Já se vão três anos desde que A Autêntica abriu as portas, com o honroso e desafiador propósito de dar espaço à música autoral em Belo Horizonte. De lá para cá, foram diversos shows e festivais, com artistas promissores e renomados, locais, nacionais e internacionais. Mas nem tudo são flores: para manter a programação, a casa tem driblado as dificuldades financeiras impostas pelo mercado e pelas especificidades de público, resistindo bravamente em seu proposta. Para falar mais sobre as satisfações e desafios de gerir uma casa de shows voltada para o autoral, o Hoje em Dia conversou com Leo Moraes, músico e um dos três sócios d’A Autêntica.

Quais as dificuldades de manter uma casa focada na música autoral? Há muita pressão para o espaço voltar-se a outro segmento, como o de “baladas”?
Essa pressão é constante. Na balada, o ingresso é mais caro, o custo com o evento é menor e há mais rotatividade. Então, é possível ter muito mais pagantes que a capacidade da casa, o ticket médio de consumo no bar é mais que o dobro. Enfim, tudo joga contra o formato de show. A insistência na proposta tem uma boa dose de idealismo, mas também uma visão do negócio a médio e longo prazo. Nossa aposta é encontrar novas formas de receita, como produção de conteúdo e patrocínios. A TV Autêntica, que inauguramos em julho, é o primeiro passo concreto nesse sentido. Concorrer com as baladas cobrando entrada e vendendo cerveja é inviável, mas acreditamos que nesses primeiros anos conseguimos construir um conceito sólido, com muita substância e conteúdo, que vai eventualmente render frutos. A balada é 100 metros rasos, nossa proposta é maratona.

A Autêntica chegou a ter equipamentos roubados em 2017. Esses percalços incalculáveis desanimam?
Desanimam muito. A tubulação de ar condicionado, do roubo a que você se refere, foi roubada quatro vezes, duas apenas no mês passado. Tivemos prejuízos grandes também com a greve dos caminhoneiros, quando um evento foi cancelado. Esses fatores externos dificultam tudo, e o peso de uma legislação tributária extremamente irracional realmente colocam uma dificuldade extra em uma empreitada que já é pesada. Mas são coisas sobre as quais não temos controle e que sempre vão existir. Então, a gente respira fundo e segue em frente. Questões estruturais do país prejudicam qualquer empreendimento.

Você sempre faz posts abrindo contas e reforçando a necessidade de engajamento do público. Como analisa a relação da plateia de BH para com as casas de show atualmente? Ainda falta envolvimento? 
Esses meus posts são em sua maioria direcionados aos meus colegas artistas e músicos. A experiência da Autêntica fez com que eu desmistificasse um monte de conceitos que eu, enquanto artista, tinha. São coisas que eu gostaria que alguém tivesse me dito. Muitas vezes, o artista encara a casa como um explorador, alguém que está faturando em cima do seu trabalho. Eu tinha um pouco dessa visão. Hoje, vejo que por trás de um palco permanente existem pessoas apaixonadas pela música, com vontade de realizar. A verdade é que a música, enquanto arte, não é um bom negócio. Cabe a todos os elos da carreira trabalharem em conjunto pra reverter isso, então eu sou muito aberto e explícito nesse posts. Abro números, exponho as entranhas do negócio, de uma forma que muitos consideram imprudente. Mas acho que parte da missão da Autêntica é também formar e informar. Um músico que conhece a realidade das casas, dos festivais, dos blogs, tem condições de se planejar muito melhor do que o que se coloca na posição de artista injustiçado, que quer ser reconhecido e pago pelo seu talento, sem entender que o dinheiro tem que vir de algum lugar. É perceptível para mim, quando as pessoas que estão dispostas a ouvir vêm negociar um show após terem lido meus posts. A conversa flui bem melhor.

