Com proposta liberal e estreante em disputa por cargo público, o empresário Romeu Zema (Novo) diz que vai cortar mais da metade das secretarias e privatizar empresas, se for eleito em outubro. Zema abriu nessa segunda-feira (17) a série de entrevistas do Hoje em Dia com todos os candidatos ao Governo de Minas. Nesta terça-feira, o convidado é o senador Antonio Anastasia (PSDB), às 12h15. As entrevistas são realizadas no estúdio da TV Promove e transmitidas ao vivo nas plataformas digitais do Hoje em Dia.

Qual a possibilidade que o senhor vislumbra para fazer o Estado voltar crescer, tendo em vista que, para o ano que vem, o orçamento está deficitário em mais de R$ 5 bilhões?

Esse é um grande desafio que temos porque, infelizmente, Minas Gerais é o campeão no rombo das contas públicas, título que até ano passado pertencia ao Rio de Janeiro. E eu vejo que nós precisamos reduzir drasticamente a despesa do Estado e, simultaneamente, atrairmos novos investimentos. Porque Minas, nos últimos anos, perdeu muito mais empresas do que trouxe empresas para cá.

E qual será o primeiro ato do senhor, se chegar ao governo?

O primeiro ato vai ser reduzir as atuais 21 secretarias para 9 e fazer um corte como nunca foi feito na folha de pagamento do Estado. Mas, quero deixar claro que este corte será feito sem afetar o serviço que é prestado à população, porque não vamos mexer em nada que diz respeito a policiais e professores. Nós vamos mexer é na área de assessores, na área de pessoas que compõem a burocracia do Estado e que muitas vezes só servem para complicar a vida do cidadão. Minas, hoje, é o Estado que tem a legislação tributária mais complexa do Brasil. Isso gera mais despesas para a empresa, mais chances de errar e mais estrutura dentro do Estado para ficar fiscalizando coisas desnecessárias.

O senhor falou do corte significativo no número de secretarias. Quais o senhor tem em mente que poderiam ser cortadas?

Eu tenho uma planilha com essas secretarias. Uma que recordo aqui perfeitamente: temos hoje a secretaria de segurança e a secretaria do sistema prisional. Isso vai ser agrupado, como sempre foi, como secretaria de segurança. Temos secretaria de cultura, secretaria de esporte, nós vamos agrupá-las: esporte, cultura e educação, tudo em uma secretaria só.

Segundo o governo do Estado, o que é gasto com cargos comissionados é cerca de R$ 17 milhões de uma folha que é bilionária. Por exemplo, o gasto com a previdência, só até julho, o déficit era de R$ 8 bilhões. O governo até aponta o déficit previdenciário como principal gargalo do Estado. Diante disso, existe a possibilidade de fazer algo sem a ajuda do governo federal?

Por mais que nós venhamos a cortar cargos comissionados, vai ser insuficiente o ajuste nesses pontos. Nós vamos ter necessariamente uma reforma da previdência para o servidor estadual. Várias outras unidades da federação já fizeram. Entraria aí (a aposentadoria dos militares). Conversando com os próprios militares, eles reconhecem que militares aposentados com 25 anos (alguns conseguem) é algo fora da realidade atual. Eles já têm ciência disso. Vale lembrar que é necessário renegociar a dívida de Minas com o governo federal.

Uma das bandeiras do Partido Novo é a privatização. O senhor privatizaria a Cemig, Codemig, empresas estatais?

Por incrível que pareça, eu só não privatizaria a Codemig, que é o que ele  (governador Fernando Pimentel) quer. Mas, vamos deixar bem claro, só vou fazer isso após essas empresas passarem por uma boa gestão, porque hoje elas estão totalmente depreciadas. Eu quero colocar à frente da Cemig e da Copasa funcionários de carreira que já estão lá, há 10, 15 anos, que vão fazer uma gestão muito melhor do que um deputado que eles colocam lá para poder ser seu representante, como acontece hoje. E quero também que essa privatização seja com total transparência e só seja feita não transferindo monopólio estatal para o privado. Eu quero fatiar a Cemig de forma que o consumidor possa escolher entre três e quatro empresas, qual vai fornecer energia para ele, da mesma maneira que a gente faz opção hoje por um plano de celular.

