A expectativa de uma safra recorde de café no Sul de Minas foi, literalmente, por água abaixo. As chuvas que atingiram a região no início do mês provocaram enormes perdas, que poderão chegar a mais da metade da produção prevista para o ano. O diagnóstico é da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg).

As perdas na qualidade e na quantidade da produção da maior região produtora do mundo devem contribuir para a alta no preço da commodity. Especialistas explicam que também há uma expectativa de oferta restrita no mercado internacional, o que já vem impulsionando os preços.
Do início de junho até a última medição feita pelo Cepea, o valor líquido da saca de 60 quilos já saltou de R$ 467,25 para R$ 496,64, alta de 6,2% em 23 dias.

“O cenário é de oferta mundial com estoque meio apertado. Então, caso a colheita seja bastante prejudicada, o preço deve subir. E com o consumo crescente no mundo, isso pode se acentuar. É um quadro complexo”, explica o pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea).

Qualidade
De acordo com produtores ligados ao Sindicato Rural de Boa Esperança, as chuvas retiraram a proteção natural dos frutos favorecendo a maturação mais rápida e a proliferação de microrganismos, o que afetou a qualidade.

Além disso, os produtores não conseguiram colher e comercializar o grão como cereja descascado, que possui maior valor de mercado.
A situação de incerteza entre produtores é crescente. Segundo informações da Faemg, nos municípios mais dependentes do café já se discute até mesmo a decretação de estado de emergência.

“Tudo indicava uma safra muito boa de arábica neste ano, tanto em qualidade como em quantidade, mas aconteceu essa catástrofe. As chuvas fora de hora derrubaram entre 25% a 50% dos grãos, comprometendo fortemente a qualidade da safra”, afirma o diretor da Faemg e presidente da Comissão de Cafeicultura da entidade e Presidente da Comissão Nacional de Café da CNA, Breno Mesquita.

Clima
Tanto as chuvas quanto as geadas são fruto da passagem do El Ninõ para a La Ninã, fenômenos climáticos de características opostas que surpreenderam os cafeicultores, conforme explica a Coordenadora da Assessoria Técnica da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg).[/TEXTO]

“As plantas sentiram quando as chuvas e o frio chegaram aos cafezais, que já tinham sido prejudicados anteriormente pela seca. Além disso, os grãos maduros caíram no chão e o produtor leva mais tempo na secagem e nas etapas de pós-colheita”, explica.

A possibilidade de queda brusca de temperatura durante o inverno preocupa o mercado. O corretor de café Eduardo Carvalhaes, do Escritório Carvalhaes, de Santos, explica que só será possível medir o impacto das chuvas e do frio depois do processamento da safra. Para ele, a qualidade média do café natural vai cair.

“A melhor expressão para as últimas mudanças foi que esta safra ‘bateu na trave’. Ainda não é possível dizer que houve prejuízo sério, porque o inverno ainda não chegou. Mas o mercado opera com uma pulga atrás da orelha”, diz.

 

Produtores da Mantiqueira buscam a ‘Denominação de Origem’
Produtores de café de Minas apostam no selo de Denominação de Origem para alavancar preço e vendas nos mercados europeu, americano e asiático. A Federação dos Cafeicultores do Cerrado, na região de Patrocínio, foi a primeira a obter o selo de Denominação de Origem, em 2014. E desde o mês passado os produtores Associação de Produtores de Café da Mantiqueira, na região sul, buscam o registro.

Como explica, Pierre Vilela, superintendente do Inaes, instituto vinculado à Faemg, a denominação de origem atesta que as qualidades de um produto estão atreladas às características geográficas de onde ele vem (como relevo, clima e chuvas), bem como à tradição de produção.

“É preciso ter um caminho percorrido, provar que aquela região tem uma história e que, qualitativamente, há algo que diferencia aquele produto. Só aquele território consegue um produto com aquelas características”.

No Brasil, a DO, concedida pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), ainda é pouco conhecida. O recurso é muito comum no mercado europeu, já que garante ao produtor a exclusividade no uso do nome da região junto ao seu produto. Exemplos famosos são o Champagne (França) e o presunto de Parma (Itália). A Colômbia tem quatro regiões certificadas para café.

“Existem clientes que só compram se houver uma garantia de origem. Temos clientes no mercado japonês que exigem a certificação. O produto vai acompanhado do certificado e de um laudo de qualidade”, explica Juliano Tarabal, superintendente da Federação dos Cafeicultores do Cerrado.

De acordo com Tarabal, a saca de café especial vendida pela federação custa entre R$ 10 e R$30 a mais que o café comum. Foram vendidas 130 mil sacas especiais em 2016, ante 31,2 mil em 2011 – em 2015 houve queda de 95 mil mil sacas por conta da seca.

No Sul do Estado, a Associação dos Produtores de Café da Mantiqueira, já conseguiu outra certificação de indicação geográfica: a Indicação de Procedência, que pode ser considerada uma versão preliminar da Denominação de Origem.

O presidente da Associação, Antonio José Junqueira, explica que foram necessárias adaptações, que contribuirão para a DO. “O grande problema era a separação do café verde. É preciso tirar os cafés verde e os boias (pretos) e ficar somente com o cereja”.

No Sul, ainda será preciso um ganho de qualidade para se conseguir a DO, seguindo a escala de qualidade internacional, que vai de 0 a 100.
“A DO é mais complexa. Vamos ter uma garantia de bebida bem mais alta, 85 pontos. Um café é considerado especial com nota acima de 82”, diz Junqueira.
 

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