“Hoje, vejo que por trás de um palco existem pessoas apaixonadas pela música, com vontade de realizar”

O público da cidade tem a cultura de beber “na porta” e, muitas vezes, nem entrar nas casas. Esse costume também afeta A Autêntica?
A questão dos ambulantes é bem menos significativa para A Autêntica do que para outros espaços. Nosso palco é bem mais afastado da rua, não dá para curtir o som sem estar lá dentro. Mas volta e meia, em alguns eventos maiores, temos também esse problema. Eu vejo que grande parte do público não entende o quanto isso é nocivo para a cena. A tendência é sempre pensar no cara que está garantindo o seu ganha-pão e não ver que, no estabelecimento, também tem alguém tentando ganhar o seu. Recentemente, o dono de um estabelecimento da rua Sapucaí fez um post se referindo aos ambulantes como “parasitas”, o que causou uma grande revolta. Algumas pessoas defenderam os ambulantes, argumentando que o astral da rua ficava melhor com o movimento que eles proporcionavam. Mas o que elas não enxergam é que são os estabelecimentos que investem para atrair as pessoas, que pagam impostos e geram empregos formais. Aí chegam os caras que têm custo zero e praticam um preço que é impossível de concorrer. É a forma mais selvagem de capitalismo. E é uma contradição enorme ver pessoas que defendem direitos trabalhistas, impostos e fiscalização defenderem essa prática. É muito desleal e, no fim, o que acontece? O Baixo (extinta casa de shows) fecha e hoje não tem mais nenhum ambulante na porta. O movimento “alto astral” que eles supostamente proporcionam desaparece. E aí os ambulantes seguem para outra porta. Com a Benfeitoria (também na rua Sapucaí), foi a mesma coisa. Que fique claro que não é questão de demonizar o ambulante, que em eventos de rua, como o carnaval, prestam um importante serviço. Mas é uma situação completamente diferente e, se queremos ter uma cena sustentável, precisamos entender isso, sem demagogia e falso moralismo.

E o que dá mais satisfação em sustentar um espaço como A Autêntica? Qual a importância das casas para o fomento à música autoral? 
A satisfação vem de ver artistas que começaram nas Sessões Autênticas (nosso evento mensal de palco aberto) construírem carreiras e fazerem sucesso por aí. De proporcionar às pessoas da cidade um contato próximo com artistas que elas admiram. O retorno não-material é imenso. Quanto à importância das casas, nós somos o dia a dia da música. Os festivais são incríveis, mas têm que ser vistos como a cereja no bolo. Os palcos permanentes precisam ser valorizados e cuidados, tanto pelos artistas, quanto pelo poder público. Não é só no Brasil que temos esse problema, em Londres várias casas históricas fecharam. Legislação excessivamente rigorosa, fiscalização punitiva e outras questões estão inviabilizando esses espaços. Compreendendo que é nesses locais que a música do amanhã nasce, artistas do porte de Paul McCartney estão se unindo em um movimento para a preservação desses locais. Como ele disse em uma entrevista, o poder público não precisa nem ajudar, basta não atrapalhar. Hoje nós, das casas, temos um importante diálogo com a Prefeitura de Belo Horizonte nesse sentido. Mas precisamos passar do diálogo à ação. Esse é o desafio.

Quais grandes momentos da casa você destacaria nesses três anos?
Tivemos alguns marcos. O primeiro show do Circa Survive, em 2015, mostrou o nível de eventos que a casa comportava. Foi nosso primeiro dia de lotação esgotada. A Letrux, ano passado, foi um marco também. E os aniversários da Autêntica, que sempre traz encontros inusitados, intencionais ou não. Nesse último, de três anos, a noite seria o encontro de Ava Rocha com Juliana Perdigão. Acabou que, por coincidência, Tulipa Ruiz, Lucas Santanna e Criolo estavam fazendo shows na cidade no mesmo dia. Vieram para a Autêntica depois e Tulipa e Lucas acabaram subindo ao palco e fazendo uma participação sensacional. Um encontro inédito e único. O acontece também é que hoje a casa é conhecida no cenário nacional. Artistas que no início não conseguíamos trazer, por nos tratarem como meros contratantes, hoje nos procuram. Isso facilita muito a programação. É bom para todo mundo.
 