É possível abaixar a conta de luz?

É possível. Primeiro, temos que lembrar que temos o mais caro ICMS de conta habitacional do Brasil. Nós pagamos uma gasolina mais cara do país, junto com diesel e etanol.

Para ter um Estado que oferece serviço melhor?

Não, isso é para ter o Estado que tem o maior rombo nas contas públicas.

Mas em um Estado quebrado, abrir mão de uma receita de ICMS de gasolina, por exemplo, nesses primeiros anos, não seria contraditório?

Nesse primeiro momento não temos como abrir mão. O que eu questiono é o seguinte: se no caso da gasolina, como aumentou tanto, se a arrecadação, em vez de subir, não caiu. Por que na divisa de Minas, São Paulo e outros Estados, todos os postos do lado mineiro fecharam porque eles ficaram sem condição de competir. Todo mundo vai abastecer há cinco, dez, vinte quilômetros para economizar cinquenta, sessenta reais num tanque de gasolina. Eu questiono, mas não há transparência hoje, se alguns aumentos de impostos não foram um tiro no pé: em vez de provocar aumento de arrecadação, provocou queda. A queda nos impostos vai vir num segundo momento, depois que nós fizermos o ajustes nas despesas. Por que aqui eu falo, o carrapato ficou maior do que a vaca e nós vamos ter que encolher esse carrapato.

Até o momento, a campanha do senhor arrecadou R$ 385 mil, sendo que R$ 200 mil foram doados pelo empresário José Salim Mattar, dono da Localiza, e outros R$ 35 mil foram doados por Rubens Menin Teixeira, fundador da MRV. O fato de mais de 50% de sua campanha estar atrelada a dois empresários, pode comprometer a sua gestão?

De forma alguma. O Salim, que é o principal doador da campanha, ele é um incentivador da causa liberal, ele participa ativamente do IFL - Instituto de Formação de Líderes. Eu não vejo com nenhuma preocupação essas doações, lembrando que temos várias doações menores também. A nossa campanha, a minha campanha, de todos os governadores vai ser a mais barata. Vai ser muito mais barata ainda na hora que você pegar o voto e dividir pelo custo da campanha. Nós deveríamos nos preocupar é com uma candidata ao Senado (Dilma) que já gastou R$ 3 milhões do seu dinheiro e de quem está nos assistindo, e não com doações de R$ 200 mil ou R$ 300 mil.  Eu acho que deveria ter uma lei que fala o seguinte: qualquer um pode abater do imposto do renda a contribuição que quer fazer o partido.

O senhor menciona, em seu plano de governo, um item chamado Parecer de Seleção, uma maneira de filtrar os contratados para o Estado. Quais serão os requisitos de contratação de funcionários a partir desse critério?

O que gostaríamos de fazer, principalmente em relação aos cargos de confiança, é o que se faz hoje na hora que qualquer entidade privada vai contratar uma pessoa. Talvez até fazer uso de uma empresa de recrutamento, que está apta a ver quem é mais capaz, e não eu trazer pessoas que tenham ideologia semelhante às minhas. Eu quero um governo diverso. Nós vamos colocar um secretariado, inclusive, totalmente profissional (sem indicações).

Mas, como o senhor vai governar sem fazer acordos, uma base no Legislativo?

Muita coisa vai ter que passar pela Assembleia, mas muita coisa o Executivo pode fazer.  A questão de simplificar o ICMS de Minas, que é o mais complexo, depende da Secretaria da Fazenda. Assim que eu assumir, vou falar que eles têm 90 dias para deixar o ICMS de Minas o mais simples do Brasil. Eu vou estar aberto a sentar e falar com cada um dos 77 deputados.

Como o senhor pretende enfrentar a criminalidade em Minas Gerais?

