Com os sapatos sujos de lama e camisa social com as mangas arregaçadas, o governador da Bahia, Rui Costa (PT), percorre vielas na periferia de Salvador. Em cima de um palco, fala da infância humilde e assina ordem de serviço para obra de contenção de encostas. A seu lado, secretários, vereadores e pelo menos quatro pré-candidatos à prefeitura da capital baiana em 2016.

Em outro ponto da cidade, o prefeito ACM Neto (DEM), que vai disputar a reeleição em 2016, também suja os sapatos em ruas de terra batida fazendo vistorias e inaugurando os grandes paredões de concreto. Ao seu lado, um séquito de vereadores e líderes comunitários.

A um ano das eleições municipais, a política em Salvador tem agenda definida: a implantação de obras de infraestrutura na periferia, com destaque para construção de paredões para conter deslizamentos de terra nas encostas.

A mobilização política em torno do tema é resultado das fortes chuvas de abril e maio deste ano, que deixaram um saldo de 21 pessoas mortas em soterramentos.

A oposição a ACM Neto enxerga o investimento em obras estruturantes na periferia como principal "calcanhar de Aquiles" da gestão do prefeito. E iniciou uma ofensiva em Salvador capitaneada pelo governador.

Nos últimos dois meses, Costa participou de oito solenidades na periferia da capital, sendo duas inaugurações e seis assinaturas de ordens de serviço.

Os eventos têm forte carga política: em discursos, ACM Neto é classificado pelos oposicionistas como o prefeito "da orla" e "dos ricos". Já o governador petista é elogiado e saudado como o "govprefeito"', pelos investimentos feitos na capital.

Os destaques nos discursos são os pré-candidatos à prefeitura como os deputados federais Alice Portugal (PC do B) e Antônio Brito (PTB), o deputado estadual Sargento Isidoro (PSC) e o vereador Gilmar Santiago (PT). "O prefeito inverte prioridades ao gastar quase R$ 130 milhões nas orlas da Barra e do Rio Vermelho e ter investimento ínfimo na contenção de encostas", diz Santiago.

No mesmo período, ACM Neto participou uma inauguração e duas vistorias em obras de contenção de encostas. E tem afirmado que "trabalha mais", ao ser questionado as obras na capital.

Na Assembleia, aliados do prefeito miram nas andanças de Rui Costa pela capital. "Enquanto o governador circula por Salvador, o interior está abandonado, com obras inacabadas", diz o líder da oposição, deputado Sandro Régis (DEM).

Em público, prefeito e governador negam que exista uma disputa na entrega de obras na periferia e afirmam que "trabalham pela cidade".

Poucas obras

Mesmo com o clima de disputa, tanto o prefeito quanto o governador ainda têm muito a trabalhar com recursos disponibilizados para obras de contenção.

Desde o início do governo ACM Neto, em 2013, a prefeitura aplicou R$ 5,4 milhões em recursos federais para obras de contenção de encostas. O valor representa 25% dos R$ 20,6 milhões previstos para 20 obras, das quais só 12 começaram.

O governo do Estado tirou do papel apenas 18 das 98 obras de um pacote de R$ 156,2 milhões. Até setembro, o governo aplicou R$ 5,5 milhões, o equivalente a 4% do volume de recursos previstos.

Prefeitura e governo afirmam que as obras estão em andamento e que o nível de execução deve avançar nos próximos meses.

Apesar do percentual baixo de obras realizadas, novos recursos foram disponibilizados pelo Ministério da Integração Nacional para obras de contenção em Salvador na quarta-feira (9).

Foram liberados R$ R$ 53,8 milhões para o governo do Estado R$ 21,7 milhões para prefeitura. Mais munição para a 'batalha das encostas', que ganha novo capítulo.