“Temos artistas, casas,  festivais, rádios, selos, blogs, feiras. Temos tudo, falta conectar e fazer acontecer. Parece simples, mas 
é uma dificuldade histórica de BH”


Bem como a TV Autêntica, quais outras formas alternativas de sustentar a casa vocês têm buscado?
Desde o início, a ideia é que A Autêntica fosse o centro de algo maior. Sempre pensamos que seria importante registrar tudo o que acontecesse na casa, mas só agora tivemos perna para pôr isso em prática. Como eu disse antes, só vendendo ingresso e cerveja a conta não fecha e a tendência é que, a partir de agora, surjam cada vez mais desdobramentos disso. Por enquanto, a TV está focada em registrar shows e entrevistas com os artistas que passam pela casa, mas em breve teremos programas relacionados à cena, transmissões ao vivo, palestras e conteúdo de ensino à distância, e coisas do tipo. Existem propostas para abrirmos unidades em outras cidades, mas para isso precisamos nos estruturar um pouco melhor. Mas é um projeto real.

A Autêntica evidencia o momento efervescente da cena mineira, que transborda bandas e artistas de diferentes segmentos. Como você observa esse cenário atual?
Em termos de qualidade e diversidade eu nunca vivi um momento tão rico. Fica até difícil citar nomes, mas do underground da Geração Perdida à MPB de projetos como o Colabhorasom, existe uma gama enorme de sonoridades e propostas artísticas muito interessantes e com potencial de ganhar o mundo. Novos projetos de veteranos, como o Moons, além de bandas bem recentes, que atingiram uma maturidade muito rapidamente, como Young Lights e Devise, ajudam a compor esse cenário.


O que você acha que ainda falta para a cena autoral de BH? Em que pontos ainda somos deficitários, com relação a outras cidades?
Temos a faca e o queijo, falta cortar. Ou seja, temos artistas, casas, festivais, rádios, selos, blogs, feiras. Temos tudo, falta conectar e fazer acontecer. Parece simples, mas é uma dificuldade histórica aqui de BH. E falta um pouco de disposição para circular. O fato de estarmos “quase no eixo” prejudicou um pouco, pois não temos nem a visibilidade de Rio e São Paulo, e nem a disposição “tudo ou nada” de quem está em cidades completamente fora do radar. Uma coisa que considero importante também é uma conexão mais forte com o interior do Estado. Existe um potencial enorme e absurdamente pouco explorado de um circuito mineiro. Na época do Fora do Eixo, houve um movimento nesse sentido, mas infelizmente a coisa se dispersou na ressaca da história toda. Mas há uma conversa para retomar essas conexões.

Você recentemente lançou seu primeiro disco solo, “Dia Verde Escuro”. Como pintou a ideia, depois de anos com a Valsa Binária e outras bandas?
Eu sempre fui um cara de banda, da criação coletiva. Nesse tipo de produção, o resultado final é sempre uma coisa diferente de todas as vontades individuais. Isso é o legal da coisa. Mas achei que essa pausa da Valsa Binária foi uma boa oportunidade de, pela primeira vez, assumir o controle total e obter um resultado que fosse fiel à minha visão, com o mínimo de interferência. Eu escrevi todos os arranjos, só chamei os músicos no momento da gravação, nem ensaios fizemos. Quanto à sonoridade, eu parti do formato da banda, que é basicamente bateria, baixo e violoncelo me acompanhando. Eu toquei piano, violão e cantei. Eu tenho uma forte tendência ao ecletismo, se deixar cada música sai de um jeito totalmente diferente. Então, partir de um formato fixo e rígido serviu como um norte estético, conferindo uma unidade ao trabalho, mesmo que as composições sejam bem diferentes entre si. A ausência da guitarra, meu único instrumento durante anos, foi uma forma de sair da zona de conforto. A maioria das músicas foi composta no piano, instrumento que toco ha apenas dois anos. Ele, como condutor, me levou por caminhos harmônicos e melódicos que certamente eu não percorreria com o violão ou a guitarra.