Primeiro, a nossa Polícia Militar é uma das mais tradicionais do Brasil, sempre foi uma das mais eficientes, e perdeu isso nos últimos anos, muito por falta de investimento inteligente, não é por falta de recursos não. Deixou-se de investir em tecnologia, hoje coisa barata em termos de tecnologia poderia contribuir, tipo cada policial ter uma microcâmera em seu uniforme, filmando toda a ação e comprovar que, na maioria das vezes, ele está fazendo o uso da arma dele em legítima defesa. Temos a tecnologia de georeferenciamento para indicar as áreas onde estão ocorrendo crimes com mais intensidade. Por que 2% ou 3% das áreas concentram 70% das ocorrências. Agora, o Estado só investiu em um lugar, onde arranca dinheiro do povo: na Secretaria da Fazenda.

Recentemente, o jornal Hoje em Dia fez uma reportagem mostrando que a proporção dos policiais militares que estão se aposentando é maior do que os policiais que estão ingressando na corporação, em uma média histórica dos últimos dez anos. Qual sua proposta para aumentar efetivo da Polícia Militar?

Vamos precisar rever esse tempo de aposentadoria. Uma proposta que nós temos também, eu sei que hoje é como misturar água com óleo, é unir as Polícias Civil e Militar. Em outros países, sabemos que existe só uma polícia. Hoje, é algo que burocratiza, tira a eficiência da polícia. Vamos tomar medidas no sentido de unificar, depende de leis no Congresso, mas nossa intenção é essa.

O Estado vive a mais grave crise dos últimos anos na educação, com aluguéis em atraso há quase um ano, atraso em repasses da merenda, de responsabilidade do Estado. Como resolver esse problema?

O problema aí está ligado a vários outros problemas. A origem é a mesma da segurança, da saúde, que é falta de recursos. Tudo depende de nós termos as contas em dia, e termos também mais transparência. Eu cheguei a visitar escolas estaduais, onde no Portal da Educação, consta como tendo um laboratório de informática, mas você vai lá e tem mais é um museu de informática do que um laboratório. O que vamos precisar fazer é equacionar as contas do Estado, inclusive, para melhorar a remuneração dos professores.

É possível regularizar o pagamento dos servidores estaduais, que sofre sequenciais atrasos desde 2016?

É possível, mas não antes de dois anos. A situação de Minas é igual uma pessoa que ganha mil reais por mês e deve R$ 30 mil. Ela vai levar no mínimo 30 meses para colocar as contas em dia.

E os prefeitos? Municípios também reclamam do atraso de repasses?

À medida que formos fazendo economia e aumentando receitas, atraindo investimentos, esses atrasos vão diminuir gradativamente. Se hoje, temos funcionários público recebendo com até 60 dias de atraso, é provável que daqui um ano esse atraso seja de 50 ou 40 dias.

O Partido Novo decidiu não fazer alianças com nenhuma outra legenda. Caso o senhor não chegue ao segundo turno, acredita que essa postura pode mudar. Ou seja, o senhor pode apoiar outro candidato no segundo turno?

Não, eu não concordo com os demais candidatos, vou continuar fazendo meu trabalho, visando elegermos, daqui há dois anos, vários vereadores e prefeitos em Minas Gerais. Nós julgamos que na Assembleia temos condições de fazer de seis a oito deputados.

A ideia do Partido é montar uma base para chegar lá mais tarde?

Eu diria que tudo nasce pequeno. Já me questionaram porque o Novo não tem candidato a governador em todo o Brasil. Nós só temos  candidatos em cinco estados porque somos um partido muito recente. Então, vai ser um crescimento orgânico e sustentável. Não adianta você querer dar um passo muito grande e perder em qualidade.

Quais são as propostas do senhor para a saúde?

É concluir os nove hospitais regionais, que estão praticamente com a estrutura física pronta, alguns bem adiantados, como o de Governador Valadares. Mas, fazendo isso sem usar recursos do Estado. O Estado está falido. Nós queremos que organizações sociais e  filantrópicas, que gerenciam a área de saúde, nós temos diversas dessas em Minas, concluam essas obras e operem esses hospitais, destinando pelo menos 40% desses atendimentos para o SUS. É melhor termos algo misto, do que não termos nada. Ou seja, é melhor uma estrada (sic) 'pedagiada', do que nenhuma estrada.

Assista a entrevista na íntegra: