O medo do assédio sexual refletiu na economia. Para evitar a violência sofrida diariamente por diversas mulheres, inclusive durante a prestação de serviços, muitas têm se organizado em redes para atender exclusivamente o público feminino. Os negócios têm dado certo, gerando renda e criando empregos – 29% das empreendedoras contratam apenas mulheres, segundo pesquisa da Rede Mulher Empreendedora (RME). 

Em um ano, muitas das novas empresárias veem o faturamento mais do que dobrar. A falta de profissionalização da gestão, no entanto, ainda chama atenção dos especialistas.

Há cerca de quatro anos, Larissa Ribeiro Borges percebeu um gap no mercado de manutenções de residências e decidiu investir no negócio. “Conversando com amigas, percebi que várias tinham medo de chamar um ‘marido de aluguel’ em casa por ele ser homem. O medo de assédio é enorme”, explica. Ela, que já fazia alguns serviços de manutenção que aprendeu com o pai, resolveu investir em um novo negócio. 

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No mercado há 4 anos, Larissa Borges possui uma clientela cativa para serviços de manutenções em residência

Larissa fez cursos de eletricista, pedreiro de alvenaria e bombeiro hidráulico. À frente da Working Girl, ela faz trabalhos que eram, normalmente, realizados por homens.

“O preço é de mercado, não cobramos a mais. Mas temos o diferencial que é oferecer um serviço de extrema qualidade com segurança a outras mulheres”, explica. E a segurança das funcionárias está resguardada também. “Se não tiver uma mulher na casa para receber as técnicas, nós não entramos”, diz.

Além dela, outras três mulheres trabalham na empresa. Duas técnicas e uma pessoa que cuida da comunicação, engordando as estatísticas da RME. “Só contratamos mulheres”, avisa. Segundo a empresária, do ano passado para cá, o faturamento dobrou. Além de fazer mais serviços, o porte dos projetos tocados pela empresa aumentou. 

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Gracielle e Dardania afirmam que as clientes se sentem acolhidas com o atendimento

“Quando são serviços picados, chegamos a fazer 12 em um só dia. E pegamos projetos grandes e complexos também”, explica Larissa, que está prestes a trocar o curso de engenharia civil pelo de engenharia elétrica.

Levantamento da Rede Mulher Empreendedora aponta que 69% das mulheres à frente do próprio negócio, aliás, são graduadas ou têm pós-graduação e que 59% são casadas. É o caso da educadora física Pollyana Pessoa Dias.

Além de dar aulas, ela comanda duas franquias. Na Acquazero Funcionários, aberta em janeiro, o foco é limpeza a seco de veículos e carros em sistema de delivery. Na equipe, além da própria Pollyana, existe outra mulher. 

“A maioria das pessoas que nos chamam em casa são mulheres. Temos uma funcionária que atende a esse público, sempre que solicitada. <CW-5>Acreditamos que seja uma segurança a mais que podemos oferecer”, comenta. Desde que a empresa abriu, o faturamento aumentou 30%. O serviço custa a partir de R$ 40 e não há taxas de deslocamento. 

 

Especializadas em causas familiares, advogadas conseguiram dobrar faturamento do escritório


Desde que as advogadas Gracielle Carrijo Vilela e Dardania Martini, do escritório Martini Carrijo, concentraram os esforços no atendimento exclusivo de mulheres em causas familiares, o faturamento do escritório dobrou. Embora a mudança nos rumos da empresa tenha sido por acaso, foi nesse nicho de mercado que elas se encontraram. 

“Entendemos a rotina dessas mulheres, muitas com filhos. Sabemos os problemas que elas passam, as dificuldades. Elas se sentem acolhidas, se identificam. E nós também”, pondera Gracielle. 

A sintonia dela foi tanta que hoje faz questão de contratar mulheres sempre que possível, assim como 60% das empresas gerenciadas pelo público feminino no Brasil. “Se o serviço tiver a mesma qualidade, eu certamente vou optar pelo serviço prestado pela mulher”, diz. 

Assim como Gracielle e Dardania, 54% das mulheres empreendedoras atuam no ramo de serviços. A maioria, no entanto, ainda não se sente segura com a gestão financeira da empresa, o equivalente a 72% das empresárias, contra 50% dos homens.

Na avaliação da analista do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Michelle Chalub, planejamento é essencial para ganhar confiança. “Quando a pessoa coloca tudo no papel, sabe os custos e as receitas, fica mais fácil gerenciar o negócio”, diz. E um dos principais vilões da gestão é misturar dinheiro próprio com o da empresa. 

Quatro a cada 10 mulheres empreendedoras não separam as rendas. “Casa é casa, negócio é negócio. As finanças devem ser separadas e o controle deve ser feito”, enfatiza. Esse controle pode ser no computador ou, até mesmo, em um caderno. “O que importa é entender a própria empresa”, conclui.