Mar, rios, areia, dunas e muita aventura. É assim a “Rota das Emoções”, roteiro que engloba o Parque Nacional de Jericoacoara (CE), a Área de Proteção Ambiental do Delta do Parnaíba (PI) e o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses (MA). Se decidir fazer a travessia, prepare-se para belíssimas paisagens e muitos desafios. O primeiro deles é a organização da viagem, já que poucas agências oferecem o roteiro. A melhor maneira de começar é saindo de Jericoacoara, uma pequena vila de pescadores completamente voltada para o turismo. Chegar até lá não é nada fácil. Do Aeroporto Internacional de Fortaleza (Pinto Martins) é preciso embarcar em um utilitário 4x4 ou em um ônibus. Uma parte do trajeto é feita pelas dunas do parque nacional.

Em “Jeri”, como carinhosamente é chamada a cidade, o visitante irá se encantar com ruas de areia, sem iluminação pública e um ar bucólico. São apenas quatro ruas e, no fim da Principal, está a maravilhosa Praia de Jericoacoara.

À noite, a duna do “Pôr do Sol” reúne dezenas de turistas. Lá de cima, o mar se encontra com o sol poente, em uma das mais magníficas paisagens do roteiro.

Outro local em “Jeri” que merece visitação é a Lagoa do Paraíso. Com água doce cristalina, tem pontos completamente desertos. Nas áreas com infraestrutura turística, há redes dentro da lagoa, que exercem um “efeito magnético” no visitante que não recusa um bom descanso.

Os três estados

“Jeri” é apenas o início da Rota das Emoções. De lá, o transporte é um jipe 4x4 para chegar até a Área de Proteção Ambiental do Delta do Parnaíba (PI). A viagem dura cerca de 4 horas.

A reserva do delta engloba várias cidades, em uma área de 2,7 mil quilômetros quadrados, formada por mais de 70 ilhas. Atravessando de Jericoacoara, o principal ponto de parada é a cidade de Parnaíba.

Lá é possível fazer um passeio de lancha e conhecer um dos mais belos fenômenos do mundo: o encontro do rio com o mar. O santuário ecológico também conta com mangues, lagoas, dunas, animais silvestres, e praias paradisíacas.

Chegando ao Maranhão

Com mais três horas de carro, chega-se à Caburé, de onde é preciso atravessar em pequenos barcos até Atins, um vilarejo nos Lençóis Maranhenses.

O local é ideal para quem busca sossego, dunas, rios e mar. As ruas são de areia fofa e quase não há sinal de celular ou internet.

Quem ficar em Atins pode fazer um passeio de barco no pôr do sol para ver os animais no mangue e conhecer várias lagoas, sem a necessidade de contratar uma agência.

A rota pode terminar em Atins ou se estender até a cidade de Santo Amaro, em uma travessia de três dias a pé pelo parque nacional.

Travessia exige preparo e determinação

A chamada “Travessia dos Lençóis” não é para qualquer viajante. O roteiro requer disposição, força de vontade e muito condicionamento físico. São 54 quilômetros de caminhada, com muita areia, subidas nas dunas e passagens entre lagoas de água doce. Tudo isso, sem nenhuma sombra e com muito sol. A recompensa disso tudo pode ser uma das mais incríveis viagens da sua vida.

Para fazer a travessia, o primeiro passo é conseguir um guia local. Segundo moradores, profissionais novos estão realizando o trajeto, o que pode tornar a sua viagem ainda mais longa. Uma boa dica é procurar a pousada da Tia Rita e pedir uma indicação.

Do local, você poderá despachar parte da bagagem para Barreirinhas, ponto final da travessia. Como o percurso é longo, a bagagem não pode ultrapassar sete quilos, incluindo roupas, água e comida. Com mais do que isso, é praticamente impossível concluir a caminhada.

Escolhas

No primeiro dia de caminhada, são duas opções: andar sete horas ou conseguir um transfer até o Rio Negro e andar mais quatro horas. A saída é de madrugada para evitar o sol do meio-dia. Depois da maratona, você chegará até a região da Baixa Grande.

Uma das poucas opções para hospedagem é a pousada da Maria Loza. De lá, dá para ir a pé para várias lagoas e um pequeno rio. Não há mordomias. Os viajantes dormem em redes, em um cômodo forrado com folhas de macaúba e piso de cimento batido.

A água não é encanada e após às 22 horas a iluminação é feita com velas, o que dá um charme especial ao jantar, normalmente com peixe ou frango. As noites são assim em todas as pousadas da região.

Despertar

Da mesma maneira que o percurso anterior, é preciso despertar com céu estrelado, para percorrer a maior distância possível, antes de o sol estar a pino. Assim, de madrugada, começa o trajeto para a Queimada dos Britos, região que recebeu nome de uma família da região.

Há três opções de hospedagem, todas muito simples. Próximo é possível nadar no rio e contemplar o por do sol de uma gigantesca duna, que forma uma imagem inesquecível.

Final

O último dia de caminhada é o mais difícil. São nove horas, sendo as duas últimas sob o sol forte. Para o trajeto não ficar ainda mais complicado, a saída é de madrugada, entre 4 e 5 horas. Nesse momento, não se vê muita coisa, apenas dunas e a luz da lanterna do guia.

Quando o sol nasce, as paisagens vão se revelando aos poucos. Dunas, lagoas e árvores secas formam um dos mais bonitos trechos do roteiro. A lagoa da Andorinha, próximo à Santo Amaro, é uma das maiores e mais fundas.

De Santo Amaro a Barreirinhas, é preciso pegar um transfer até a cidade de Sangue e de lá um ônibus.

Paisagem contrasta beleza e condições extremas

Quem percorreu as dunas e enfrentou o sol quente da “Rota das Emoções” volta para casa transformado. A beleza do cenário, que ao mesmo tempo nos mostra o quão frágeis nós somos, é um convite à reflexão sobre valores, determinação e companheirismo.

“A ‘Rota das Emoções’ oferece paisagens magníficas. O momento que mais gostei foi a travessia do rio Preguiças, de Caburé a Atins. À noite, a paisagem tem um dos céus estrelados mais bonito que já vi”, afirma o professor de Kitesurf e companheiro de aventura, Alan Boulais.

Para o empresário Christiano Paes, que também encarou o desafio, a travessia foi um momento de sinergia entre o corpo e a natureza. “São três dias de total conexão não só com seu corpo físico, que enfrenta um baita desafio de andar 10 horas por dia, subindo e descendo dunas no deserto, mas também com a sua mente. O contato com as famílias que vivem nos oásis é muito especial e nos faz questionar os valores da vida moderna”, observa.

*Colaborou Alan Boulais

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