrava que o arroz registrou variações de preços de até 30% no comércio da capital mineira. O pacote da marca Prato Fino de 5kg era encontrado entre R$ 22,95 e R$ 29,98. Já o Camil variava de R$17,90 a R$22,98, uma diferença de 28%. 


 ALÉM DISSO:

Para facilitar a retomada das atividades dos segmento de bares e restaurantes, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas em Minas Gerais (Sebrae Minas) e a Abrasel lançaram o programa Prepara Gastronomia. O conteúdo inclui palestras e cursos online, e-books, artigos, planilhas e vídeos informativos, divididos em quatro temáticas: estratégias – para se reinventar neste período de crise; finanças e crédito – buscando colocar as contas em dia e controlar os custos, e operações e protocolo - para ajudar o empresariado a simplificar os processos. Os interessados podem receber o conteúdo gratuitamente.
Segundo a gerente da Unidade Indústria, Comércio e Serviços do Sebrae Minas, Márcia Valéria Cota Machado, hoje os maiores gargalos enfrentados pelo segmento de bares e restaurantes têm sido as finanças, como impulsionar os negócios e a operacionalização dentro desse novo normal. “É um dos segmentos mais demandados no Sebrae. Estamos trabalhando com eles a parte financeira, de reestruturação e a questão do marketing em vendas. Como eles podem se remodelar, se reestruturar para conseguir retomar as vendas”, conta.

 

 

Por meio das redes sociais, a Casa Essência, no

bairro Lourdes, em BH, comunicou

nesta semana o fim das atividades